domingo, 22 de abril de 2018

Humilhadas e ofendidas



Alberto Gonçalves – OBSERVADOR

O problema põe-se ao contrário: a maioria das senhoras (e dos cavalheiros, calculo) é competente o bastante para evitar a política e deixá-la ao cuidado dos que, independentemente do sexo, não são.

“Terão os partidos mulheres suficientes para as listas?”, aflige-se o “Diário de Notícias”. É extraordinário. Por um lado, que, com cerca de 72 leitores (contando comigo), o “Diário de Notícias” continue a existir. Por outro, que a misoginia vigente insista em aumentar por decreto a “participação” feminina na política, agora elevada a 40%.
Não é por acaso que a “participação” leva aspas. A relativa escassez de senhoras nos partidos sempre foi um indício da higiene daquelas e da sujidade destes. Desde tempos imemoriais, é sabido que, com excepções tão raras quanto dignas de estudos científicos, apenas chafurdam nesse meio criaturas rotundamente incapazes de prestar qualquer tarefa válida à humanidade ou sequer ao condomínio lá do prédio. Se alguém demonstra uma absoluta inaptidão para o trabalho e a vergonha na cara, candidata-se a uma repartição das Finanças. Se nem para isso prestar, alista-se num partido, onde poderá exibir a presunção dos simples, traficar “ajudas de custo” e tratar juízes por “pá”. Salvo por um pequeno número de casos perdidos, boa parte das mulheres tem mais o que fazer – sobretudo não fazer figuras tristes. E é triste que, por obra e graça de políticos, uma quantidade crescente de fêmeas da espécie se vejam arrastadas pela e para a lama. Dada a ética do sector, e a necessidade de “preencher” as “quotas”, imagino algumas convertidas sob sequestro e ameaça de navalha.
Não vou questionar o direito de o Estado intervir nestas matérias: a pergunta seria absurda e, em Portugal, a resposta seria ainda pior. O que é interessante – e notável, na perspectiva do marketing – é que tamanho enxovalho seja vendido a título de “promoção” ou, na versão épica, de avanço civilizacional. Os factos mostram exactamente o oposto. Se o verdadeiro objectivo do exercício é a “emancipação” das mulheres, porque é que esta não se aplica a profissões honradas? Porque é que não se impõem “quotas” nos ofícios de carpinteiro (de limpos e de sujos), camionista (longo e médio curso), trolha, canalizador, futebolista, guarda-nocturno, mineiro, pedreiro, sapateiro, palhaço, etc.? Porque é que o reconhecimento da igualdade se restringe a cargos que diminuem os titulares? Porque é a humilhação que se pretende. Chegar a autarca, administradora pública ou ministra é das menores proezas ao alcance do ser humano: com as “ligações” adequadas, uma grafonola desempenharia funções idênticas com mestria e honestidade superiores.
Aliás, a confirmação de que a “lei da paridade” visa achincalhar especificamente as mulheres está na circunstância de não abarcar critérios “identitários” cujo achincalho é desaconselhado pela moral vigente. Só no que respeita ao “género”, a coisa fica-se pelo tradicional binário e esquece-se deliberada e cautelosamente do próspero sector “trans”. Ninguém propõe a reserva de pedacinhos do Parlamento para os/as indivíduos/as agénero (1,5%, digo eu), bigénero (1,2%), intergénero (0,8%, obviamente), pangénero (idem), nanogénero (aqui hesito), demigénero (já me perdi) e travesti não-binária (chiça). A razão? Ninguém ousa ofendê-los/las/lis/los/lus.
O receio de ofensa também explica a ausência de propostas paritárias para os restantes factores de identidade. Para não insultar os gays, o “sistema” não arrisca bulir na representatividade segundo a orientação sexual. Para não caluniar as religiões, não se sugerem proporções de budistas, muçulmanos, animistas ou presbiterianos. Para não difamar as etnias, não se enfiam à força asiáticos, negros, ciganos, ameríndios ou esquimós nas listas das “legislativas”. Ou uma determinada porção de boavisteiros, ceguinhos, circuncisados, flautistas, vegetarianos ou o que quer que seja que torna a pessoa aquilo que é. Não, senhor: o único “grupo” empurrado à força para a política é o das mulheres, um acto machista, ressentido e quase perverso.
Para cúmulo, os adversários das “quotas” reagem a tamanha infâmia com a lengalenga de que a maioria das mulheres é competente o bastante para entrar na política sem ajudas ou favores estatísticos. O problema, meus caros, põe-se ao contrário: a maioria das senhoras (e dos cavalheiros, calculo) é competente o bastante para evitar a política e deixá-la ao cuidado dos que, independentemente do sexo, não são. Antes e depois do reforço percentual, a “lei da paridade” rebaixa as mulheres e exalta os políticos – adivinhem quem a aprovou.

