Tempo caminhado
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segunda-feira, 4 de maio de 2026
Crónica lisboeta
Se todos os dias tivesse de
escrever uma crónica para um jornal diário, o que me daria muito gozo,
escolheria temas do quotidiano, algo que despertasse logo o interesse geral. Mas
em Lisboa o quotidiano está entrosado com a História de Portugal, inscrita nos
edifícios, ruas e até nas pedras das calçadas.
Por exemplo, andar por Lisboa
seria uma inesgotável fonte de temas pois nunca o faço que se não me deparem
situações que, bem contadas, dariam bons momentos de leitura geral. Como já vou
poucas vezes à Baixa sempre que o faço, comigo veem ter personagens e
flagrantes que me prendem e me suscitam logo ali um textinho à medida.
Um destes dias fui ao encontro de
alguns dos meus amigos da tertúlia transmontana. O ponto de encontro habitual
ou é o Fernando Pessoa, da Brasileira, ou o Camões, ali no seu espaço próprio. Muitas
vezes começo pela saída da Baixa-Chiado. E sempre me pergunto quem teria sido
mesmo aquela personagem do Chiado, embrulhado num manto de pobre, o poeta
obscuro que teve direito a estátua em espaço nobre! Olha, isto até rimou,
talvez por influência do vate que se exibe em sítio mais nobre do que o do
poeta maior, em plano superior, como que interpelando quem passa. Pessoa, no
seu recanto, em remanso, não se levanta nem para ir beber mais um copo, que se
vai fazendo tarde. Farto de aturar todos os que junto dele se sentam para a
foto histórica, submete-se assim à presença do António Ribeiro, por alcunha o
Chiado, um actor menor e um poeta afim.
Um dia o novel presidente do
município resolveu deixar obra, antes que o apeassem do poder e assim acabou
com o Largo das Duas Igrejas (Italianos e da NSEncarnação) que passou a Largo
do Chiado e nasceu um icónico espaço público que gerações posteriores
enobreceram, como Eça, Alexandre Herculano, Pessoa, etc.
Em A Brasileira ficou célebre o
encontro de Fernando Pessoa com Adolfo Casais Monteiro, crítico literário. Só
que nesse dia quem veio não foi FP, mas sim Álvaro de Campos!! E o pobre do
ACMonteiro levou toda a manhã com o heterónimo. FP, quando se referia aos
heterónimos, configurava-os tão bem que chegava a chorar ao falar deles. Vejam
só isto:
Eu vejo diante de mim, no espaço incolor, mas real do sonho, as caras,
os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construi-lhes as idades e
as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (não me lembro do dia e mês, mas tenho-os
algures), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil. Alberto Caeiro
nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua
vida no campo. Não teve profissão nem educação quase alguma. Álvaro de Campos nasceu
em Tavira, no dia 15 de Outubro de 1890 (às 1.30 da tarde, diz-me o Ferreira
Gomes; e é verdade, pois, feito o horóscopo para essa hora, está certo). Este,
como sabe, é engenheiro naval (por Glasgow), mas agora está aqui em Lisboa em
inactividade. Caeiro era de estatura média, e, embora realmente frágil (morreu
tuberculoso), não parecia tão frágil como era. Ricardo Reis é um pouco, mas
muito pouco, mais baixo, mais forte, mas seco. Álvaro de Campos é alto (1,75 m
de altura, mais 2 cm do que eu), magro e um pouco tendente a curvar-se. Cara
rapada todos — o Caeiro louro sem cor, olhos azuis; Reis de um vago moreno
mate; Campos entre branco e moreno, tipo vagamente de judeu português, cabelo,
porém, liso e normalmente apartado ao lado, monóculo. Caeiro, como disse, não
teve mais educação que quase nenhuma — só instrução primária; morreram-lhe cedo
o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos.
Vivia com uma tia velha, tia-avó. Ricardo Reis, educado num colégio de jesuítas,
é, como disse, médico; vive no Brasil desde 1919, pois se expatriou
espontaneamente por ser monárquico. É um latinista por educação alheia, e um
semi-helenista por educação própria. Álvaro de Campos teve uma educação vulgar
de liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro
mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou
o Opiário. Ensinou-lhe latim um tio beirão que era padre.
Pois, alguns heterónimos até
assinatura tinham!
