segunda-feira, 30 de abril de 2012

A. Júlio Andrade / Fernanda Guimarães - Marranos de Lagoaça no Tribunal da Inquisição (2)



Fernanda
Guimarães
A.Júlio Andrade
Não vamos analisar os processos daqueles prisioneiros, mas tão só referir que o homem que dirigiu estas prisões em Lagoaça dava pelo nome de Domingos Gonçalves, morador na aldeia de Peredo, limite do concelho de Chacim. E há um episódio significativo sobre os seus métodos de “espionagem” inquisitorial. Vamos contar.
Aconteceu 3 anos antes da prisão de Manuel Garcia e restante família. Certo dia, atravessava este a ponte de Remondes sobre o rio Sabor, indo para Chacim. Atrás dele, surgiu outro caminhante que ele não conhecia e que se lhe dirigiu nos seguintes termos: - O senhor não é o pai de Francisco Garcia, de Lagoaça? Manuel respondeu que sim e a conversa continuou, com o desconhecido a dizer que era descendente de cristãos-novos, pelo lado paterno, primo carnal de Luís Nunes Pinete, casado com Gaspar Garcia… Acrescentou nomes de mais parentes e amigos conhecidos do outro, alguns dos quais vítimas da Inquisição e declarou-se seguidor da lei de Moisés. Naturalmente que Manuel Garcia entrou também de falar de si e da sua crença, não imaginando que se estava confessando a um trânsfuga da sua nação, a um colaborador do terrífico tribunal, a alguém que, tempos depois, o levaria preso para Coimbra.[1]
Decorreram com celeridade os processos dos Garcia que, de imediato, confessaram seus pecados e pediram perdão. Todos foram condenados em penas espirituais, saindo penitenciados no auto-de-fé celebrado em Coimbra em 18 de Dezembro de 1701.
Também neste auto saiu penitenciado Luís Garcia, o outro filho de Manuel, já por duas vezes referido neste texto. Luís, porém, tinha sido encarcerado há mais de um ano. E antes dele, fora sua mulher, Catarina Lopes.
Voltemos então a Mogadouro, aos anos de 1671, ao nascimento de Luís Garcia que, ainda em pequeno, acompanhou os pais na mudança para Lagoaça. E seguiu também o pai nos ofícios de curtidor e sapateiro. E pelos pais foi educado na religião de Moisés, quando atingiu os 14 anos, conforme declarou aos inquisidores. E recordou mesmo uma das primeiras orações que a mãe lhe ensinou, a qual rezava ao amanhecer:
Bendita la luz del dia
Muita paz e alegria
E gracia para lo servir[2]