Nota de rodapé:

Harry G. FrankfurtA tese dominante assegura que os vídeos dos interrogatórios ao “eng.” Sócrates foram divulgados pelo advogado do próprio. Talvez a tese esteja correcta. Mas se a ideia é a de que aquele repositório de prepotência, ridículo e até alguma maluquice redime o sujeito aos olhos dos portugueses, aconselho o “eng.” Sócrates a trocar de advogado. Ou o advogado a trocar de “eng.” Sócrates. Ou Portugal a trocar de portugueses.

Os ossos de um bajouquense moram por lá


Por: Costa Pereira Portugal, minha terra

A primeira  vez que vi fazer referencia a este lugar foi numa carta de D.José Alves da Silva, bispo de Leiria, em resposta a outra de Joaquim Paço d´Arcos, tudo relacionado com um bajouquense que em terras de Timor foi missionário. Datada de 30 de Novembro de 1940, dizia assim: “O P. Manuel Manuel Pereira Jerónimo, antigo Missionário de Timor, faleceu a 4 de Maio passado na quinta de Caldelas, freguesia da Caranguejeira, desta Diocese e destinada a receber os sacerdotes que precisam de amparo na sua velhice. Dista de Leiria 15 km.”. Mais recente surge um meu amigo alfacinha, mas residente na terra do “Cego de Maio”, Povoa do Varzim, num comentário a um post que fiz sobre a nascente do Lis, dizendo: “E não viu o OLHO DE ÁGUA ,aonde nasce água com fartura, em CALDELAS, e claro outras nascentes na zona. Água que bem canalizada e aproveitada chegaria sim aonde seria precisa sem que fossem precisos subsídios”. Muito boa observação amigo Fernando Rodrigues Ferreira.
Conheço mal a freguesia da Caranguejeira, ao centro, junto à igreja só lá fui uma vez, acerca de três anos e por engano. Ia para assistir ao funeral de um parente, Carlos Afonso da Costa Santos, que me informaram ser nessa terra onde era conceituado industrial, mas que afinal morava em Vale Sumo que pertence a Santa Catarina da Serra. Lá fui dar e da Caranguejeira fiquei com uma imagem panorâmica que conservo na retina. Foi por estas alturas festivas e primaveris que tudo aconteceu, e como ao ir Google não encontrei aquelas informações que acerca de Caldelas da Caranguejeira de Leiria tinha gosto encontrar aqui deixo um apelo aos naturais da terra para da sua aldeia de Caldelas falar, e não apenas do Olho de Água, mas do muito mais que Caldelas tem de história. Os ossos de um bajouquense moram por lá. Deixo também de Vale Sumo a foto que recolhi na altura.

sábado, 21 de abril de 2018

Obrigado pelas citações, F.F., mas eu tenho melhores



João Miguel Tavares - Público

A alta hierarquia da Global Media está transformada no Clube dos Jornalistas Que Um Dia Amaram José Sócrates.


