segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Recordações e Andorinhas

 

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2 comentários:

  1. Quinta-feira, Fevereiro 15

    PESSOA? PERSONAGEM?

    O que foi alegria, excitação, entusiasmo, tornou-se aborrecimento e desânimo. Hoje detesto viajar. Entro nos aeroportos com a fúria impotente de quem se vê obrigado a ser do rebanho. As intermináveis esperas, o ar de artifício que toda aquela gente tem, uns disfarçados de turistas, outros a fingir de homens de negócios, de aventureiros, mais os papalvos, os aflitos, os de ar blasé... Espectáculo deprimente.
    Entro no avião e raro escapo a um pensamento macabro: antes de me sentar, olho em volta, examino os rostos, as expressões, pergunto-me se me importaria morrer na companhia de semelhantes figuras. A resposta é um terminante sim, e tem por consequência a reconfortante certeza de que Deus, para me chamar a si, escolherá outra ocasião e companheiros menos trombudos.
    Um mês de ausência não é uma eternidade e, contudo, mudar em poucas horas de Estevais para Amsterdam, de uma casa para a outra, mudar de língua, de ambiente, hábitos, horários e obrigações, dá-me a impressão de que pelo menos uma destas duas vidas que vivo não é real, mas um papel de teatro. Que numa delas não sou pessoa, apenas personagem. Alguém que, involuntariamente, de si mesmo cria um duplo e o vê agir sem compreender que razões o movem, ou a que fim se dirige.

    In Recordações e Andorinhas
    J.RENTES DE CARVALHO

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  2. ENREDO

    Conhecemo-nos na sessão de autógrafos de um amigo e simpatizámos, fomos jantar. Achei-a inteligente, vivaz.
    Contou-me a história da sua vida. De estarrecer. Pobreza, violências, maus-tratos, incesto, álcool, droga, prostituição.
    Finalmente conseguira fugir para Barcelona, e lá conhecera um interregno de paz e felicidade.
    Foi nesse tempo que começou a trabalhar para os jornais e escreveu o livro que publicou há pouco. Todavia, logo depois nova reviravolta para a desgraça: álcool, prostituição, droga. Um amante tinha sido assassinado à faca, um ouro a tiro. O irmão suicidara-se de maneira bizarra, enforcado na janela de um segundo andar, as pernas a balouçar para a rua, demorando a que alguém atentasse no acontecido. Arrasada de corpo e de espírito, tinha passado meses no hospital.
    ___ E agora, como te sentes? __ perguntei, a dar-me tempo para absorver aquele rosário de tragédias.
    ___ Mais ou menos. Tomo antidepressivos, vou aguentando.
    Quando nos despedimos desejei-lhe sinceramente boa sorte.
    Isto foi umas semanas atrás. Dias depois falei no caso a um jornalista que a conhece e ele, em vez de se mostrar impressionado como eu esperava, desatou a rir, quis saber se tínhamos bebido.
    ___ O normal. Umas cervejas antes do jantar, depois uma garrafa ou duas de vinho, calvados. Porquê?
    ___ É que ela aguenta mal os copos e quando bebe confunde tudo, inventa. Sem malícia. Aliás, a sua vida nunca teve nada de trágico. O que ela te contou deve ser o enredo do romance que anda a escrever.

    IN Recordações e Andorinhas

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