O que foi alegria, excitação, entusiasmo, tornou-se aborrecimento e desânimo. Hoje detesto viajar. Entro nos aeroportos com a fúria impotente de quem se vê obrigado a ser do rebanho. As intermináveis esperas, o ar de artifício que toda aquela gente tem, uns disfarçados de turistas, outros a fingir de homens de negócios, de aventureiros, mais os papalvos, os aflitos, os de ar blasé... Espectáculo deprimente. Entro no avião e raro escapo a um pensamento macabro: antes de me sentar, olho em volta, examino os rostos, as expressões, pergunto-me se me importaria morrer na companhia de semelhantes figuras. A resposta é um terminante sim, e tem por consequência a reconfortante certeza de que Deus, para me chamar a si, escolherá outra ocasião e companheiros menos trombudos. Um mês de ausência não é uma eternidade e, contudo, mudar em poucas horas de Estevais para Amsterdam, de uma casa para a outra, mudar de língua, de ambiente, hábitos, horários e obrigações, dá-me a impressão de que pelo menos uma destas duas vidas que vivo não é real, mas um papel de teatro. Que numa delas não sou pessoa, apenas personagem. Alguém que, involuntariamente, de si mesmo cria um duplo e o vê agir sem compreender que razões o movem, ou a que fim se dirige.
Conhecemo-nos na sessão de autógrafos de um amigo e simpatizámos, fomos jantar. Achei-a inteligente, vivaz. Contou-me a história da sua vida. De estarrecer. Pobreza, violências, maus-tratos, incesto, álcool, droga, prostituição. Finalmente conseguira fugir para Barcelona, e lá conhecera um interregno de paz e felicidade. Foi nesse tempo que começou a trabalhar para os jornais e escreveu o livro que publicou há pouco. Todavia, logo depois nova reviravolta para a desgraça: álcool, prostituição, droga. Um amante tinha sido assassinado à faca, um ouro a tiro. O irmão suicidara-se de maneira bizarra, enforcado na janela de um segundo andar, as pernas a balouçar para a rua, demorando a que alguém atentasse no acontecido. Arrasada de corpo e de espírito, tinha passado meses no hospital. ___ E agora, como te sentes? __ perguntei, a dar-me tempo para absorver aquele rosário de tragédias. ___ Mais ou menos. Tomo antidepressivos, vou aguentando. Quando nos despedimos desejei-lhe sinceramente boa sorte. Isto foi umas semanas atrás. Dias depois falei no caso a um jornalista que a conhece e ele, em vez de se mostrar impressionado como eu esperava, desatou a rir, quis saber se tínhamos bebido. ___ O normal. Umas cervejas antes do jantar, depois uma garrafa ou duas de vinho, calvados. Porquê? ___ É que ela aguenta mal os copos e quando bebe confunde tudo, inventa. Sem malícia. Aliás, a sua vida nunca teve nada de trágico. O que ela te contou deve ser o enredo do romance que anda a escrever.
Quinta-feira, Fevereiro 15
ResponderEliminarPESSOA? PERSONAGEM?
O que foi alegria, excitação, entusiasmo, tornou-se aborrecimento e desânimo. Hoje detesto viajar. Entro nos aeroportos com a fúria impotente de quem se vê obrigado a ser do rebanho. As intermináveis esperas, o ar de artifício que toda aquela gente tem, uns disfarçados de turistas, outros a fingir de homens de negócios, de aventureiros, mais os papalvos, os aflitos, os de ar blasé... Espectáculo deprimente.
Entro no avião e raro escapo a um pensamento macabro: antes de me sentar, olho em volta, examino os rostos, as expressões, pergunto-me se me importaria morrer na companhia de semelhantes figuras. A resposta é um terminante sim, e tem por consequência a reconfortante certeza de que Deus, para me chamar a si, escolherá outra ocasião e companheiros menos trombudos.
Um mês de ausência não é uma eternidade e, contudo, mudar em poucas horas de Estevais para Amsterdam, de uma casa para a outra, mudar de língua, de ambiente, hábitos, horários e obrigações, dá-me a impressão de que pelo menos uma destas duas vidas que vivo não é real, mas um papel de teatro. Que numa delas não sou pessoa, apenas personagem. Alguém que, involuntariamente, de si mesmo cria um duplo e o vê agir sem compreender que razões o movem, ou a que fim se dirige.
In Recordações e Andorinhas
J.RENTES DE CARVALHO
ENREDO
ResponderEliminarConhecemo-nos na sessão de autógrafos de um amigo e simpatizámos, fomos jantar. Achei-a inteligente, vivaz.
Contou-me a história da sua vida. De estarrecer. Pobreza, violências, maus-tratos, incesto, álcool, droga, prostituição.
Finalmente conseguira fugir para Barcelona, e lá conhecera um interregno de paz e felicidade.
Foi nesse tempo que começou a trabalhar para os jornais e escreveu o livro que publicou há pouco. Todavia, logo depois nova reviravolta para a desgraça: álcool, prostituição, droga. Um amante tinha sido assassinado à faca, um ouro a tiro. O irmão suicidara-se de maneira bizarra, enforcado na janela de um segundo andar, as pernas a balouçar para a rua, demorando a que alguém atentasse no acontecido. Arrasada de corpo e de espírito, tinha passado meses no hospital.
___ E agora, como te sentes? __ perguntei, a dar-me tempo para absorver aquele rosário de tragédias.
___ Mais ou menos. Tomo antidepressivos, vou aguentando.
Quando nos despedimos desejei-lhe sinceramente boa sorte.
Isto foi umas semanas atrás. Dias depois falei no caso a um jornalista que a conhece e ele, em vez de se mostrar impressionado como eu esperava, desatou a rir, quis saber se tínhamos bebido.
___ O normal. Umas cervejas antes do jantar, depois uma garrafa ou duas de vinho, calvados. Porquê?
___ É que ela aguenta mal os copos e quando bebe confunde tudo, inventa. Sem malícia. Aliás, a sua vida nunca teve nada de trágico. O que ela te contou deve ser o enredo do romance que anda a escrever.
IN Recordações e Andorinhas