Quero agradecer a Ferreira Fernandes (F.F.) por ter tido a amabilidade de me dedicar o primeiro editorial como director do Diário de Notícias. Eu não merecia tanto. Infelizmente, talvez por estar destreinado, F.F. não diz uma só palavra sobre o argumento central do meu texto – o facto de a alta hierarquia da Global Media estar transformada no Clube dos Jornalistas Que Um Dia Amaram José Sócrates – e dedica-se apenas a tentar desmontar uma das frases que escrevi, a saber: “Ferreira Fernandes continuou a defender Sócrates já depois da prisão – até que se calou, e não mais se lhe ouviu um pio sobre o tema.”
Harry G. FrankfurtA sua desmontagem tem graça porque confirma que Ferreira Fernandes continuou a defender Sócrates já depois da prisão – cita quatro artigos –, até que se calou, e não mais se lhe ouviu um pio sobre o tema – as citações terminam em Dezembro de 2015, ou seja, há dois anos e meio. Os fãs de F.F. dirão: “Está ali provadíssimo que F.F. criticou Sócrates!” Criticou mesmo? Sim, se considerarmos como crítica a aplicação da batida fórmula Sócrates-esteve-mal-mas-a-Justiça-esteve-péssima. Ferreira Fernandes pode ter muitos defeitos, mas não é parvo. “Defender José Sócrates” a partir de Novembro de 2014 nunca consistiu em clamar pela sua inocência, até porque no momento em que o próprio admitiu receber dinheiro de Carlos Santos Silva a sua posição passou a ser politicamente insustentável. Defendê-lo consistiu sempre, numa primeira fase, em misturar na Bimby as críticas à investigação com as críticas à acção de Sócrates, como se a gravidade das fugas ao segredo de justiça fosse comparável com as suspeitas em causa. E, numa segunda fase, após rebentar a bomba BES e sair a acusação, em resguardar-se num piedoso silêncio.
Este silêncio do DN era o ponto essencial do texto. Ferreira Fernandes escreveu que Sócrates é o meu “fundo de comércio”. Contudo, para além de desconfiar que dentro da Global Media não terei sido o mais remunerado por esse fundo, o meu problema em 2018 não é José Sócrates. O meu problema é o país e as pessoas que promoveram a sua ascensão e/ou que colaboraram activamente para que ele se mantivesse no poder. Entre essas pessoas está Ferreira Fernandes. Só uma citação para troca: em Setembro de 2009, 15 dias antes da mais triste eleição da nossa democracia, ele escreveu: “O jornal i fez o levantamento de algumas das exportações portuguesas durante o Governo de José Sócrates. Fez o levantamento, sim: aqueles negócios levantaram voo. Com a Venezuela (em quatro anos, quintuplicaram), Angola (triplicaram), Argélia (quadruplicaram), Rússia (triplicaram), Líbia e China (em ambas, quase duplicaram) e Jordânia (quase triplicaram)... (…) Eis, pois, um balanço extraordinário – mas que merecia discussão. (…) Gostaria que na campanha se discutisse política. E não hipóteses de primos, hipóteses de asfixias e tricas sobre carros oficiais.”
Este foi o seu tom desde 2005. Claro que toda a gente se engana. Eu considero necessário ser muito vesgo para estar enganado sobre Sócrates em 2009. Mas é possível. Só que quando um colunista se engana não fica caladinho ao ler a acusação a Sócrates. Diz coisas. Avalia velhos textos. Pede desculpa por defesas passadas. E não se refugia na presunção de inocência após ouvir as conversas com Santos Silva. Até hoje, a única colunista que admitiu que se enganou sobre Sócrates – justiça lhe seja feita – foi Clara Ferreira Alves. Ela merece o meu respeito. Todos os outros, não.

Alto e paira o baile! Corrupção em Portugal!