Mas era também este o destino do
Alexandre Herculano quando, já no retiro da Quinta de Santarém, que era da
mulher com quem casou já tarde e que foi namorada de juventude, e que lhe
permitiu ser o primeiro exportador de azeite de Portugal, então, o azeiteiro,
quando subia a calçada assoava-se ruidosamente ao seu famoso lenço tabaqueiro e
assim se anunciava, espalhafatosamente o nosso primeiro historiador
pós-romântico.
Por ali nasceram as famosas Viagens
no Chiado do menos famoso Beldemónio, pseudónimo de Eduardo Barros Lobo,
cronista e jornalista, que “me foi apresentado” por familiares e que vale uma
visita ao Google para se ver como um homem que viveu apenas 36 anos firmou um
tão grande currículo. Neste intelectual, amigo de Trindade Coelho e tradutor de
inúmeros clássicos franceses, me inspirei para as minhas viagens no Chiado,
lembrando agora, de memória, como ele se inspirou para as escrever: um dia
visitou a Sociedade de Geografia e ficou espantado com as viagens dos
portugueses, mas como não tinha dinheiro para as fazer, fez as do Chiado e,
nestas, extasiava-se com as mulheres que todos os dias subam e desciam o Chiado
e, se algum dia elas faltavam, e acontecia, ele perdia o dia! O Beldemónio faz-me
sair do sério, mas se me alegra pelo seu humor e rebeldia, depois entristece-me
porque via falhar rapidamente todos os projectos em que se metia. Morreu cedo e
pobre.
Sempre, ou quase, dependendo da
hora, entro na Brasileira e miro a mesa dos artistas e intelectuais, onde está
o António Carmo. Dois dedos de conversa e ala que se faz tarde. Os Largos do
Chiado e do Camões são hoje, talvez, os espaços mais icónicos de Lisboa e de
Portugal.
Pronto, tenho de ir lá atrás
porque acho que já fugi do tema inicial e assim, volto então à espera dos
transmontanos, tertulianos, que se apresentam para amesendar.
Sempre que falo destes lugares
sagrados perco a noção do tempo e da escrita. Com sorte ainda chego a tempo do
almoço. Até já!
CNX02MAI2026JG85
Unidades Femininas Curdas estão em luta com o regime Iraniano.
Da IA
Bases
femininas curdas, compostas por combatentes (peshmerga) e guerrilheiras
iranianas no exílio, operam nas montanhas da região semiautônoma do Curdistão,
no norte do Iraque, ao longo da fronteira com o Irão. Estas unidades, que
ganharam destaque no combate contra o Estado Islâmico, têm como objetivo a
libertação da mulher, a luta contra o patriarcado e a busca por
autodeterminação ou autonomia federal para os curdos no Irão.
Principais
Grupos e Unidades Femininas (atualizado 2026)
- PJAK
(Partido da Vida Livre do Curdistão): Mantém bases profundas em túneis e cavernas, com uma
ala armada feminina significativa, as Forças de Defesa Feminina (HPJ).
- PAK
(Partido da Liberdade do Curdistão): Possui um batalhão composto exclusivamente por
mulheres que se prepara para combater o regime iraniano.
- KDPI
(Partido Democrático do Curdistão do Irão): Combatentes femininas, conhecidas
como Peshmerga, marcham e treinam nas montanhas, enfrentando riscos como
ataques de drones iranianos.
Contexto
da Luta e Vida nas Bases
- Refúgio
e Resistência:
Muitos grupos curdos iranianos movem-se para o Iraque para escapar da
repressão iraniana, intensificada após os protestos de 2022.
- Treinamento
e Estrutura: As
combatentes recebem treinamento militar rigoroso, incluindo táticas de
atiradores (snipers) e drones, vivendo isoladas e fora do radar.
- Motivação: A luta é descrita como uma
resposta à injustiça, discriminação e opressão vivida no Irão, com muitas
mulheres a juntarem-se para combater a desigualdade de género.
- Conflito
Atual (2026): Após
ataques com mísseis/drones do Irão, estes grupos têm se posicionado para
uma possível nova fase de combate no terreno, ansiosos por regressar ao
Irão, mas enfrentando desafios de coordenação e apoio externo.
