terça-feira, 17 de outubro de 2017

Chegou o livro que explica a saga da Santidade de D. Afonso Henriques


BARROSO da FONTE
Em 24 de Junho de 2014 foi apresentado no Paço dos Duques de Bragança, o Aparato Histórico sobre a Santidade do nosso I Rei D. Afonso Henriques. Essa apresentação fez parte do programa  comemorativo dos 886 anos da Batalha de S. Mamede.  Essa obra chegou a ser mencionada pelos poucos Historiadores que dela souberam, como «a primeira História de Portugal». Foi escrita em Roma, como tese de doutoramento de José Pinto Pereira, nascido em Guimarães (31/3/1659 -17/2/1733) e destacado para o Vaticano, onde permaneceu 29 anos, como Cavaleiro da Ordem de Cristo. Este padre Vimaranense já nessa altura ouvia diferentes «estórias», acerca do primeiro Vimaranense. E por isso se dispôs a recontar a vida desse Português que fundou o País que fomos.
 O júri aprovou a tese desse Teólogo, incluindo o Papa Bento XIII que deveria iniciar, em 1728, o processo de beatificação, perante a conclusão científica de que ele fora «Pio, Beato e Santo». Essa obra ficou conhecida como Apparatus Historicus. O livro fora escrito, em latim, como era comum, a esse tipo de obras relacionadas com a religião. O título em versão portuguesa, era usual nessa época e as palavras significam o mesmo em Português.
Coincidindo o aparecimento da obra com o corte de relações, entre Portugal e a Santa Sé, o Aparato Histórico ficou impresso, mas silenciado durante os quase 300 anos que decorreram. Quando em 2011 publicámos «Os novecentos anos de D. Afonso Henriques», o investigador Pinharanda  Gomes elogiou o livro mas lamentou que nele não constasse esse título. Obtivemos um exemplar na Biblioteca Central da Catalunha e demos dele notícia na imprensa da época. Apelámos à sua tradução e apareceu um nosso leitor que nos pediu esse exemplar para confrontar com um outro que se encontrava no seu espólio, o que se confirmou. Ele próprio liderou um grupo e, feita a tradução, recorreu à Câmara para custear a edição. Tudo bem. Só que o livro não saiu do Arquivo Municipal Alfredo Pimenta ao preço de custo de 60 euros. Soubemos que apenas se vendera meia dúzia de exemplares. E, a confirmar-se esse facto não abona ninguém, a começar pelo desinteresse do público, mesmo tratando da figura eloquente do nosso Rei fundador, à política de distribuição. Essa obra pelo que representa e pela importância de pela primeira vez estar, em língua portuguesa é fator decisivo para velhos e novos que não saibam lidar com o latim.
 Para obviar esta evidência a Fundação Lusíada que inspirou e corporiza os objetivos da Ordem de Ourique, convidou-nos para coordenador de um livro, mais acessível, mais prático e plural, na medida em que reúne testemunhos de quatro autores, sistematizando tudo quanto acerca deste tema da santidade se tenha escrito e ensinado. Quase quatro anos depois não se realizou qualquer evento académico. A Academia Portuguesa de História que protagonizou, em 2009, uma pirueta mais ampla do que o atual mapa de Portugal, fez orelhas moucas. E os departamentos de História das Universidades Públicas e Privadas, ou não têm dinheiro para atualizar as bibliotecas, ou não têm docentes sensíveis aos progressos científicos.
  Talvez ainda não tenham tido acesso ao Aparato Histórico que, sendo uma tese de doutoramento, defendida em Roma, deveria encher de alegria, pelo menos, o departamento das Faculdades de letras e ciências que funcionam nalguns dos  seus núcleos, dispersos pelo Continente  e Ilhas. Para não alegarem que ainda não tiveram acesso ao volume do Aparato Histórico, que está disponível no Arquivo Alfredo Pimenta, aparece, neste outono soalheiro, um novo livro que nasce por causa dessa nova forma de censura. Nas suas quase 400 páginas, os quatro co-autores, explicam e fundamentam aquilo que escreveram em fontes impressas da Lusofonia acerca deste tema. Além desses quatro textos o leitor encontra o  extratos que foram saindo, aqui e ali, sobre a Saga da Santidade de D. Afonso. Citam-se em português os dez argumentos ou «indícios de santidade» que andam no ar, como lendas ou ditos, alguns dos quais, analisados à luz da ciência e da fé, foram considerados, pelos teólogos, visões do divino.
 Uma seleção substancial de testemunhos registados ao longo dos três séculos decorridos, permitem ajuizar acerca do estado de espírito que tão delicada matéria sempre conflituou entre  sagrado e o profano. Por último o leitor atualiza, mediante a leitura de textos polémicos, as divergências entre aqueles que amam a História e nela satisfazem esse orgulho; e aqueles que a mercantilizam, adicionando peripécias que induzem mais do que deduzem, infirmam mais do que afirmam e especulam mais do que o bom senso recomenda. A Saga da Santidade de D. Afonso Henriques não é mais do que uma explicação dos dez argumentos ou indícios de santidade de D. Afonso Henriques que permitiram proclamar, em 1728, a conclusão a que os mais qualificados Teólogos ao Serviço do Vaticano chegaram, da leitura da tese de José Pinto Pereira: que ele fora «pio, beato e santo».
Em 2009, o Papa Bento XVI, perante idêntica situação, relativamente a D. Nuno de Santa Maria, não hesitou em canonizá-lo. 
Bento XIII, negou-se a atribuir ao cardeal Vicente Bichi, a nunciatura de Lisboa. E D. João V negou-se a receber, em Lisboa,  D. José Firrão, que fora imposto por Espanha. O papa não teve coragem de satisfazer a vontade a D. João V, mas sim, em contentar Filipe IV, de Espanha. Impunha que o rei Português se ajoelhasse perante o homólogo de Madrid. Por outro lado o cardeal Polignac combatia o seu homólogo, Vicente Bichi.  Face a essa birra, o monarca Português que deu muito mais Roma do que Roma merecia, para expiar os pecados com as freiras de Odivelas, abruptamente, cortou relações, perdendo-se a beatificação de D. Afonso Henriques. Urge retomar este processo. E daí a oportunidade deste livro.

