![]() |
BARROSO da FONTE |

Tenho reparado que a maior parte da centena e meia de
membros da Academia de Letras de Trás-os-Montes, (2010) se iniciou na escrita
com esta modalidade literária que se bebeu com o leite materno, à mistura com
os anhinhos que nasciam no monte.
O linguarejar da pastorícia fez falta aos copinhos de
leite enlatado que favorecia em altura, os esqueletos urbanos, ocos por dentro
e macios por fora, como os eucaliptos que secam os terrenos à sua volta. O
mérito dos certificados de garantia eram esses filhos da má alimentação que
cresciam pouco, mas pesavam muito, nas balanças da faina agrícola, porque os
caldos de couve tronchuda, com sabor a fumeiro, tinham mais vitaminas e
equilíbrio calorífico do que o marisco que deixa cheiros incandescentes, quando
arrotado, por excesso de consumo.
Esta caldeirada linguística da pesca etnográfica que
os filhos do povo assimilam, por troca com a fome dos manjares urbanos, inspira
os primeiros ensaios dos criativos, sejam escritores, pintores ou artesãos.
Nestas 132 páginas de «Lagoaça: loisas e outras coisas» José Veríssimo se formou e formatou no curso científico-Humanístico de Ciências Sociais e Humanas, condensa e define séculos de vivências humanas, tão úteis ao saber-viver e ao saber-fazer, como o cientista que abre o corpo humano para com o bisturi, extrair um módulo cancerígeno ou outro que entre por bem e saia por mal.
Esta saga de nascer entre montes e entre bichos,
selvagens ou domésticos, destinados uns e outros a viver e a conviver em
existências paralelas, obriga uns e outros, animais e pessoas, a entenderem-se
como se todos fossem inteligentes e humanos. Chilreios, onomatopeias,
grunhidos, noturnos ou diurnos, obrigam à cosmologia da sã convivência do
universo que nos acolhe.
Na nota do autor, ele próprio se explica acerca desta
coletânea que resume, dissecando mais de uma centena de vocábulos
regionalistas, ou expressões idiomáticas que caraterizam as populações do país
periférico. Todas as vivências humanas desses sítios que não cheiram à
hipocrisia da cidade, se enrolam e se propagam, de geração em geração, numa
espécie de resistência à teimosia do poder político que ignora esse património
que não paga impostos, mas constitui privilégio dos deserdados do orçamento
geral do Estado.
Tudo «porque os
testemunhos dos que viveram antes de nós são um legado de frutos amadurecidos,
sobejamente importantes para que se percam no tempo das nossas memórias». Esta
recolha lexical de Lagoaça, Loisas e Outras Coisas «não é mais do que,
ainda que modesta, prova de partes dispersas de todo um conjunto de factos,
saberes e tradições milenares que identificam esta comunidade do nordeste
transmontano».
No sábio prefácio que Armando
Palavras teceu no tear
da ruralidade Lagoense, invocando «a última missão americana da Apollo 8, em
fins de 1968, à medida em que os astronautas se afastavam da Terra, tinham
dificuldade em registar tudo através da câmara fotográfica. O Centro de Houston
pediu-lhes que fizessem uma descrição detalhada, o que fizeram através da
palavra falada que ficou registada para a História». Este relato servirá para
enquadrar em muitas situações, pela força da sua riqueza semântica. Mas
introduzo-a aqui pela oportunidade simbólica que este conjunto etnográfico
representa para o Nordeste Transmontano que, a passos largos, caminha para a
desertificação. Não sendo registadas, em obras como esta, a diversidade e
importância deste glossário, tudo se perderá.
Restará o recurso à Língua Mirandesa que corre os
mesmos riscos se não se acautelarem enquanto por cá residirem agentes culturais
como José Veríssimo.
Sem comentários:
Enviar um comentário