Harry G. FrankfurtEm 2013 o Doutor Pulido Valente escrevia o texto infra. Que se publicou neste blogue. Admiram-se porque razão Portugal não sai da “cepa torta”? Não sai porque é um país de corruptos! Sobretudo na Administração Pública.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

O inimigo da literatura

O inimigo da literatura

por Alexandre Guerra - Delito de Opinião
Mario Vargas Llosa escreveu há umas semanas, na coluna que assina regularmente no El País, um texto que, sem ser um rasgo de brilhantismo literário, é um statement arrojado e corajoso nos dias que correm, desafiando os cânones de um certo fanatismo moral e ético instalado no pensamento mainstream destas novas sociedades. Sociedade, essas, que parecem ser cada vez mais assépticas nos seus comportamentos sociais e, consequentemente, mais limitadas nas liberdades da criação intelectual e artística. É quase como se estivéssemos perante as tais “nuevas inquisiciones” de que Vargas Llosa fala. As novas “fogueiras”, metamorfoseadas em headlines e redes sociais, para “queimar” aqueles que, na sua arte e intelecto, desafiam o status quo ou o pensamento predominante que é passiva e acriticamente aceite pela maioria (o muitas vezes chamado "politicamente correcto"). Llosa foca-se naquilo que vê como uma autêntica castração da liberdade literária, na qual esta é descontaminada das imoralidades, dos vícios, dos machismos, das perversidades, no fundo, desprovida daquilo que torna os homens pequenos, mesquinhos, vis, é certo, mas igualmente humanos e não meros seres utópicos.
Para Vargas Llosa, o “feminismo”, enquanto movimento radical (não todas as “feministas”, como ele próprio refere), é uma fonte destruidora da literatura. Percebe-se a sua ideia, porque a literatura, aquela que vale a pena ler e conforta a alma, tem que ser vista como um refúgio para, através da pena do criador, serem descritas, sem constrangimentos e amarras, todas as aventuras e ideais protagonizados por todos os homens, sejam os bons ou os maus, os virtuosos ou os iníquos, os valentes ou os cobardes, os inteligentes ou os ignorantes, os santos ou os pecadores, os justos ou os injustos... os feministas ou os machistas. A literatura, como qualquer forma de arte, deve ter espaço para contemplar o belo e o horrível, o perfeito e o imperfeito, o harmonioso e o chocante, o aceitável e o inaceitável, o moral e o imoral...
O princípio sustentado por Vargas Llosa, de que uma literatura, uma cultura, realmente creativas, "de alto nivel, tiene que tolerar en el campo de las ideas y las formas, disidencias, disonancias y excesos de toda índole”, é um bastião que deve ser preservado com todas as nossas convicções e forças. Não apenas por ser uma condição natural para a criação artística e intelectual, mas, sobretudo, por ser um direito humano inalienável, o da diferença de opinião, o de podermos expressar numa folha, numa tela ou numa pauta o que nos vai na alma, por mais chocante que seja para o próximo. Os tempos estão perigosos no campo das ideias verdadeiramente livres, porque há quem, muitas vezes subtilmente, as queira asfixiar ou condicionar, os mesmos que fazem novos Índex, os mesmos que tendem para o revisionismo com a sua “verdade” e “moral” absolutas. Os mesmos que não hesitarão em “queimar” os livros que repudiam, em vez de aprenderem com eles.  

Chhhhh, Ferreira Fernandes é director do DN


 
João Miguel TavaresPúblico

Há pouco mais de dois anos, Ferreira Fernandes não sabia, nem queria, ser director do DN. O que mudou, entretanto, para passar a saber e a querer?


Harry G. FrankfurtFerreira Fernandes tomou posse como director do Diário de Notícias a 3 de Abril, numa das mais silenciosas mudanças de direcção da história da imprensa – nesse dia, o seu nome apareceu em primeiro lugar no cabeçalho do jornal, e pronto. Até hoje, Ferreira Fernandes não disse ao que vinha, não explicou o que queria, não dirigiu aos leitores um só “bom dia, sou o novo director”. A única decisão visível que tomou a 3 de Abril foi acabar com os editoriais, uma novidade em Portugal entre os diários de referência, e provavelmente no mundo. É uma opção bizarra, mas com vantagens. Por exemplo, em Outubro do ano passado, durante semanas a fio, eu estranhei que o DN não fizesse um único editorial sobre a acusação da Operação Marquês. Agora já não será possível estranhar, porque não há editoriais.

