Dia 21 de Junho de 1969, ocorreu,
em Mopeia, norte de Moçambique, o mais trágico acidente mortal, nos treze anos
de guerra que Portugal suportou nos territórios ultramarinos. E não foi apenas
o volume de vítimas. Uma travessia mal calculada do batelão, com excesso de
viaturas, material de guerra e militares. Foi uma tragédia incomensurável,
superior a tantas outras que aconteceram em treze anos de guerra.
No calor da tragédia, os comandos
militares entregaram a gestão do salvamento a um miliciano subalterno, que
substituiu o camandante da companhia que
se destinava a substituir uma unidade que concluía o seu tempo de serviço. O
alferes miliciano José António Carvalho de Moura era o alferes micilianos
responsável do território e que acabou por ser chamado a coordenar as
consequências dessa espécie de terramoto náutico.
Ontem, nas redes sociais publicou
um texto recordando esse trágico desastre, que aqui se transcreve na íntegra:
Completaram-se há dias, 57 anos
sobre a maior tragédia da Guerra Colonial. Foi no dia 21 de Junho de 1969, em
Moçambique, entre Mopeia e Chupanga, que 101 militares morreram afogados no rio
Zambeze.
Era ao cair da tarde, pelas 17.30
horas, quando o batelão, devido a excesso de carga, se afundou com Jeeps e
Unimogs, e mais 150 jovens militares. Destes, 50 conseguiram sobreviver.
Estava o meu pelotão destacado em
Mopeia e, por indicações dos Comandos em Marrupa, foi o Destacamento indicado
para prestar o apoio possível. De pronto se iniciou o processo de recuperação
dos vivos, acolhidos no Quartel, onde cada qual contou a sua própria história
de luta contra as caudalosas águas do rio. Alguns dos sobreviventes ainda
permanecem entre nós, guardando as agridoces memórias daquele momento que
marcou as suas vidas.
Mas todas as atenções iam para com
os mortos envolvidos nas águas do Zambeze. Com o auxílio duma grua enviada pelo
Comando, durante 21 dias, foi possível resgatar os corpos de 80 ou 81
militares, isto devido ao assoreamento acumulado característico do rio e porque
muitos destes jovens viajavam dentro das viaturas.
Os restantes terão sido arrastados
pela força das águas para longe ou ser pasto dos crocodilos que também povoam
aquele grande rio do leste africano.
Tratava-se duma companhia de
militares que ia render outras em combate no norte daquele país, então
província ultramarina de Portugal. Todos jovens de 20 e 21 anos, a maior parte
do continente e alguns do recrutamento da província.
Um cemitério foi ali mesmo
projetado e construído para receber os corpos dos jovens que, durante esses 21
dias, foram aparecendo a boiar sobre as águas.
No cemitério por nós projectado e
improvisado restam os corpos recuperados e enterrados sem as honras devidas,
sem uma lágrima, sem um toque de finados, sem uma vela acesa e quase todos sem
uma reza de encomendação.
E entre nós, que vivenciámos por
dentro tamanha tragédia, estas memórias não nos matam mas ajudam-nos a morrer
mais cedo. Porque nunca poderão sair da nossa memória.
A imagem daqueles jovens de 20/21
anos, estendidos no chão, metidos na sepultura daquele cemitério de terra
estranha, nunca nos abandonou. Aquelas mortes, desprezadas, gélidas, sem o
carinho dos pais e das famílias, sem uma lágrima tolheram ainda mais os nossos
sentimentos. Homens na flor da vida, filhos de Portugal que por Portugal
perderam a vida jazem num estranho campo santo porventura já profanado e
estropiado.
Consequentemente, a pátria que
eles e nós fomos defender e honrar com sacrifícios desumanos, pura e
simplesmente, ignorou esta terrível tragédia e bem assim desprezou o trabalho heroico
dos militares portugueses do século XX. E a comunicação social nem dela dá
notícia, nem uma imagem nas redes sociais, nada. *
Lope de Vega, dramaturgo,
novelista e poeta, um dos maiores vultos da cultura da grande Espanha,
enalteceu os feitos do seu país na Guerra de Cuba do séc. XVII, na qual muitos
espanhóis perderam a vida, com esta célebre frase: “Rei servido e Pátria
honrada”. Na guerra colonial, Portugal foi servido mas a nossa Pátria ignorou
os inenarráveis serviços dos seus bravos militares.
Mundo cão este que é o povo dum
país que dá pelo nome de Portugal.
Nós, os sobreviventes, não da
tragédia do rio Zambeze, de 21 de Junho de 1969, mas os que conseguimos voltar
“inteiros” da guerra colonial, carregamos estas dolorosas memórias sem um aceno
de gratidão, valorização e sem o devido reconhecimento heroico.
A história, um dia, não sei
quando, terá que fazer jus aos heróis da guerra colonial, a este património de
memórias que também fará parte do património nacional.
Para maior vergonha do país, os
sobreviventes da Guerra Colonial deviam juntar-se e perfilar-se às portas da
Assembleia da República; e, tal como os gladiadores romanos que iam morrer no
circo para gozo do imperador e seu séquito, gritar bem alto: «Salve, ó
Portugal, os que deram a vida pela pátria e os que te serviram com honra e
glória te saúdam: Ave César, morituri te salutant».
*Alferes Mil.º Moura, da C.ª 1798,
do Bat 1935, em comissão de serviço à pátria, no norte e centro de Moçambique,
desde 11 de Outubro de 1967 até 16 de Dezembro de 1969.»
Fica aqui o link para o artigo original de Carvalho de Moura:
https://www.facebook.com/share/p/1Bkk8AynPQ/
Ainda pode consultar estes sites:
https://www.youtube.com/watch?v=BASeK9LysQc
https://www.noticiasdodouro.pt/memorias-de-guerra-em-livro-os-galgos-do-niassa-em-lisboa/
Barroso
da Fonte








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