Ao início da última década do século XVII, Luís Garcia casou na vila de Chacim e ali ficaram a residir alguns anos. Por 4 dias “assistiram” em casa de seu irmão Francisco Garcia, também ali casado e que então se mudou para Bragança, o que indiciará alguns problemas nas relações com a família. E o casal deixou a terra e foi montar casa em Lagoaça. Por qualquer razão que não conseguimos apurar, acabaram por alugar uma casa na aldeia de Fornos, distante 1 ou 2 quilómetros, continuando a curtir seus couros na tinaria do pai.
À data da prisão tinha Luís 3 peles a curtir e tinha solas na oficina para o fabrico de dúzia e meia de pares de sapatos, para além de uns arráteis de seda. E tinha algumas dívidas, provenientes de couros comprados, pão que lhe fiaram e renda de casa em atraso – segundo ele contou aos inquisidores.
De resto, parece que tinha especiais relações com um primo (Tomás Herrera) que morava em Vitigudinho e pertencia à enriquecida classe dos contratadores. Por isso fazia constantes deslocações a Castela, com travessia do rio Douro no sítio da Barca de Vilvestre, depreendendo nós negociava (ou contrabandeava) produtos entre os dois reinos. [3]
Não vamos falar do processo de Luís Garcia, que nada oferece de especial interesse. Vamos antes falar de sua mulher, cujo processo se apresenta como um verdadeiro catecismo dos marranos de Trás-os-Montes.
Estranhamente, Catarina Lopes nasceu em Chacim, por 1670, sendo filha de Manuel Mendes, de Vinhais e de Antónia Barrenta, de Valladolid, moradores em Vinhais. Possivelmente o casal ter-se-á mudado de Vinhais para Chacim, com receio de alguma investida da Inquisição naquela terra. Sim, que o historial da família paterna de Catarina era já muito longo. Com efeito:
* O avô, João Mendes, foi queimado nas fogueiras da Inquisição.[4]
* A avó, Brites Lopes, faleceu nos cárceres de Coimbra.[5]
* O tio, António Lopes, o Mazona, de alcunha, foi, por duas vezes, prisioneiro do Santo Ofício e 2 de seus filhos teriam, mais tarde, idêntico destino.[6]
* A mulher deste, Inês Lopes Vinagre, sofreu nos mesmos cárceres.[7]
Extenso também era o rol de denúncias feitas na Inquisição contra Catarina Lopes, nenhuma delas feitas por gente de Lagoaça, mas de outras terras trasmontanas, principalmente de Chacim. Vejamos uma delas, particularmente incriminatória para Catarina, já que o feito se terá passado em sua própria casa, em Chacim, por 1695, na ocasião da morte de sua mãe, Antónia Barrenta. Vejamos então o testemunho produzido por uma tal Maria Henriques, de Chacim, na Inquisição de Coimbra:
- Disse que haverá 5 anos, em Chacim, em casa de Catarina Lopes Barrenta, se achou com ela e com seu marido e com Brites Barrenta, sua irmã, casada com Sebastião Lopes, e com João, solteiro, irmão das mesmas, que terá 15 anos, todos primos segundos dela confidente (…) ao assistir ao mortório de Antónia Barrenta, mãe de Catarina Lopes Barrenta e por observância da dita lei, ficaram assistindo a dita moribunda até falecer, pondo-lhe à cabeceira duas candeias acesas com torcidas novas e azeite limpo, rezando a oração do padre nosso sem dizer Jesus no fim; e depois de a dita pessoa expirar, a amortalharam e cortaram as unhas, em presença das mencionadas pessoas. E Catarina Lopes e Inês Lopes a amortalharam com camisa nova, em lençol novo, e assim envolta, lhe meteram na boca um grão de aljôfar, e lhe puseram à cabeceira um pente e uma tigela de água para se lavar e pentear; e para a ceia bacalhau frito, rosca de pão duro e marmelada; e depois de enterrá-la a dita pessoa defunta, assistiram todos na mesma casa, por cerimónia judaica, 7 dias e 7 noites, sem se deitarem, tendo à cabeceira da cama da dita pessoa defunta, em todas as 7 noites, candeeiro aceso com torcidas novas e azeite limpo, até se apagar por si, dando a ceia que a dita pessoa defunta havia de comer, a duas pessoas pobres da nação. [8]
Vamos transcrever também uma denúncia feita por sua sogra, Maria do vale, onde se mostra que celebravam em família o dia grande (Kipur):
- Disse que, haverá 4 ou 5 anos, em Fornos, em casa de seu filho, Luís Garcia, casado com Catarina Lopes Barrenta, se achou com ambos e se declararam seguidores da lei de Moisés. E que, haverá 3 ou 4 anos, em Lagoaça, em casa dela confidente, se achou com seu marido e com os filhos, António, Luís e Diogo Garcia e com suas noras, Catarina Lopes barrenta e Francisca Fernandes e estando todos os 7 por ocasião de jejuarem e guardarem o dia grande…[9]