                                                              

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Almas Mortas


Como Gogol idealizou esta obra está bem explicado no pequeno prefácio do volume por um dos seus tradutores: Filipe Guerra.
O período aí retratado é o da Rússia dos servos e senhores (como nos conta Tolstoi no seu belo conto “Servo e Senhor”).
Diz-se que o escritor russo (ucraniano) não pretendeu fazer uma critica ao sistema. Nós pensamos o contrário. Além do fino humor, Gogol é sarcástico ao contar as aventuras de Tchítchikov, o herói do volume, um burocrata afastado do serviço público por desonestidade, nas suas andanças pelo interior da Rússia, à procura da fortuna. Os Seus contactos com as autoridades das pequenas cidades e dos proprietários de terras, servem de pano de fundo para Gogol apresentar uma visão crítica e mordaz do sistema semi-feudal existente à época, com os servos vivendo em regime de escravidão.
O volume trata de uma história insólita.  Pável Ivánovitch Tchítchicov percorre o interior da Rússia em busca de dinheiro, respeito e vantagens, mas com um plano bizarro e nada licito: comprar almas mortas.
A época em que a narrativa se concentra era caracterizada por aspectos pouco compreensíveis para os nossos dias. Os campos russos eram divididos em grandes propriedades, e os "pomiêchtchiki" (donos de grandes propriedades rurais) eram donos de muitas almas (os servos, que trabalhavam a terra, sem nunca a possuir).
O protagonista desta história é um oportunista medíocre e um mentiroso nato, mas manipulador das características humanas. Molda-se ao carácter das pessoas socialmente influentes, enganando-as. Um golpista!
Mesmo inacabado, o volume é um marco na Literatura Russa, com um final cujo desfecho depende do leitor. Com linguagem simples, um enredo bem estruturado, Gogol apresenta na narrativa um estudo perfeito do ser humano. Característica, aliás, visível em todos os grandes escritores russos.