Nos últimos 15 dias, aguardei pacientemente que Ferreira Fernandes fizesse prova de vida como director – mas apenas continuei a encontrar o cronista da última página. Dado não ser esse que me interessa, tomo a liberdade de perguntar pelo outro. É que, se o Ferreira Fernandes director do DN realmente existe – como o cabeçalho do jornal parece indicar –, então ele tem algumas explicações a dar, e eu gostava de as ouvir. Em Fevereiro de 2016, foram publicadas as primeiras notícias envolvendo o seu nome na Operação Marquês. Não se trata de nenhuma escuta que tenha sido feita ao próprio Ferreira Fernandes – convém deixar isto claro –, mas sim a José Sócrates e a Afonso Camões, numa época (ano de 2014) em que o estudante de Sciences Po tentava afanosamente influenciar a escolha do futuro director do DN. No entender de Sócrates, o nome certo para dirigir o Diário de Notícias era Ferreira Fernandes: “O homem da última página, com reputação e aceitação na redacção.” Por isso, combinou que Camões tudo faria para que “o nosso amigo lá fique”. Na altura, não ficou.
A primeira jornalista a divulgar esta história foi Felícia Cabrita, no semanário Sol de 20 de Fevereiro de 2016. Aí recordava como Ferreira Fernandes tinha sido um dos grandes defensores de Sócrates, recuperando uma frase dos tempos do Freeport: “Sobre os factos não sei nada, só posso ser testemunha abonatória: ele é o melhor primeiro-ministro que já tive.” Ferreira Fernandes continuou a defender Sócrates já depois da prisão – até que um certo dia calou-se, e não mais se lhe ouviu um pio sobre o tema. Só que ficar calado não chega. Dois dias após a notícia do Sol, Ferreira Fernandes escreveu uma crónica no DN intitulada “Desculpem, mas é tarde para me alistarem”, que concluía assim: “Director do DN?! Todos os meus sabem: não saberia sê-lo. Logo, queiram ou não, eu não quero.” Há pouco mais de dois anos, Ferreira Fernandes não sabia, nem queria, ser director do DN. O que mudou, entretanto, para passar a saber e a querer?
Esta é a explicação que nos é devida. Se em 2014 Sócrates não conseguiu impor todos os nomes que desejava, hoje, com a entrada da misteriosa KNJ na Global Media, via Macau, o que existe é isto: Proença de Carvalho, ex-advogado de Sócrates, como chairman; Afonso Camões, o “general prussiano que não se amotina”, como director do JN; Ferreira Fernandes, o favorito de Sócrates, como director do DN; e Paulo Rego, grande amigo de Camões e ex-director adjunto da Lusa, como vice-presidente do grupo, nomeado pelo accionista maioritário KNJ. Só falta reaparecer Luís Miguel Viana. Parafraseando Ricardo Salgado: ele há coincidências do diabo.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

SANTIAGO, NOVELA DE ISABEL MARIA FIDALGO MATEUS




                Isabel Maria Fidalgo Mateus (Quintas do Corisco, Moncorvo, 1969), acaba de publicar Santiago – O lince da Herdade das Romeiras, uma novela na linha dos trabalhos que tem publicado ultimamente. Santiago é nome de lince, que contracena com outros linces, Vitória, Niassa, Encarnación, personagens essas que, por sua vez, partilham a acção da novela com uma família de humanos, o pequeno João e seus avós. O cenário desta história invulgar, entretecida com elementos reais, é o Alentejo, onde têm sido levadas a cabo acções de salvaguarda do lince ibérico.
                Doutorada em Literatura Portuguesa pela Universidade de Birmingham, Inglaterra, Isabel Mateus tem dividido a sua produção literária pelo conto de temática rural, pelos temas relacionados com a emigração e, mais recentemente, por novelas a que podíamos chamar de intenção ecológica, dedicadas a espécies animais que correm o risco de extinção. Santiago vem na sequência de Farrusco – Um cão de gado transmontano (2013), Sultão – O burreco que veio de Miranda (2015) e Signatus – O lobo do fojo de Guende (2016), e constitui com eles um conjunto de notável coerência, quer do ponto de vista literário, quer do ponto de vista ecológico. Surpreende também, nesta novela, a solidez da informação da autora sobre o lince ibérico e os esforços para preservar a espécie.

