sábado, 19 de setembro de 2026

Associação que inspirou Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar celebrou 44 anos

 

João Pedro Miranda


Associação que inspirou Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar celebrou 44 anos

Nasceu em Guimarães, floresceu em Tondela e nacionalizou-se em Lisboa

A Associação Nacional dos Combatentes do Ultramar (ANCU) celebrou 44 anos de existência no passado domingo. A data foi assinalada em Tondela, onde está sediada, com a realização de uma sessão solene e um almoço festivo.

A Associação nasceu em 18 de março de 1982. A ideia e o propósito da sua criação surgiram nessa data, tendo começado por uma comissão instaladora. Foi inspirada por Barroso da Fonte. Mais tarde, a sua primeira Assembleia Geral formal aconteceu a 23 de junho de 1984, na cidade de Guimarães. Posteriormente, em 2002, mudou a sede nacional para Tondela, onde continua, agora sob a presidência do Dr. António Ferraz.

A fundação da ANCU surgiu num ambiente social e político que se prestou a situações complexas, até que foram desaparecendo as sequelas nefastas do PREC.


Tendo decorrido 44 anos desde o seu nascimento, foi a ANCU quem convidou o General Altino de Magalhães para representar a Associação na capital, junto do poder central, com o objectivo de agilizar e tornar realidade a construção do emblemático Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar, cuja construção recolheu apoios de todo o país.

Para o ajudar nessa árdua tarefa, a seu pedido, teve sempre, em Lisboa, o apoio fundamental, permanente e incondicional de dois elementos da direção da ANCU: Manuel dos Santos Conceição (sócio nº 34) e do sargento Duval d´Oliveira Bettencourt Gomes (sócio nº 17).

Santos Conceição disponibilizou-se ao serviço pessoal do general: ele e a sua viatura, durante os quase 8 anos que o projeto demorou a concretizar, estiveram permanente e gratuitamente à disposição de Altino de Magalhães, tendo suportando todas as despesas do seu bolso.

Como na altura, o general Altino de Magalhães tinha cessado a função profissional, pela sua influência e prestígio, além das relações pessoais com o presidente da direcção, foi sensibilizado para levar a bom porto tão importante tarefa, em representação da Associação.

Na edição nº 5, de Agosto de 1984, do Sentinela, o jornal associativo, criado e dirigido por Fernando Paixão (pseudónimo literário de Barroso da Fonte), na primeira página, o general desmente o discurso que ele próprio proferiu no dia da inauguração do Monumento, junto ao forte do Bom Sucesso, em janeiro de 1994.

Já depois de comprometido com a ANCU, “esqueceu-se” da Associação Nacional dos Combatentes do Ultramar, que o convidara a coordenar o projecto de construção. E, ao invés, nas longas páginas laudatórias que proferiu na inauguração do Monumento Nacional, quase só falou dos seus apaniguados da Liga dos Combatentes (de que, entretanto, viria a ser presidente).

A sua aleivosia presidiu a uma das mais sangrentas páginas da História de Portugal. Deveria ter tido a obrigação de mencionar os Combatentes do Ultramar como os últimos heróis da portugalidade.

No aniversário que se comemorou este domingo em Tondela, para corrigir a grosseria proferida na inverdade que o General Altino de Magalhães difundiu, foi referido o livro O Sal da História, da autoria de Armando Palavras (Editora Cidade Berço, 2024), que repõe a verdade sobre a paternidade da ideia do Monumento aos Combatentes do Ultramar: a paternidade é da ANCU e não da Liga. Pelo simbolismo que representa, essa fraude nacional deveria provocar um congresso histórico que reponha a verdade em tão lamentável mentira.

Entretanto, os dois associados da ANCU, atrás citados, já faleceram. Aproveito para os homenagear, recordando o papel fundamental que tiveram na concretização do Monumento Nacional.

Apelo aos Combatentes do Ultramar que não se deixem «comer por lorpas» em relação à Liga dos Combatentes da Grande Guerra. Esses fizeram o que puderam e já nenhum deles sobrevive. Mas Altino de Magalhães fez-se herói, em nome deles, quando todos eles já cá não estavam.

Em 1994, felizmente, já não havia guerra. Ou antes: em 1923 houve a nobre causa de criar a Liga para apoiar aqueles que sofreram a Primeira Grande Guerra. Em 1945 Portugal estava esfarrapado e felizmente não aderiu à Segunda Guerra Mundial. Em 1961 chegou uma guerra ultramarina que implicou com a Portugalidade e dizimou velhos e novos, semeando cadáveres pela lusofonia, mas depois do 25 de Abril foram ignorados os dez mil mortos desse conflito.