Ano trágico para Portugal

Vieira de Leiria

Por: Costa Pereira - Portugal, minha terra

Mais um mês caminha para seu final, é Outubro. Um Outubro marcado por incêndios devastadores de bens materiais e de vidas humanas também. Só neste domingo mais de três dezenas de vidas se foram juntar às que anteriormente tombaram no Pedrógão Grande. E tudo naquele silencio que a lei da  morte ordena…São fogos que surgem fora da época, se é que podemos considerar haver época de incêndios. Se há  não devia haver . O que se está a passar neste país em relação a incêndios florestais é bem o espelho da sociedade de que somos membros e da culpabilidade que todos temos na sua degradação, causa de muitos devaneios... Em política o poder tenta apagar fogos com frases salivares e promessas que granjeiem a caça do voto. O que forçou o Arcebispo Primaz de Braga a pronunciar-se na página do Facebook dizendo“Portugal está a arder! Basta de discursos e boas intenções! É imperioso apurar responsabilidades e agir”. Não devemos pensar mal de ninguém, até porque é prejudicial para a nossa mente que se quer sempre livre de embaraços. Mas o facto dos incêndios florestais envolverem tanta industria e comercio como envolve, por vezes faz-nos pecar… É demais. Depois sabendo que até os “sucateiros” à custa de políticos sem vergonha fazem fortuna, imaginar que também se pode enriquecer à custa dos incêndios não é grande admiração. Mas isso é do foro judicial. As desculpas que é das matas por limpar e do calor do sol não pega, já assim era no tempo da “outra senhora”e os incêndios escasseavam, só quando mão criminosa os apegava é que lá tinham as brigadas florestais de atuar. É o que faltou neste ano trágico para Portugal.


domingo, 15 de outubro de 2017

Um livro indispensável


Frei Bento Domingues O.P. – jornal Público

As questões abordadas no novo livro de Miguel Oliveira da Silva não deveriam deixar ninguém indiferente.

1. Que livro é esse que me leva a dizer que é mesmo indispensável? Se tenho de confessar que foi essa a convicção que a sua leitura me impôs, sei que o espaço desta crónica não é o mais adequado para a justificar. A verdade é esta: ajudou-me a diminuir ignorâncias que talvez não sejam só minhas; ofereceu-me o conhecimento de alguns percursos da Bioética que ajudam a vencer a ideia de que perante questões tão complexas, o mais razoável seria deixá-las no segredo dos especialistas.
O título, que enche a capa dessa obra, revela, sem ambiguidades, o seu conteúdo: Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer. Destina-se a possibilitar um debate de cidadãos, esclarecido e fecundo.
O autor, Miguel Oliveira da Silva, é professor catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. Foi, entre 2009 e 2015, o primeiro presidente eleito do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Integra, por eleição, o bureau da DH-Bioética do Conselho da Europa.
No passado dia 9, a obra foi apresentada, na Casa-Museu Fundação Medeiros e Almeida, por José Barata-Moura e Anselmo Borges. Ficou claro que as questões abordadas neste livro não deveriam deixar ninguém indiferente. Têm a ver com a dignidade humana de todos os cidadãos, do presente e do futuro. Vivemos num mundo global, mas que também parece cada vez mais fragmentado e não se prevê que se vá tornar mais estável.
Como reza um velho aforismo, o que a todos diz respeito deve ser tratado por todos. Segundo S. Tomás de Aquino, a virtude da prudência política — condição para intervir de forma esclarecida nas orientações e decisões da comunidade — não é uma exigência exclusiva de legisladores e governantes. É indispensável a todos os cidadãos. Se a cultura activa das virtudes torna bons os seus praticantes e boas as suas acções, sem ela até as leis mais justas perdem vigor e eficácia na sua aplicação.
Para serem virtuosas, as opções e decisões políticas não podem dispensar o recurso a estudos adequados. Segundo o citado autor, o estudo, além de todas as experiências e dados recebidos dos investigadores, professores e educadores, exige sempre uma veemente aplicação da mente. Sem esse esforço não se consegue verdadeira autonomia pessoal.
Não se deve confundir ética e política. Não esqueço, porém, que a política é uma ciência prática cujo objecto é o agir, algo complexo e mutável. A decisão prudencial ganha em associar a ética da convicção e a da responsabilidade, isto é, tem de saber calcular os riscos e as consequências das opções. As melhores intenções, sem políticas bem preparadas e executadas, alimentam as piores asneiras.
Tornou-se um hábito dizer mal da política e dos políticos, sobretudo dos que não são da nossa cor. Mas esquecer que nos pertence alterar rumos e métodos da prática política é uma forma de masoquismo. Um dos frequentes incitamentos do Papa Francisco aos cristãos incide, precisamente, sobre a importância da cura da intervenção política para que esta não seja guiada pelos interesses do dinheiro que geram a economia que mata crianças e adultos e provoca os criminosos negócios das guerras, desgraça dos povos.

