O período do Processo
Revolucionário em Curso (PREC) ainda é, estupidamente, tema tabu. Factos são
factos.
Vítor Rainho ( Jornal Nascer do Sol )
18 de abril 2026

Já passaram 50 anos
do 25 de Abril e os traumas deixados pelo Estado Novo e pelo período do PREC
ainda estão bem frescos. Quer num período, como no outro houve quem sofresse às
mãos dos seus carrascos, leia-se PIDE e revolucionários. Uns cederam à tortura,
outros não. Como os traumas ainda estão bem vivos é natural que ao falar-se do
assunto logo se levantem vozes contra, de acordo com o lado da barricada em que
cada um está. O que se passou no tempo da ditadura está mais do que documentado
e ninguém coloca em causa as atrocidades que foram cometidas. Mas falar do
período do PREC, onde centenas, ou milhares, sofreram às mãos dos
revolucionários, ainda é quase proibido. Que se está a desvalorizar o que se
passou na ditadura, onde muitos pagaram com a vida por lutarem por democracia e
liberdade, dizem. Como estou fora dos dois lados, isto é, tinha oito anos no 25
de Abril, gosto de ler e falar dos dois períodos livremente, pois um dos
grandes objetivos do 25 de Abril era precisamente esse: o da liberdade.
Ao ler o livro No
Terramoto de 1975, de Tomás Moreira, que recomendo vivamente, para fazer a
Entrevista Imprevista, da página 2,
interroguei-me sobre as razões de se querer ‘esconder’ factos que se
passaram no Verão Quente. O autor – filho de Ruy Moreira, o empresário que
criou a famosa marca Molaflex, e esteve oito meses preso sem culpa formada –
fala da extrema-esquerda como da extrema-direita de uma forma desempoeirada.
Relatório
https://www.arquivo.presidencia.pt/viewer?id=989&FileID=302741&recordType=Description
Há quem argumente que
o período do PREC foi devidamente analisado pelo Relatório da Comissão de
Averiguação de Violências sobre Presos Sujeitos às Autoridades Militares, vulgo
Relatório das Sevícias, e que o mesmo demonstra que se vivia em liberdade em
1976. Têm toda a razão, mas esquecem-se de dizer que se não tivesse existido o
25 de Novembro teria sido impossível fazer tal relatório.
Depois há a questão
de se saber se havia mais presos políticos no dia 25 de Abril de 1974 do que
durante o PREC. Parece óbvio que em Portugal continental havia menos presos
políticos do que durante o PREC. Também é óbvio que se juntarmos os presos nas
ex-colónias, a balança inverte-se. Esta comparação, como é óbvio, não inclui os
numerosos presos políticos durante os 48 anos anteriores a 74.
Mas também me parece
óbvio que se a PIDE prendia todos aqueles que achava que eram subversivos e os
torturava – principalmente operários e estudantes, pois os advogados e
‘doutores’ tiveram melhor sorte – também o mesmo se passou durante o período do
PREC, onde a extrema-esquerda, com o PCP com papel principal, fizeram aos
outros o que lhes tinham feito a si. Prenderam, com mandados em branco,
assinados por Otelo Saraiva de Carvalho, centenas de pessoas sem qualquer culpa
formada, muitas delas apenas por serem empresários de sucesso, como era o caso
de Ruy Moreira.
Digamos que se muitos
informadores da PIDE, depois do 25 de Abril, procuraram vestir a camisola do
PCP ou de outros partidos de extrema-esquerda, dizendo-se os maiores
democratas, também os comunistas e outros companheiros de luta, durante o PREC,
vestiram a pele de pides, prendendo e torturando pessoas que foram detidas por
pensarem de forma diferente.
Tomás Moreira lembra
no livro que Balsemão e Sá Carneiro chegaram a ir visitar presos políticos
antes do 25 de Abril, mas que, durante o PREC,não quiseram fazer ‘ondas’ sobre
as prisões arbitrárias assinadas por Otelo. O tema era escaldante, mas 50 anos
depois ainda fará algum sentido ser tema tabu?
Francisco Sousa
Tavares, que tinha defendido presos políticos durante a ditadura, foi depois
advogado de Ruy Moreira e escreveu o seguinte sobre esse período: «Regressámos,
por isso, às prisões arbitrárias, às acusações falsas, ao domínio da
comunicação social pela mentira do governo e pela mentira partidária.
Regressámos às coordenadas fascistas de não respeito pelas pessoas, de desprezo
pelos direitos individuais, de repúdio da verdade e de destruição da simples
liberdade». É assim tão difícil reconhecer o que se passou durante o Processo
Revolucionário em Curso?
vitor.rainho@nascerdosol.pt