E por falar em jejum do dia grande, acrescentemos uma denúncia feita por Brites Lopes Ruiva[10] dizendo que, no ano de 1690, se juntaram 11 pessoas em casa de Ana Lopes, sua tia e tia de Catarina Barrenta “para guardar o jejum do dia grande”, dizendo mais o seguinte:
- E estando todo o dia sem comer nem beber senão à noite, em que cearam caldo de grãos e peixe, em louça nova e toalhas novas e na cama lançaram roupa lavada e ela confidente e suas sobrinhas Joana e Branca Lopes varreram a casa às avessas, da porta da rua para dentro, e limparam os candeeiros pondo-lhes torcidas novas e azeite limpo.
Voltemos agora para a aldeia de Fornos, ao dia12 de Julho de 1700, à prisão de Catarina Lopes Barrenta que ali deixou uma filha de 5 anos e um filho de 2 anos e meio. O marido ficou mas, por 4 meses apenas, que também o vieram prender.
Não vamos aqui relatar os pormenores inerentes ao acto da prisão e à condução da prisioneira até Coimbra, onde foi metida em uma cela da cadeia de companhia com Antónia Pereira, uma rapariga sua conhecida de Chacim, natural de Freixo de Espada à Cinta e moradora em Chacim, prosélita judaica como ela, a qual viria depois lançar na fogueira mais uma acha incriminatória de Catarina Barrenta:
- Disse que dois anos e três meses esteve no cárcere em companhia de Catarina Lopes Barrenta e na ocasião de esta lhe dizer que não confessasse, que havia de ser pior, porque quando saísse ninguém a havia de favorecer.[11]
E a verdade é que Catarina não aconselhava apenas, antes se mantinha fiel a si própria. Durante mais de 3 anos negou todas as acusações que lhe fizeram e não denunciou ninguém. Ainda na audiência que com ela tiveram os inquisidores em 17 de Fevereiro de 1704, 15 dias antes do auto-de-fé, depois de aqueles lhe dizerem que estava condenada à morte por se manter “convicta, no crime de heresia e apostasia e por herege e apóstata de nossa santa fé católica, negativa e pertinaz…” ela respondia que “não tinha culpas a confessar”.
Mas chegou o dia em que a sua força de ânimo quebrou. Dois dias antes do auto, vendo-se já de mãos atadas e sabendo que iam queimá-la, Catarina entrou de confessar suas culpas e implorar misericórdia e perdão. Foi uma torrente de confissões durante todo o dia. E depois, pela meia-noite, pediu que voltassem a ouvi-la e continuou vomitando pecados e denúncias de correligionários. E continuou pelo dia e noite adentro, véspera do auto-de-fé.
Acabou por conseguir misericórdia e livrar-se das chamas da fogueira, saindo condenada em cárcere e hábito perpétuo e 7 anos de desterro em Angola, no auto-de-fé realizado em Coimbra em 2 de Março de 1704, juntamente com outras 21 marranos de Chacim (2 dos quais queimados na fogueira) e outros mais trasmontanos.
Dois anos passados, Catarina continuava presa na cadeia da Relação do Porto, aguardando que a metessem num barco para Angola, o que não chegou a acontecer. “Por ter 3 filhos, um deles mudo, e padecer de muitas necessidades”, pediu que lhe comutassem o local de desterro, o que foi deferido e com ordem de soltura.
Vamos agora ver um pouco de suas confissões, procurando sobretudo o que disse sobre os rituais e cerimónias judaicas que fazia e as orações que rezava.
Já atrás se falou se falou de ritos mortuários e uma testemunha contou como Catarina Lopes amortalhou a sua mãe. E um dos actos desse ritual foi acender duas candeias, metendo-lhe torcidas novas e azeite limpo. Mas isso não é simples. As coisas não se faziam de qualquer modo. Para fazer a torcida pegava-se numa toalha branca, nova, e estendia-se na mesa. Ao lado, colocava-se uma estriga de linho em rama. Pegava-se então num fio dessa estriga e colocava-se sobre a toalha, rezando-se uma oração. Depois pegava-se em 3 outras fibras de linho e juntavam-se à primeira, repetindo-se a oração. Mas vejam a descrição feita pela própria Catarina, que a prosa é mais colorida, saborosa e autêntica:
- Quando fazia torcidas para as candeias dos defuntos, as fazia de linho em rama, posto sobre uma toalha nova ou lavada e retirando um fio de linho e pondo-o sobre a toalha, disse as palavras seguintes