2. Na contracapa desde livro de Miguel Oliveira da Silva está escrita a sua motivação. Perante o alargamento de direitos individuais nos extremos da vida humana, somos responsáveis pelo modo como o Estado assegura ou não a protecção dos mais vulneráveis: os jovens produtos de tecnologias genéticas e reprodutivas e as pessoas humanas em sofrimento intolerável que reclamam querer morrer.
Como ser equitativo no acesso a estas tecnologias e qual é, aqui, a relação entre o Serviço Nacional de Saúde e o sector privado? Quando e como têm os pais a obrigação de assegurar que os seus filhos possam conhecer a verdade sobre a sua história biológica: quem lhes deu o esperma ou o óvulo, qual a mulher que os gerou e pariu, quantos meios-irmãos poderá ter?
O parecer dos peritos deve servir para pôr as pessoas a pensar, debater, informar, cogitar para não ser uma perfeita trivialidade.
Um debate sobre uma questão ética nunca está completamente encerrado. Por vezes, e ainda que de outro modo, há que retomar, periódica e recorrentemente, as mesmas interrogações e dúvidas. As leis bioéticas não podem prever todos os casos, todas as situações concretas, sobretudo quando se trata de novas tecnologias reprodutivas e genéticas que podem obrigar a uma reapreciação e eventual mudança legislativa [1].

3. É absolutamente impossível tentar resumir o conteúdo dos diferentes capítulos ou temas desta obra, embora fosse a melhor maneira de apresentar as razões que me levam a chamar-lhe um livro indispensável. Indispensável não é o livro. Indispensável é conhecer a história e os debates da bioética, em Portugal e nos outros países, para que seja possível uma participação democrática em assuntos que a todos dizem respeito.
Como já escreveu Anselmo Borges, o achismo é o inimigo do conhecimento e do debate entre cidadãos. Para encher os meios de comunicação — rádios, televisões, jornais, redes sociais — não é preciso conhecimento argumentado. Basta dar a ilusão que a verdade não tem interesse, tanto mais que a época da pós-verdade é o seu reino. Silêncio imposto sobre determinados temas já o conhecemos e ainda existe em muitos países. Mas agora, procura-se o mesmo resultado falando muito. Poucos dias depois de ter chegado a Nampula (Moçambique), e não sabendo nada de macua, passei por um grupo que falava e gesticulava alegremente. Perguntei a um rapaz macua, que sabia português, o que estava aquela gente a dizer com tanto entusiasmo. Resposta rápida: não estão a dizer nada, é só falar. Hoje em dia, e entre nós, em relação a muitos programas que pretendem ser de informação e debate, tenho a impressão de que também não dizem nada. É só falar. Seriam bem dispensáveis.
O que não se pode dispensar é o conhecimento da história da bioética que — ao contrário da clássica Ética Médica até aos anos 70 do século XX — tem um outro horizonte temporal e outro alcance filosófico: a equação moral que não se esgota na imediatidade ou proximidade da relação quase sempre privada e individual médico-doente. Há um outro tempo, uma esfera pública e comum, transgeracional que pode mesmo afectar o futuro do planeta [2].