A ANCU nasceu da coragem de mortos e vivos. Altino de Magalhães assumiu o cargo de Presidente da Liga já depois de passar à reserva, esquecendo-se de que a ideia do projeto do Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar foi da ANCU e ignorando as canseiras, os esforços e sacrifícios daqueles que o ajudaram a levar a tarefa a bom porto, nesses oito anos de esforços coletivos.

Recordo aqui Duval d'Oliveira Bettencourt Gomes que foi sargento e uma figura central no movimento associativo, tendo sido um dos principais dinamizadores do Monumento aos Combatentes. A sua história de vida confunde-se com a luta pela preservação da honra e da memória dos soldados que combateram na Guerra do Ultramar, entre 1961 e 1974.

Duval Bettencourt Gomes foi o sócio número 17 da ANCU e participou activamente no arranque da organização, fazendo parte das conversas fundacionais.

Numa Assembleia Geral realizada em Guimarães a 23 de Junho de 1984, foi aprovada a proposta para se construir um monumento nacional dedicado aos soldados que combateram na Guerra do Ultramar. Duval Bettencourt Gomes foi escolhido para liderar o grupo de trabalho encarregue de angariar os meios e fazer os estudos necessários para a obra. Mais tarde assumiu o cargo de Presidente da Comissão Nacional em Memória dos Mortos no Esforço da Guerra Ultramarina.

Como porta-voz deste movimento, Duval Bettencourt Gomes defendeu firmemente que o sacrifício dos soldados não podia ser esquecido pela história oficial da nação. Em setembro de 1987, em declarações ao semanário O Jornal, sintetizou o seu pensamento e o dos seus camaradas:

"Os mortos não devem ser desprezados e ninguém deve ter vergonha de ter cumprido o serviço militar nas colónias. [...] O monumento não é contra ninguém, mas a favor do orgulho e do prestígio de Portugal."

Embora o projeto tenha enfrentado debates acesos na época — com alguns setores a recearem, infundadamente, que representasse o regresso da retórica nacionalista do antigo regime —, a visão da ANCU acabou por se concretizar. O Monumento Nacional aos Combatentes do Ultramar acabou por ser edificado junto ao Forte do Bom Sucesso, onde hoje constam as lápides com os nomes de todos os militares portugueses que perderam a vida nessa guerra.

João Pedro Miranda

(Jornalista - CP 4523

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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

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LAGOAÇA – LOISAS E OUTRAS COISAS (Volumes I e II)


Leonel Dias


(El)Miro Barbeiro, lagoaceiro, filho de António “Cinco”, em boa hora, decidiu oferecer-me os dois volumes da Obra “LAGOAÇA – LOISAS E OUTRAS COISAS” que li, com enorme agrado, e das quais venho aqui deixar testemunho.


José Veríssimo passou a escrito fragmentos da tradição oral local, pela transmissão de memórias dos mais antigos, a par da utilização da sua memória, numa simbiose perfeita entre memória coletiva da comunidade e memória individual, resultando daí a importância inegável desta obra literária. Digno de registo e de aplauso a recolha e a investigação exaustiva do legado histórico, patrimonial e cultural da aldeia, por parte do autor com forte ligação à aldeia de Lagoaça.

O autor, nas duas obras, respetivamente, publicadas em 2019 e 2021, faz a descrição de histórias locais, lendas, costumes e tradições de Lagoaça, não ignorando suas gentes, tendo tão bem sabido transportar as mesmas para a escrita.

Importa deixar expresso que o legado dos que nos procederam constitui contributo importante, nunca desprezível, para o conhecimento do passado e de enorme valor para preservar a memória coletiva e a identificação desta aldeia transmontana, procurando impedir que desapareçam a lembrança da comunidade construída.

Ambas as Obras funcionam como uma espécie de arquivo da identidade lagoacense e denotam a preocupação do autor com o progressivo desaparecimento da vida rural e das tradições de Lagoaça, bem como o forte processo de emigração e êxodo rural, registado a partir da segunda metade do Século XX.

Em suma, “LAGOAÇA – LOISAS E COISAS”, Volumes I e II, retrata a aldeia de Lagoaça com enfoque nas suas pessoas, as suas memórias, os seus costumes e identidade, numa reunião de testemunhos e lembranças, tão bem trazidas para o papel, procurando conservar uma parte relevante do património cultural e imaterial da aldeia de Lagoaça; razão pela qual leva a tornar imperdível a leitura deste magnífico contributo de José Veríssimo, por parte dos membros do Grupo “Amigos de Lagoaça”, para melhor conhecimento da terra que, apesar de ali não ter nascido, José Veríssimo tanto ama.


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