Joana Marques Vidal tem de ser a PGR da direita, pela
simples razão de que o PS exige ter um PGR de esquerda. Há que agradecer a
Francisco Seixas da Costa ter verbalizado isto de forma tão cristalina.
Se o caro leitor discorda do título deste artigo,
esteja descansado: eu também discordo. Combater a corrupção não é uma causa da
direita, nem da esquerda, nem do centro. Combater a corrupção deveria ser a
causa de qualquer pessoa que aprecie viver num Estado de Direito. Pelos vistos,
não é essa a opinião do antigo embaixador Francisco Seixas da Costa. No dia em
que escrevi neste jornal o texto intitulado “Joana Marques Vidal tem de
continuar”, ele partilhou com o mundo o seguinte tweet: “Não faço a menor ideia
sobre se Joana Marques Vidal deve continuar ou não como PGR. Essa é uma questão
para o PM e o PR decidirem e não deve ser objeto de ‘achismo’ de quem não
conhece os assuntos por dentro. Uma coisa fica mais do que clara: ela é a
candidata da direita ao cargo.”
Eu também não faço a menor ideia se aquelas suas
palavras foram inspiradas pelo meu texto. Mas quer tenham sido, quer não, são
uma excelente oportunidade para perceber como funciona a cabeça de certos
aristocratas socialistas, e de como correr com a procuradora-geral da República
é a prenda de Natal que boa parte deles sonha receber já em Setembro. Todo o
tweet de Seixas da Costa é uma obra-prima de pensamento ardiloso e da forma
mentis de uma oligarquia que se julga dona do regime, e que não admite a
existência de um Ministério Público sem alguma espécie de subordinação – ou, no
mínimo, de respeitinho – pelo partido que apascenta a democracia portuguesa
desde 1974. Vale a pena analisar o seu tweet em pormenor, frase a frase.
“Não faço a menor ideia sobre se Joana Marques Vidal
deve continuar ou não como PGR.” É o argumento sonso. Seixas da Costa olhou
para o Portugal dos últimos seis anos e não conseguiu ter a mais minúscula
ideia sobre o desempenho da PGR, nem sobre se ela deve continuar no cargo. Pode
parecer que é preciso ser um bocado cegueta para dizer uma coisa dessas, mas
não é cegueira. “Essa é uma questão para o PM e o PR decidirem e não deve ser
objeto de ‘achismo’ de quem não conhece os assuntos por dentro.” É o argumento
professoral. Seixas da Costa não só não tem a “menor ideia” (diz ele), como
convida os portugueses a partilharem a sua ignorância, evitando influenciar os
sábios não-achistas do regime, que no passado têm tomado tão boas decisões. É
uma estranha visão da democracia, da cidadania e da transparência da justiça?
É. Mas combina com o PS.
“Uma coisa fica mais do que clara: ela é a candidata
da direita ao cargo.” É o argumento tribal e autocrata. A política rodeia tudo
e nada escapa à tribalização partidária. Afinal, Seixas da Costa sempre tem uma
ideia sobre a PGR – investigações judiciais a políticos sem motivações
políticas não existem na sua cabeça, donde, desejar a recondução de uma PGR
apenas porque ela se mostrou competente é uma explicação inaceitavelmente
simples. Se quem apoia a continuação de Joana Marques Vidal é de direita, então
ela é a “candidata da direita ao cargo”, que é como quem diz: a sua recondução
é inaceitável para a esquerda. Bem podemos nós argumentar que o Ministério
Público acusou o ex-ministro Miguel Macedo no caso Vistos Gold, ou que a
Operação Tutti Frutti envolve sobretudo caciques do PSD. Não interessa. Joana
Marques Vidal tem de ser a PGR da direita, pela simples razão de que o PS exige
ter um PGR de esquerda. Há que agradecer a Francisco Seixas da Costa ter
verbalizado isto de forma tão cristalina – assim já podemos todos estar
preparados para aquilo que aí vem.
Sem comentários:
Enviar um comentário