[1] Cf. Miguel Oliveira da Silva, Eutanásia, Suicídio Ajudado, Barrigas de Aluguer, Caminho, Lisboa, pp 80-87; 114-124
[2] Cf. Obra citada, pp 63-68

O Gulag soviético, filho da Revolução de Outubro de 1917


As políticas genocidas na Rússia Soviética dos anos 1932-1933 e 1937-1949 estão hoje devidamente documentadas e estudadas. Já Dostoyevsky em Demónios, nos transporta para as origens do terrorismo moderno. Porque o conceito de “terror em massa” é fulcral em Lenine, fórmula que surge a partir da revolução de 1905. Volta a surgir em força na Primavera e durante o Verão de 1918, estando ainda presente em Abril de 1921. E largamente apoiada por intelectuais como Gorki, sobretudo no que diz respeito à massa de camponeses. Em 1930-31, foram deportados cerca de dois milhões de camponeses.
De repente, o terror de 1793 dos “homens do barrete frígio” é institucionalizado no dia cinco de Setembro de 1918 pelo decreto “sobre o terror vermelho”. De facto, os meses que se seguem caracterizam-se por um clima de violência estatal absolutamente novo. São 15.000 as vítimas do Outono de 1918. Ou seja, foram executados, em dois meses, três vezes mais do que o número total de executados no último século pelo terror czarista!
Nicolas Werth destaca o escabroso editorial do jornal da tcheka de Kiev: “Que o sangue jorre a rodos!”.
Caracterizado pela obsessão da depuração, o terror de massas leninista cria a via de limpeza social que Estaline empreende a partir de 1929, ano da “Grande Viragem” e dos “Amanhãs que cantam!”.
O jornal Público destaca hoje um trabalho de António Araújo sobre este assunto – o Gulag Soviético.
Em Agosto, ensaio sobre esta questão, foi publicado em Delito de Opinião, seguido em Tempo Caminhado.

A procuradoria-geral da República



Um Regime podre


O Regime apodreceu lentamente. O processo marquês envergonha a decência. Porque as três dezenas de biltres acusados não representam o povo português. Que trabalha, vive de vencimentos miseráveis e raramente se estende em extravagâncias. Latino, alegre, amigo de uns copos, de umas petiscadas, mas sensato nos comportamentos. Estas três dezenas de salafrários representam um povo diferente: os 10% que nasceram com aquela parte anatómica virada para a Lua!
“Não vades por aí”, teria dito o padre António Vieira. Mas eles foram. Porque não conhecem esta linguagem. Foram eles e os Presidentes da República que os condecoraram.
1. José Sócrates, antigo primeiro-ministro português, está acusado 31 crimes.
Foi eleito primeiro-ministro duas vezes, através da manipulação da opinião pública. E foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do infante Dom Henrique em 2005 por Jorge Sampaio
2 - Hélder Bataglia foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do infante Dom Henrique em 2005 por Jorge Sampaio.
3 - Armando Vara, acusado de cinco crimes (e condenado no processo dos robalos com cinco anos de prisão efectiva) foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem do infante Dom Henrique em 2005 por Jorge Sampaio
4 - Zeinal Bava, o gestor modelo, premiado com todos os prémios, apontado como exemplo à juventude tecnologicamente afoita, está acusado de cinco crimes. Tem um doutoramento honoris causa, e foi condecorado com Grã-Cruz da Ordem do Mérito Empresarial Classe Comercial em 2014, atribuída por Cavaco Silva
5- Henrique Granadeiro, considerado um dos grandes gestores portugueses e com uma longa carreira cívica e política, está acusado de oito crimes. Foi condecorado com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo de Portugal em 1979, atribuída por António Ramalho Eanes
6 - Miguel Horta e Costa foi condecorado por António Ramalho Eanes e por Jorge Sampaio.
Importa ainda recordar que Ricardo Salgado, anteriormente conhecido como o “dono disto tudo”, está acusado de mais de 20 crimes. Tem um doutoramento honoris causa e várias condecorações nacionais e estrangeiras. E importa ainda relembrar o seguinte: Armando Vara esteve metido nas embrulhadas sinistras que todos sabemos dos negócios da Prevenção, uma instituição privada que recebia dinheiros públicos e fugia aos concursos públicos. A Fundação Para a Prevenção e Segurança Rodoviária, criada por Armando Vara aquando da sua passagem pelo MAI, forçou a sua demissão de ministro da Juventude por parte de António Guterres, depois das pressões do então Presidente da Republica Jorge Sampaio. Que razões teriam posteriormente levado Sampaio, a condecorá-lo em 2005?
O pântano; a podridão do regime?


sábado, 14 de outubro de 2017

Onde está a guarda socrática?