Bendito Adonay que nos fez e nos criou
E nos mandou e nos encomendou
Nas suas encomendanças
Nas boas e nas santas e nas benditas
Que lavássemos nossas mãos
Em águas esclarecidas
Que déssemos graças e louvores
Às deitadas e às erguidas
Que fizéssemos candelicas
Com azeite de oliva reverdecida
Para alumiar e aclarar esta alma
Do Senhor, santa e bendita.

E depois das ditas palavra, tirava mais três fêveras da estriga e as juntava à primeira, repetindo novamente as sobreditas palavras, e acabadas, tirava mais 13 fêveras de linho que ajuntava com as mais e dixia:

Estas treze que sejam
pelas treze mil vezes
que meu senhor Adonay
lá no monte Sinai
porta do filho de Israel
e por esta alma também.

E se a pessoa defunta era homem, se lançava uma bênção no candeeiro com a mão direita, na forma seguinte:

A bênção que o Senhor botou
sobre Isaac, Jacob, Abraão,
Daniel, Samuel, Moisés e David,
bote o Senhor sobre ti.

E sendo a pessoa defunta mulher, se deitava assim:

A bênção que o Senhor botou
sobre Sara, Rebeca, rainha Ester
e formosa Judite,
bote o Senhor sobre esta alma
e sobre esta candeia. [12]

in: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura (2011)

(Continua)

[1] Geralmente eram os familiares da Inquisição que executavam estes trabalhos sujos (ou honrosos!). O facto de esta tarefa ser entregue a alguém que não era familiar ou funcionário do tribunal, explicar-se-á por Chacim ser um concelho muito pequeno e onde os cristãos-novos dispunham de excepcional poder. A verdade, porém, é que Domingos Gonçalves terá mesmo diligenciado a sua promoção a Familiar do Santo Ofício, conforme consta dos seguintes documentos:
IANTT, Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações Incompletas, documentos 1330 e 1338 – Diligências de habilitação de Domingos Gonçalves Peredo.
[2] IANTT, Inquisição de Coimbra,  Proc. 978, de Luís Garcia.
[3] Tomás de Herrera foi um dos 5 filhos de Diogo Lopes, irmão de Manuel Garcia. Todos eles, pai e filhos, foram penitenciados pela Inquisição de Valhadolid.
No auto-de –fé de Coimbra de Dezembro de 1701, juntamente com Luís Garcia, foram penitenciados muitos outros marranos do Nordeste Trasmontano, entre eles a avô de Jacob Rodrigues Pereira, Branca Henriques do Vale.
[4] IANTT, Inquisição de Coimbra,  Proc. 3411C de 1658.
João Mendes era filho de Francisco e Leonor Álvares de Vinhais.
[5] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 6566C  de 1660.
Brites Lopes era filha de Diogo Fernandes e de Joana Serrão, de Vinhais.
[6] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 1789 de António Lopes.
[7] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc, 9834. Inês era filha de Francisco  Lopes Vinagre  e de Beatriz Vaz., de Vila Flor.
[8] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 8817 de Maria Henriques.
[9] Por encontrarmos de muito interesse para o estudo da ritualidade mortuária dos marranos de Chacim, aqui reproduzimos o depoimento prestado por Joana Lopes referente à morte de sua irmã e que vem no processo de Catarina Barrenta, folhas 26 a 30: - E estando todas as 15 ao mesmo tempo, ela confidente lavou o corpo da irmã que seria de 10 anos, cortou as unhas dos pés e mãos, lavou-a num alguidar novo que depois quebrou, para que não mais servisse, por cerimónia judaica, e depois, todos juntos assistindo ao corpo da dita defunta, não fizeram mais cerimónia judaica, por entrarem cristãos-velhos a lançar água benta; mas que depois de a levarem para a igreja, foi o avô a casa buscar de jantar para as ditas pessoas, em uma panela nova; e por não trazer toalhas novas ela confidente as foi buscar a casa e comeram o dito jantar nos regaços, em louça nova, com toalhas e colheres novas, tudo por cerimónia judaica. E estiveram todos juntos até à noite, em que se ausentaram Inês Lopes, Margarida Dias, Catarina Álvares da Costa, Ana Lopes da Paz; e as mais pessoas ficaram com ela confidente e no mesmo aposento em que faleceu a mesma defunta estiveram os primeiros 7 dias e noites seguintes à sua morte, sem se despir nem deitar, comendo da mesma forma assim ao jantar como à ceia, o qual comer fazia ela fora de casa, por dizer sua avó, Maria Lopes Vinagre, que tudo o que estava ou se fizesse de comer na casa em que faleceu a dita defunta era trefego e sujo e se não podia comer, e que comendo-se dava pena à alma da dita defunta; e em todos os 7 dias e noites, assim como as mais pessoas, rezavam orações judaicas que ofereciam ao Deus do céu, tudo por intenção da alma da dita defunta. E na casa onde faleceu a dita defunta punha ela confidente à noite candeia acesa com azeite limpo e torcida de linho em rama, até por si se apagar e pela manhã lançava a dita candeia ao lume, assim como a tirava e depois a tornava a consertar, na mesma forma que a primeira vez havia feito. E em todos os 7 dias pôs ela confidente aos pés da cama em que faleceu a dita defunta o jantar e a ceia que ela havia de comer em casa em os tais dias, em louça nova e juntamente uma toalha nova, com uma tigela nova de água para se lavar; tanto que amanhecia, dava ela confidente ao dito seu avô Domingos Lopes, por ser mais pobre, os ditos jantares e ceias e a água a lançava na rua, porque não era bom, conforme a lei de Moisés.
[10] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 6310 de 1698, de Brites Lopes Ruivo. Esta era filha de  Domingos Lopes, o Ruivo, ou o Faraó   e  de Maria Lopes, de Chacim.
[11] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 9614 de Antónia Pereira.
[12] Esta oração e as que seguem  constam do “Acordão” do processo  de Catarina Lopes.