CÂMARA MUNICIPAL DE VILA REAL
Grémio Literário Vila-Realense

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Como foi possível?

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por Pedro Correia - Delito de Opinião

Acabo de ver e ouvir uma arrepiante reportagem emitida no Jornal da Noite da SIC sobre a vida faustosa e totalmente dissociada da realidade que José Sócrates Pinto de Sousa levou nos anos e meses que antecederam a sua detenção, em Novembro de 2014, no âmbito da Operação Marquês.
Este indivíduo que se considerava um "pobre provinciano", talvez em involuntário plágio de uma célebre citação de Salazar, chegou a ter gastos de 26 mil euros mensais, dissipou 52 mil euros num ano e meio, e recorria a todo o tempo ao misterioso "engenheiro Carlos Santos Silva" - seu suposto amigo de quatro décadas, "um homem de posses", segundo declarou aos autos policiais o ex-chefe do Governo. Que, mesmo com a conta pessoal a zero, avançava para uma proposta de compra de uma sumptuosa quinta nos arredores de Tavira, disposto a pagar por ela a módica quantia de 900 mil euros.
Entretanto ia ligando ao amigo, exigindo em linguagem cifrada dinheiro, sempre mais dinheiro, cada vez mais dinheiro - com uma "sede de anteontem", como cantava Chico Buarque. Só em 2014, o tal amigo remeteu-lhe 47 cheques num valor próximo de meio milhão de euros.
Mesmo assim, na noite em que foi detido, Sócrates já vira novamente a luz vermelha acesa na sua conta bancária: 12 mil euros por saldar, um sorvedouro sem fim.

Nos quatro anos anteriores à detenção, um milhão e 200 mil euros em cerca de 150 cheques - com a proveniência de sempre - chegaram em dinheiro vivo às mãos deste político que acumulava uma "rede de amigas" sequiosas de notas bancárias e a quem ele se limitava a retorquir para lhes satisfazer a característica cobiça de qualquer alpinista social: "Tenho de falar ao Carlos."
O dinheiro aparecia, mas nunca em quantidade suficiente para saciar a inesgotável ganância de tais "amigas". Nem do auto-intitulado "animal feroz", que fazia questão em viver mergulhado num luxo depredatório - em Paris, Veneza, Suíça, Quénia, Baleares e Algarves - e comprar favores a terceiros com dinheiro que formalmente nunca foi seu mas de que usufruía com a prodigalidade de um senhor feudal.

Repito: é uma arrepiante reportagem, que constitui serviço público. Assinada por três jornalistas conceituados: Luís Garriapa, Amélia Moura Ramos e Sara Antunes de Oliveira.
Vejo-a e escuto-a com atenção. E questiono-me: como foi possível este homem totalmente descontrolado nas contas privadas e que durante anos cultivou um nível de vida muito acima das suas posses, sem fazer a mais remota ideia do valor do dinheiro, ter sido durante seis anos primeiro-ministro de Portugal?