Vítor Rainho – jornal SOL

A primeira vez que vi José Sócrates foi quando o entrevistei com a Cristina Figueiredo e fiquei impressionado. 

O homem tinha uma segurança de aço, mas devido à sua excessiva confiança, cometia deslizes de principiante.Recordo-me que, a determinada altura, mandou desligar o gravador, naquele tempo ainda existiam as cassetes, pois queria dizer uma coisa em off. Depois de revelar o que lhe ia na alma, mandou ligar de novo o gravador.
E foi aí que cometeu o tal deslize de principiante quando lhe perguntei por que não assumia em on o que nos acabara de dizer. A resposta ficou célebre: «Olhe que eu sou um animal feroz» – e depois fez mais umas tantas considerações que foram publicadas na altura, já que assim o permitiu. Uns anos depois encontrei-o outra vez, agora na residência do primeiro-ministro, aquando do lançamento do SOL, em que recebeu a direção do jornal  – José AntónioSaraiva, José António Lima, Mário Ramires e eu. De uma frieza impressionante, começou por se referir às vendas do primeiro número, dizendo que o jornal deveria ter vendido muito bem em Cascais, ao que nós respondemos que assim foi no país inteiro, já que os 120 mil exemplares esgotaram.
Era notória a sua antipatia comigo por causa da célebre frase – o mais curioso é que José António Saraiva não achou muita graça ao título e tive de o convencer do contrário – e sempre que eu dizia alguma coisa lá saltava o ‘animal feroz’ que vive dentro do ex-primeiro-ministro e eu ria-me para dentro. Foi assim durante todo o almoço em que ficámos de um  lado da mesa e Sócrates, Pedro Silva Pereira, Almeida Ribeiro, David Damião e Luís Bernardo do outro. Nunca mais nos voltámos a encontrar e até tinha uma certa simpatia pelo seu lado rebelde e por gostar dos prazeres da vida.


Com Armando Vara a história sempre foi outra. Quando foi secretário de Estado da Administração Interna, o ministro era Alberto Costa, tivemos discussões monumentais, pois ele dizia que me «queimava» as notícias todas divulgando-as antes noutros jornais para perderem o impacto quando fossem publicadas no Expresso. Depois disso tivemos um encontro divertidíssimo proporcionado pelo ministro de então Jorge Coelho. Foi uma noite de risada geral. Uns anos depois voltámos a cruzar-nos num hotel em Maputo mas ele fez que não me viu e eu fiz o mesmo. Afinal, já tinha escrito muitas notícias sobre a Fundação Para a Prevenção e Segurança Rodoviária, criada por Armando Vara aquando da sua passagem pelo MAI, e António Guterres foi obrigado a demiti-lo de ministro da Juventude depois das pressões do Presidente Jorge Sampaio. As notícias sobre as embrulhadas estranhas de Vara no negócio da Prevenção, uma instituição privada que recebia dinheiros públicos e fugia aos concursos públicos, assim o determinaram.









Foi este mesmo homem que acabaria por chegar a vice-presidente de dois dos principais bancos portugueses: a CGD e o BCP. Sócrates começaria a ficar debaixo de fogo com a sua passagem pela Secretaria de Estado do Ambiente. Quem não se lembra do Freeport? O resto é o que se sabe. Pois bem, estes dois homens foram defendidos até à exaustão por Pedro Silva Pereira, João Galamba, Artur Santos Silva, António Marinho e Pinto e Vieira da Silva, entre outros, que atacavam todos aqueles que punham em causa a seriedade dos dois governantes. O que têm a dizer agora esses guardas da coroa socrática?

Sócrates & Companhia Ilimitada




Alberto Gonçalves - OBSERVADOR

Em tempos, faltava pouco para que o fervor dos devotos por Sócrates suscitasse imolações pelo fogo. Hoje assobiam para o lado e preferem que o indivíduo se imole sozinho. Nem a lepra assustava assim.