Marranos de Lagoaça no Tribunal da Inquisição



Maria Fernanda Guimarães
A.J.Andrade
- Próximo da minha terra natal há uma povoação – Lagoaça – onde as famílias indicadas por judias são numerosas e formam o grosso da população, considerando-se, desde tempos imemoriais, separadas de qualquer consanguinidade ou afinidade com a outra parte, que é especialmente agrícola e mesteiral, enquanto aquela se dedica ao comércio quase absolutamente e, até há poucos anos, exclusivamente às recovagens e ao contrabando; afastados completamente da vida pública, em que nem tentavam intrometer-se, com costumes e usos muito diferentes dos do resto da população, com a qual porém se confundiam nas práticas externas do catolicismo.
Estas palavras escreveu, por 1879, o Dr. Bernardo Teixeira Leite Velho, de Mogadouro, em umas notas que deixou manuscritas e de que o Dr. Casimiro Henriques de Moraes Machado publicou alguns excertos. [1]
Muitas referências foram também feitas pelo Abade de Baçal aos criptojudeus de Lagoaça, assim retratados:
- Diz-nos o ilustre abade de Carviçais que o tipo de judeu do sul do distrito é sardento, olhos penetrantes, nariz adunco e que são chamados Cházaros em Lagoaça.[2]
No mesmo volume, página LX, das suas memórias, acrescenta:
- Segundo me informa o erudito abade de Carviçais José Augusto Tavares, também no sul do distrito de Bragança, principalmente nas povoações de Lagoaça e Vilarinho dos Galegos, há abafadores, que são conhecidos pelo nome de encalcadores e ainda massagistas.
Esta informação tem despertado muita controvérsia, sobretudo depois da publicação do conto de Miguel Torga – O Alma Grande – descrevendo a morte provocada de um moribundo, por asfixia. A verdade é que, nunca se provou tal prática e o comportamento das famílias marranas perante os seus moribundos seria idêntico ao das famílias católicas: prestar-lhes assistência e dar-lhe o conforto espiritual para bem morrer, na graça de Deus.
Diz uma tradição popular que os judeus expulsos de Espanha, que atravessaram a fronteira por Miranda do Douro, seguiram três destinos diferentes: os mais pobres, que vinham a pé, ficaram-se por Carção e Argoselo, os que eram remediados e vinham de burro, seguiram para as terras de Mogadouro e Vilarinho dos Galegos, enquanto os mais ricos, donos de possantes machos e mulas, se foram fixar em Lagoaça. De contrário, refere-se outra tradição dizendo que a terra de fixação dos judeus ricos era Freixo de Espada à Cinta e que para Lagoaça foram os judeus pobres.
Certamente que nenhuma das afirmações encerra toda a verdade, até porque a principal característica da gente da nação hebreia era exactamente a sua permanente mobilidade e o estabelecimento de redes comerciais familiares descentralizadas. Estavam onde podiam estar e aproveitavam todas as oportunidades que lhe eram proporcionadas. Como quer que seja, são indiscutíveis as tradições judaicas e marranas de Lagoaça e há um rifão popular que diz:

Morcegos na Adeganha
Em Fornos batateiros;
Judeus na Lagoaça
Em Açoreira pepineiros.

