sexta-feira, 28 de junho de 2019

Glossário etnográfico de José Veríssimo

Nascer da Terra (Earthrise) é o nome dado à fotografia AS8-14-2383HR da NASA tirada por William Anders durante a missão Apollo 8 à Lua, em 24 de Dezembro de 1968, com 75 h 49 m de tempo de missão decorrido (cerca das 16 h 40 m UTC). Nela, a Terra surge parcialmente na sombra, vendo-se em primeiro plano a superfície lunar, ao jeito de um nascer do sol. A Apollo 8 não aterrou na Lua, a foto foi tirada da órbita lunar.

BARROSO da FONTE

Entrei no rol de autor em prosa tosca, escrevendo sobre os usos e costumes de Barroso, em 1972, em parceria com o Padre Fontes, o tal clérigo que afrontou o bispo da sua diocese e que se imortalizou, para os Barrosões, com os  polémicos congressos de medicina popular de Vilar de Perdizes e com a noite das bruxas, de todas as sextas-feiras, treze, no concelho de Montalegre. Foram assim iniciados diversos dos muitos e bons autores de Trás-os-Montes e beirões que beberam a etnografia, a etnologia e o misticismo pagão, à mistura com o leite materno, quando era mamado, nos montes, pelas crianças que, ainda jovens, iam e vinham, ao colo das mães pastoras.
Tenho reparado que a maior parte da centena e meia de membros da Academia de Letras de Trás-os-Montes, (2010) se iniciou na escrita com esta modalidade literária que se bebeu com o leite materno, à mistura com os  anhinhos que nasciam no monte.
O linguarejar da pastorícia fez falta aos copinhos de leite enlatado que favorecia em altura, os esqueletos urbanos, ocos por dentro e macios por fora, como os eucaliptos que secam os terrenos à sua volta. O mérito dos certificados de garantia eram esses filhos da má alimentação que cresciam pouco, mas pesavam muito, nas balanças da faina agrícola, porque os caldos de couve tronchuda, com sabor a fumeiro, tinham mais vitaminas e equilíbrio calorífico do que o marisco que deixa cheiros incandescentes, quando arrotado, por excesso de consumo.
Esta caldeirada linguística da pesca etnográfica que os filhos do povo assimilam, por troca com a fome dos manjares urbanos, inspira os primeiros ensaios dos criativos, sejam escritores, pintores ou artesãos.


Nestas 132 páginas de «Lagoaça: loisas e outras coisas» José Veríssimo se formou e formatou no curso científico-Humanístico de Ciências Sociais e Humanas, condensa e define séculos de vivências humanas, tão úteis ao saber-viver e ao saber-fazer, como o cientista que abre o corpo humano para com o bisturi, extrair um módulo cancerígeno ou outro que entre por bem e saia por mal.
Esta saga de nascer entre montes e entre bichos, selvagens ou domésticos, destinados uns e outros a viver e a conviver em existências paralelas, obriga uns e outros, animais e pessoas, a entenderem-se como se todos fossem inteligentes e humanos. Chilreios, onomatopeias, grunhidos, noturnos ou diurnos, obrigam à cosmologia da sã convivência do universo que nos acolhe.
Dia 8 de Junho, em LAGOAÇA, na apresentação pública do volume
António Moreno
 (representante da Casa de Trás-os-Montes do Porto),Hirondino Isaías (presidente da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa), José Veríssimo (autor do volume), Maria do Céu Quintas (Presidente da CMF), Armando Palavras (Mandocas) e Manuel Fidalgo (Secretário da junta de freguesia).
Na nota do autor, ele próprio se explica acerca desta coletânea que resume, dissecando mais de uma centena de vocábulos regionalistas, ou expressões idiomáticas que caraterizam as populações do país periférico. Todas as vivências humanas desses sítios que não cheiram à hipocrisia da cidade, se enrolam e se propagam, de geração em geração, numa espécie de resistência à teimosia do poder político que ignora esse património que não paga impostos, mas constitui privilégio dos deserdados do orçamento geral do Estado.
 Tudo «porque os testemunhos dos que viveram antes de nós são um legado de frutos amadurecidos, sobejamente importantes para que se percam no tempo das nossas memórias». Esta recolha lexical de Lagoaça, Loisas e Outras Coisas «não é mais do que, ainda que modesta, prova de partes dispersas de todo um conjunto de factos, saberes e tradições milenares que identificam esta comunidade do nordeste transmontano».
No sábio prefácio que Armando Palavras teceu no tear da ruralidade Lagoense, invocando «a última missão americana da Apollo 8, em fins de 1968, à medida em que os astronautas se afastavam da Terra, tinham dificuldade em registar tudo através da câmara fotográfica. O Centro de Houston pediu-lhes que fizessem uma descrição detalhada, o que fizeram através da palavra falada que ficou registada para a História». Este relato servirá para enquadrar em muitas situações, pela força da sua riqueza semântica. Mas introduzo-a aqui pela oportunidade simbólica que este conjunto etnográfico representa para o Nordeste Transmontano que, a passos largos, caminha para a desertificação. Não sendo registadas, em obras como esta, a diversidade e importância deste glossário, tudo se perderá.
Restará o recurso à Língua Mirandesa que corre os mesmos riscos se não se acautelarem enquanto por cá residirem agentes culturais como José Veríssimo.

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"O Sal da História" em "Notas da minha Agenda - 17"

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