Ideologia
e Papel das Mulheres
- A luta
é fundamentada na Jineolojî (ciência das mulheres), que visa a
libertação antipatriarcal e antipatriarcal, posicionando as mulheres como
vanguarda de uma revolução social.
- Estas
mulheres lutam não apenas contra o Estado iraniano, mas também contra as
restrições tradicionais da sociedade.
Apesar
dos relatos de preparação para uma ofensiva terrestre, a situação na fronteira
é complexa, com ataques frequentes do Irão contra estas posições em solo
iraquiano.
Consultar estes
sites
1 - https://www.bbc.com/portuguese/articles/cjenjyv9d85o
O PCP e HOLODOMOR
domingo, 3 de maio de 2026
Crónica açoriana
JORGE GOLIAS
Há dias recebi uma visita de um camarada e amigo com o qual
convivi na minha comissão de dois anos nos Açores. O António Pereira da Silva,
do meu curso de entrada na AM em 1961. Caçador inveterado e pescador
consagrado. Há gente assim, que caça e que pesca mais do que a maioria. Em Vila
Real não perdia uma caçada ao javali nas montadas que por lá se faziam e também
não perdia uma caçada ao coelho na ilha de S. Miguel, onde durante muitos anos
se deslocava de propósito para matar umas largas dezenas de coelhos. Lá
aplicavam-lhe um congelamento rápido e assim chegavam ao Continente. Era uma
espécie de turismo que a administração local fomentava para equilibrar a grande
densidade populacional dos coelhos.
Na solidão e no descontentamento do tempo e da sociedade açoriana,
fomo-nos encontrando, sobretudo, para amesendar. Mas, de quando em vez, íamos à
pesca da truta para a ribeira da Salga, ali mais para o Nordeste da ilha. Este
tipo de pesca exige que os pescadores andem afastados uns dos outros porque
lugar onde se deite a amostra para apanhar a truta, tão cedo não volta a picar
o peixe. Portanto, a pesca faz-se em andamento. Era a parte chata, só podíamos
interagir e conversar quando parávamos. O Pereira da Silva é um dos meus amigos
mais bem-humorados, pois está sempre a falar em tom de gozo, com tudo e com
todos. Como eu também sigo de perto esta postura acabámos por passar bons
momentos. No final, íamos para o apartamento dele, diria quase luxuoso (assim
era com os camaradas do Comando-Chefe), na torre Solmar, um 7º andar com uma
bela vista de mar e ele, com muita prática, passava as trutas por farinha e ali
fazíamos uma excelente refeição.
Ao tempo eu morava no Campo de S. Gonçalo, na vivenda da Engª
com o Silveira Pereira, um major da DSFOE. Naquela altura pouca gente local
sabia desta ribeira e das trutas, pois nunca nos cruzámos com outros
pescadores. Ele trazia sempre algumas dezenas de trutas, que eram de espécie
pequena, e eu não mais do que uma dúzia. E foi a segunda vez que fui à pesca da
truta. A primeira foi no alto Trás-os-Montes, em terrenos de altitude por onde
corre o rio Mente, por entre fragas em rápidos num local paradisíaco. Rio que
desagua no Rabaçal a 400m de altitude. A truta não vive perto de gente, porque
não confia!
Depois desta passagem longa pelos Açores (1989-1991) todos os
anos, pelo Natal, toca o telefone e eu oiço esta voz: -então, vamos à Salga?
Era o sinal do Pereira da Silva.
Na altura era comandante-chefe o General Monteiro Pereira,
oriundo de cavalaria. Um dia o Comando-chefe quis oferecer um jantar a um grupo
numeroso de diplomatas da Nato. Como o Forte da Amura, onde estava o
Quartel-General, tinha um belo salão, onde tomávamos as refeições, o General
contactou o QG para saber se podia dar lá uma refeição de polvo à moda dos
Açores. Quem esteve lá sabe como é, porque é prato típico. Eu era subchefe de EM,
um cargo inventado para me darem que fazer. E, que fazer, foi coisa que nunca
me faltou ali, nas Ilhas Desconhecidas, uma boa lembrança de Raúl Brandão.