Vamos então a Lagoaça, olhar as casas e falar com as pessoas, à procura das suas raízes judaicas e da sua ambiência cultural marrana.
Desde logo, não cremos que ali tenha existido qualquer judiaria, ou seja, um espaço próprio e delimitado onde os judeus habitassem. No entanto, o facto de uma das ruas mais antigas e centrais da povoação ter o nome de Rua Nova, deixa adivinhar que o elemento hebreu seria predominante neste arruamento. Na verdade, na generalidade das terras portuguesas, as antigas judiarias foram baptizadas com aquele nome, depois da promulgação do decreto de expulsão dos judeus pelo rei D. Manuel.
Também na Rua da Costa predominava a gente da nação, dizendo-se que, até há bem poucos anos, quando se encontrava um morador daquela na Rua da Argana (esta era dos cristãos), havia confusão, de certeza.
Infelizmente são poucos entre nós os estudos de arqueologia judaica e nenhum especialista se terá debruçado sobre Lagoaça.[3]  No entanto, até mesmo para leigos, é fácil descobrir ali marcas de cristianização, que o mesmo é dizer, sinais de afirmação marrana, em casas da Rua da Costa (nº 2 e nº 27, por exemplo) com ombreiras e padieiras de portas e janelas decoradas com cruzes. O mesmo na Rua Nova e na Rua da Quintinha. E em plena Praça se apresenta a porta principal da casa nº 7 com a padieira bem iluminada por uma rosa / cruz - um símbolo judeu e cabalístico. [4]
Mas se o património arqueológico marrano surpreende em Lagoaça, mais significativo é o seu património imaterial: usos e costumes, crenças e orações judaicas. Não vamos aqui falar deste património, pois isso nos faria alongar demasiado o texto e desviaria do objectivo que nos impusemos. Remetemos, no entanto, os interessados para as obras já citadas do Abade de Baçal, de Casimiro Machado e muito especialmente de Amílcar Paulo. [5]
E se nos impressiona o facto de, por mais de 400 anos se terem mantido no seio de algumas famílias de Lagoaça semelhantes tradições, cerimónias e rezas da religião mosaica, mais impressionante será o reconhecimento da indómita vontade de tal gente em perseverar na mesma crença, por séculos afora, apesar de todas as perseguições e esforços de extermínio por parte dos poderes constituídos, da Inquisição à Igreja Católica e ao Estado Novo. E assim, quando em Portugal foi concedida alguma liberdade religiosa e em Lisboa se construiu a primeira sinagoga dos tempos modernos, houve gente de Lagoaça presente no acto da sua inauguração, em 1904. E depois, por 1932, quando no Porto renasceu das cinzas a comunidade israelita, com a Obra do Resgate, logo apareceram mancebos de Lagoaça que se fizeram circuncidar, publicando-se até em letra de jornal os nomes de alguns:
* Adriano Augusto Lopes, que tomou o nome de Abraham.
* Manuel Lapo, que recebeu o nome de David.
* António Ferreira, que passou a chamar-se Arão
* Armando Augusto Horta…[6]
Desse período ficou também o registo da celebração da festa do Hanucah – em 30 do Kislev de 5693 (29 de Dezembro de 1932, na era cristã), - no Porto, com récitas feitas pelos talmidim (alunos do seminário judaico), entre os quais se contou a de Judah Lopes, de Lagoaça, com o título de “Rocha”, como noticiava o jornal Ha-Lapid nº 51.
E apareceu também Amílcar Paulo integrando a mesma comunidade marrana do Porto, também ele vizinho de Lagoaça. E apareceu mais gente a dar a cara pela crença de seus antepassados, como foi o caso da família de Albino José de Castro cuja fotografia foi publicada na revista Douro Litoral, ilustrando o texto de Amílcar Paulo sobre “Os Marranos de Trás-os-Montes”, em 1956, fotografia que aqui reproduzimos. [7]
Mas se a herança judaica e marrana foi guardada em segredo no seio das famílias, a grande fonte para o seu estudo são os processos da Inquisição os quais se conservam no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. A sua consulta é obrigatória e imprescindível. E aqui surge a primeira desilusão: efectivamente são muito poucos os processos que ali existem referentes a pessoas de Lagoaça!