Na quinta-feira à noite, a sra. dona Constança Cunha e Sá explicou na TVI o principal motivo pelo qual a acusação de José Sócrates não vale a atenção de pessoas ilustres: não trouxe, cito, “surpresas”. Pelos vistos, trinta e um crimes não bastaram à referida jornalista, que aparentemente gostaria que o antigo primeiro-ministro fosse acusado de coisas inusitadas como o abuso de pinguins ou o roubo de tubos de escape. Na verdade, a sra. dona Constança Cunha e Sá gostaria que José Sócrates não fosse acusado de todo.
Tratou-se de um raro e bonito momento de solidariedade para com o menino que sonhava com ventoinhas e apartamentos em Paris. Em tempos, faltava pouco para que o fervor dos devotos por José Sócrates suscitasse imolações pelo fogo. Hoje, os devotos assobiam para o lado e, à cautela, preferem que o indivíduo se imole sozinho. Nem a lepra assustava assim. Uma rápida consulta às capelinhas virtuais da seita apenas encontra silêncio e distracções. Enquanto os “media”, com discrição e fastio, davam as novas da “Operação Marquês”, no blogue do peru emproado que enfiou o “engenheiro” na Sorbonne discorria-se em volta de “Che” Guevara: em Outubro de 2017, até a associação a um psicopata parece comprometer menos do que a intimidade com o “autor” de “A Confiança no Mundo”. E este é um mero exemplo. Por regra, e à semelhança dos milhões movimentados nas negociatas, os amigos de José Sócrates sumiram sem rasto nem vergonha.
O facto é tanto mais notável quanto os amigos de José Sócrates eram imensos. Alguns, fiéis à força, continuam a fazer-lhe companhia nas quatro mil páginas do processo. A maioria passeia-se sorridente. Sorridente e amnésica. Se o pacote de acusados constitui uma amostra razoável da oligarquia que regularmente enxovalha o país, convém notar que, por definição, as amostras deixam o resto de fora.
E o resto é demasiada gente. A gente dos “media”, nulidades amestradas que José Sócrates inventou ou desenterrou para o servir. A gente do comentário “isento”, sob nome próprio ou pseudónimo, cujas avenças cresciam de modo directamente proporcional à beatificação do amo e senhor. A gente dos negócios que prosperava à sombra da criatura e retribuía a prosperidade com juros. A gente da “justiça”, indivíduos com pilosidade auricular que garantiam a impunidade do benemérito que lhes arranjou emprego. A gente das “relações pessoais”, um folclórico grupo de familiares, namoradas e espontâneos que cirandava em redor de dinheiro facílimo. Sobretudo a gente da política, que subiu com José Sócrates, conspirou com ele e zelosamente lhe amparava os delírios.
É possível que essa gente não tenha sabido de nada, dado por nada, reparado em nada, desconfiado de nada, participado em nada. É possível que essa gente constitua o maior aglomerado nacional de débeis mentais desde a inauguração de Rilhafoles. É possível, e nesse caso seria um acto de mera comiseração e humanidade remover essa gente do convívio com os demais, a bem de uns e dos outros. É possível, e não se deve ficar tranquilo quando, ao inventariar a tralha “socrática” que continua a infestar lugares de decisão ou influência, imaginarmos que Portugal pode ser pasto de idiotas terminais. Ou então não é possível, e a intranquilidade aumenta.
Se calhar, não é realmente possível que essa gente não tenha experimentado o vestígio de uma suspeita, ou estranhado a folia, ou mesmo colaborado nela. E se calhar não é possível não saber que, além de obviamente ilegal, a folia acontecia à custa dos cidadãos “comuns” que essa gente finge defender em cada uma das suas descaradas intervenções. Em qualquer das hipóteses, essa gente não merece andar por aí em paz, ou porque é clinicamente incapaz disso, ou porque é moralmente indigna.
E, no entanto, é preciso repetir: essa gente anda em paz. Para cúmulo, também manda em paz, e com o exacto tipo de descontracção e alcance que José Sócrates tentou sem conseguir. Por morrer uma andorinha, ou ser julgada uma quadrilha, não acaba o regabofe. A acusação do “animal feroz” e fauna restante, do honradíssimo sr. Salgado aos portentosos gestores Bava e Granadeiro, é, para as suas inúmeras vítimas, um instante de alívio “formal”. Mas, em última instância, é só uma pedrita leve no charco de compadrios que aqui passa por regime. Salvo fogachos, na sua repulsiva natureza o regime está bem e muitos – agora incluindo certamente o próximo líder do PSD – recomendam-no. E os apreciadores farão, como costumam fazer, bom proveito.