Emprestar o salão foi decisão do General comandante da ZMA, Albuquerque
Nogueira que, quando foi promovido quem lhe pôs as estrelas de general fui eu e
até tenho esse inusitado registo fotográfico: um tenente-coronel a pôr as
estrelas a um general. Bem dizia o coronel Valério que nos Açores era tudo
diferente. E isto aconteceu assim porque na altura o CEM, o coronel Álvaro Bastos
Miranda, estava evacuado e eu fiquei interino. Quando veio a mensagem da
promoção, sem lhe dizer nada perguntei à esposa se tinha as estrelas lá em
casa. Tinha, mandei-as buscar e quando ele chegou ao quartel, juntei a
oficialagem, e fiz a cerimónia. Sem cerimónia!
Voltamos ao jantar dos diplomatas da Nato, um cargo porreiro,
de turistas de luxo, que se faziam acompanhar das respectivas mulheres. Como
subCEM eu era o responsável pelos sargentos, pela Banda da ZMA e pela
Logística, logo pelo jantar. O cozinheiro era um civil da Madeira e, por isso,
conhecido pelo Sr. Madeira. Chamei-o, disse-lhe qual iria ser a ementa e dei as
instruções para as compras. Ele disse que sabia fazer o prato, mas que ali no
QG nunca se fez porque por ser caro não fazia parte da ementa da ordem. Mas que
ia correr tudo bem. Pois, eu optei por comer no salão numa mesa mais discreta,
para garantir o bom cumprimento da missão. A ementa do meu jantar era outra,
que não o polvo, caro. A certa altura vejo com surpresa chegar o General à
minha mesa, muito nervoso, a dizer que o polvo estava rijo, e a perguntar quem
era o cozinheiro porque lhe ia dar uma porrada. Um general, de cavalaria
oriundo, no seu esplendor! Disse-lhe que era um civil, com pouca prática deste
prato e que a porrada devia dar-ma a mim que era o responsável primeiro.
Retirou-se furioso. No final, voltou, sorridente, feliz, e disse-me que,
afinal, os diplomatas da Nato acharam o prato delicioso, very tipycal.
Passados uns dias foi recebida no QG uma nota do Comando-Chefe a dar-me um
louvor pelo excelente serviço prestado. Como é ténue a fronteira da virtude e
do pecado!
Falei no Valério, de cavalaria, da velha guarda, que quando
eu cheguei aos Açores e me apresentei, ele me recebeu no QG dizendo que nos
Açores era tudo diferente. Eu ri-me, e disse-lhe que gostava de desafios, mas
que sabia que ali era tudo igual ao contenante, para pior! Ele ficou
quilhado comigo e mais ainda quando lhe disse que ia tomar uma bica. Aí ameaçou
dizendo que o Brigadeiro estava a chegar e não ia gostar de saber que eu não
estava à espera. Claro que fui à bica e que convivi com quem estava no bar e
que tranquilamente fui andando e que quando cheguei ao comando já lá estava o Brigadeiro,
que me cumprimentou como se me conhecesse e me desejou boa estadia e me
despachou logo ali, sem mais delongas, na frente do coronel Valério, que
espumava de raiva. Pensei, pronto já arranjei um inimigo! Qual quê, foi um dos
melhores amigos açorianos e o único que me abriu as portas de casa.
Querem mais, ou já estou a chatear? Bom, então, assim sendo,
lá vai mais uma.
Anos mais tarde, já com o Brigadeiro Rodolfo Begonha como
cmdt da ZMA, num dos almoços naquele belo salão, mesa do comando posta, toalha
lavada e copos a brilhar, tudo nos conformes, com uma companhia feminina, a D.
Teresa, mulher do Brigadeiro, eis que a salada tinha alguma areia. Vamos lá,
não era assim muita, mas sentia-se um bocadinho. Não riam. A D. Teresa, em voz
baixa, mas que quem estava mais perto, como eu logo ali, bem ouvia, diz ao
marido: -Rodolfo, a salada tem terra! A conversa continuou entre nós, que como
é claro já sabíamos da salada acrescentada. E pouco depois, novamente a senhora
a dizer: -Rodolfo, a salada tem terra. Lembrei-me de que era eu o responsável,
outra cena idêntica à do polvo. Não sei se foi desta vez se de outra ainda o
que me lembro é do Brigadeiro responder duramente mais ou menos assim: - se
tivesses estado na guerra não estavas agora a reclamar da salada com terra. E,
pronto, desta vez não fui louvado, mas também não apanhei uma porrada.
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