Victor Cunha Rego: um senhor

João Carlos Espada - OBSERVADOR

Como escreveu Maria João Avillez, “o Victor destoava. Via mais longe, antes dos outros e, pior, estava de boa fé e cultivava a ética.” Numa palavra, era um senhor.
Um livro invulgar foi lançado, perante uma audiência invulgar, na passada quarta-feira, 11 de Abril, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Trata-se de Na Prática a Teoria é Outra. Escritos 1957-99, de Victor Cunha Rego, editado por Vasco Rosa e André Cunha Rego, com Prefácios de José Cutileiro, Otávio Frias Filho, Manuel de Lucena e José Miguel Júdice. O livro, publicado pela D. Quixote, foi apresentado pelos dois editores, e por Maria João Avillez e José Cutileiro.
Felizmente, o Observador tem dado o devido destaque à iniciativa. Começou pela pré-publicação de alguns dos textos do livro. Seguiu-se a re-publicação de uma bela entrevista de Maria João Avillez a Victor Cunha Rego, originalmente publicada pelo jornal Público, em 1994. Finalmente, a muito oportuna publicação dos tocantes textos de apresentação da obra por Maria João Avillez e José Cutileiro.
Pouco ou nada poderei acrescentar ao que já foi dito e, sobretudo, tão bem dito. Mas gostaria de subscrever o apelo para que este livro possa ter a atenção que enfaticamente merece. Victor Cunha Rego foi uma figura maior da nossa vida cívica, jornalística, política e intelectual. Devemos-lhe sem dúvida uma homenagem sentida. Mas também é do nosso mais estrito interesse próprio (esclarecido) que recordemos a sua vida e a sua obra — e que tentemos aprender com elas.
Este livro é um excelente ponto de partida para essa tentativa de aprendizagem. Está organizado em três partes, que correspondem a três grandes períodos da vida e obra do autor.
Uma primeira parte, “Liberdade” (1957-73), abrange sobretudo os anos de exílio no Brasil, onde Victor Cunha Rego se tornou um jornalista respeitado — e onde teve a felicidade de conhecer Ivonne Felman, a sua mulher encantadora. A terceira parte, “Os Dias de Amanhã” (1992-99), inclui basicamente as inesquecíveis crónicas da última página do Diário de Notícias.
A maior parte dos textos destas primeira e terceira partes já tinham sido publicados em livros autónomos, mantendo nesta edição conjunta os dois deliciosos prefácios originais: o primeiro, do director da Folha de S. Paulo, Otavio Frias Filho, o segundo, do próprio Victor Cunha Rego.
Existe, no entanto, uma segunda parte que contém textos nunca antes reunidos em livro. Intitula-se “A hora H”, com dois prefácios luminosos de Manuel de Lucena e de José Miguel Júdice, e reúne basicamente os textos do Semanário(1983-91), além da mais efémera A Tarde (1981-83) e alguns do Diário de Notícias no imediato pós 25 de Abril (1975-76).
Para o leitor não familiarizado com a vida e a obra de Victor Cunha Rego, talvez o melhor roteiro para a entrada neste livro volumoso (856 páginas) seja a leitura inicial dos magníficos prefácios — a começar pelo tocante texto de José Cutileiro, que na verdade serve de Prefácio a toda a obra.
Ao ler estes textos prefaciadores, a figura singular de Victor Cunha Rego começa a emergir, para aqueles que não o conheceram, ou a voltar comoventemente à memória, para os que tiveram o privilégio da sua amizade. E é, de facto, uma imagem singular de um homem invulgar.
Basicamente, Cunha Rego recusava a tirania. Como recordou José Cutileiro, citando Victor Cunha Rego, “a liberdade ou existe dentro de nós ou não é possível encontrá-la numa vitrine, comprá-la e pô-la no colo”. Começou por recusar a ditadura acanhada de Salazar, para em seguida recusar a ameaça da ditadura comunista no Portugal pós-25 de Abril. Foi aí que convergiu com Mário Soares. Em seguida, convergiu com Sá Carneiro e prosseguiu o seu legado — na recusa de uma democracia incompleta, quando amputada de um dos seus dois pilares fundamentais, uma direita democrática autónoma, em concorrência civilizada com uma esquerda democrática autónoma. Finalmente, terá re-descoberto a fé cristã, uma das fontes incontornáveis da liberdade do Ocidente.
Como escreveu Maria João Avillez, “o Victor destoava. Via mais longe, antes dos outros e, pior, estava de boa fé e cultivava a ética.” Numa palavra, era um senhor.