Sócrates só pode ser julgado pela história?


Rui Ramos - OBSERVADOR

Tivemos um primeiro ministro cujas despesas pessoais eram pagas secretamente por um dos empresários com mais contratos com o Estado. Quando é que os políticos nos vão dizer o que pensam disto?

Perante a acusação contra José Sócrates e Ricardo Salgado, a nossa oligarquia fecha-se em copas: temos de esperar pelo fim do julgamento. Na quarta-feira, alguém fez contas: o julgamento nunca começaria antes de 2019, não acabaria antes de 2025 e, com os recursos, o caso só transitaria em julgado aí por 2030. Não sei se será assim, mas há precedentes para tais vagares. Ora, se aplicarmos a regra, muito querida da oligarquia, de que não podemos pedir a um político uma palavra ou uma linha sobre o assunto enquanto o caso estiver a ser tratado “no lugar próprio”, isto significaria que o regime, confrontado com o maior escândalo da sua história, poderia fingir que nada aconteceu até pelo menos 2030. Como será o mundo daqui a treze anos? Vamos entender-nos: a coberto do processo judicial e da invocação perversa e imprópria de princípios constitucionais como a separação de poderes e de figuras jurídicas como a presunção de inocência, há quem espere reduzir a mais grave indignidade deste regime a uma questão de interesse meramente histórico.
Temos mesmo de esperar pela sentença? Não, por três razões. Primeiro, porque o princípio da separação, que salvaguarda a autonomia de cada poder do Estado, e a presunção de inocência, que garante os direitos do cidadão perante o Estado, não existem para condicionar a liberdade de expressão e impedir o debate público, fundado na opinião legitimamente formada pelos cidadãos a partir da informação disponível.
Segundo, porque aquilo que já foi admitido por José Sócrates em público é mais do que suficiente para uma crise de regime: Portugal teve um primeiro ministro cujas despesas pessoais eram secretamente pagas pelo administrador de uma das empresas que mais contratos obteve do Estado durante o seu governo. No mundo, tem havido grandes escândalos por muito menos. É preciso aguardar por 2030 para os nossos políticos terem opinião sobre isto?
Terceiro, porque este não é só um caso de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais. É um caso, segundo a acusação, de uma conspiração entre um primeiro-ministro e o presidente de um dos maiores bancos para controlarem o Estado, a economia e a comunicação social em Portugal. Sobre a corrupção, a fraude fiscal e o branqueamento de capitais julgará, em relação a cada um dos acusados, o tribunal. Mas sobre o suposto projecto de domínio político-financeiro e a aparente dificuldade das instituições para o prevenir, quem deve falar desde já, no que diz respeito ao regime, senão os políticos?
A razão da nossa oligarquia para se calar é óbvia. Há demasiada gente na política e nos seus arredores que fez carreira com um líder agora acusado de 31 crimes. Mas bastar-lhes-á aguardar pela sentença “com tranquilidade”? Não é legítimo pedir-lhes uma explicação? Por exemplo, nunca tiveram uma dúvida, quando sabemos que sempre houve suspeitas? A propósito dos abusos sexuais do produtor Harvey Weinstein, discute-se agora na América a “cultura de cumplicidade” que o teria protegido durante anos. Não deveríamos nós estar a discutir a “cultura de cumplicidade” que parece haver à volta da corrupção e do abuso do poder na democracia portuguesa? Uma cultura feita de indiferença ética, de comunhão na ganância e de um sentimento de impunidade alimentado, de alto a baixo, pela promiscuidade no Estado, pela dificuldade de provar estes crimes e por votações como as de Oeiras.
A justiça dirá se alguém merece multas e prisões; a política deveria dizer outra coisa: se alguém ainda merece a nossa confiança. Não podemos esperar por 2030. A História os julgará? Mas essa é a prerrogativa dos ditadores, como o general Franco, que, enquanto caudilho de Espanha, “só respondia perante Deus e a História”. É assim que os nossos oligarcas também já pensam: que só a História os poderá julgar?