Com explicar que uma terra de tantas memórias e tradições marranas apresente um historial de perseguições inquisitoriais assim reduzido? Pensamos que o fenómeno se explicará pelo facto de ser uma terra fronteiriça, um ponto de passagem entre os dois países ibéricos, em zona inóspita, de íngremes ladeiras e desabitada, de um lado e outro da raia. A fuga era sempre muito fácil! Aliás, também por aquele ponto do rio Douro (sítio da Barca de Vilvestre) passavam os contrabandistas e davam o salto os emigrantes modernos.
Por outro lado, sendo uma terra pequena, de passagem constante, sem um poder político instalado e nele incluindo Familiares da Inquisição, esta não teria quem espiasse e “bufasse” informações. Aliás, do ponto de vista político e administrativo Lagoaça viveu sempre alguma instabilidade, sendo concelho autónomo em algum tempo, integrando-se em Mogadouro noutras épocas e finalmente no de Freixo, sendo que sempre o seu relacionamento económico e comercial sempre terá sido mais com Torre de Moncorvo.
Poderá até acontecer que, sendo maioritária a população marrana em Lagoaça, eles impunham as regras e ordenavam o viver colectivo. Assim se compreenderá que, até os poucos processos inquisitoriais que foram instruídos a gente de Lagoaça tivessem todos início em informações vindas de outras terras vizinhas, nomeadamente de Chacim.
Vamos então para a Torre do Tombo ver os processos da Inquisição. Os registos apresentam uma dezena deles e, na quase totalidade, referentes a uma única família – a de Luís Garcia e Catarina Lopes. Vamos apresentá-los.
A família Garcia era originária de Quintela de Lampaças, termo de Bragança. Ali viveria, pelos anos de 1630, um Francisco Garcia, casado com Ana Rodrigues. E ali terá nascido, pelo menos, uma sua filha: Clara Lopes.
Por 1638, o casal estava residindo em Sahagún, povoação da zona de Tierra de Campos, província de León. E ali, naquele ano, nasceria um outro filho do casal – Manuel Garcia, de quem voltaremos a falar.
Por agora, refira-se que Quintela de Lampaças era então uma terra fortemente povoada de marranos. E estes sentiam-se tanto à vontade que decidiram celebrar em comunidade alargada o dia grande do Kipur em 2 de Outubro de 1634, promovendo-se a realização de uma “Missa Judaica” em casa de um deles.[8]
Um cerimonial daquela natureza deu nas vistas e um dos participantes deu com a língua nos dentes. O caso começou logo a ser comentado pelas feiras e nas terras em redor, acabando por ser denunciado à Inquisição de Coimbra e, em consequência, foi ordenada a prisão de 19 dos 23 participantes. Apenas puderam prender-se 10, pois que os outros 9 tinham antecipadamente fugido, constando-se que houve uma fuga de informação entre o tribunal de Coimbra e o comissário da Inquisição de Bragança encarregado de dirigir as operações. Pelo meio, além dos referidos 23 participantes da “missa”, chegou a Coimbra a lista de outros 41 marranos de Quintela denunciados como judaizantes e que haviam fugido. [9]
Não nos foi possível averiguar em concreto a ocasião e os motivos da fuga da família de Francisco Garcia. Sabemos é que, para além de Sahagún, residiram em Tapiolles e Fuente Encallada, pois nessas terras lhe nasceram filhos.
E se fugiram de Quintela de Lampaças por causa da Inquisição portuguesa, a verdade é que também ali não tiveram paz. Francisco foi parar às cadeias da Inquisição de Valladolid. E também ali, ou em Lerena, foram encarcerados 10 de seus filhos e netos.
Voltemos agora a Manuel Garcia, o qual terá nascido por 1638, em Sahagún. Veio a casar com Maria do Vale, nascida em Mogadouro, por 1637, filha de Luís Fernandes e Isabel do Vale, originários também de Quintela de Lampaças. Também ela terá sido levada ainda pequena pelos pais, em fuga para Castela, pois que, sendo baptizada em Mogadouro, foi crismada no país vizinho. [10]
Foi uma vida de verdadeiros andarilhos a estadia de Manuel e Maria por terras de Castela, tendo morado em Tapiolles, Fuente Encallada, Ávila, Mieza… Sabemos  que   o primogénito do casal, a quem deram o nome de Domingos Garcia nascera em Fuente Encallada  e que viria a casar com Francisca Fernandes e a estabelecer morada em Freixo de Espada à Cinta, mudando-se depois para a vizinha povoação espanhola de Mieza[11]
No ano das pazes (1668) entre os dois reinos ibéricos já o casal tinha regressado a Trás-os-Montes, fixando residência em Mogadouro. Ali terão nascido mais dois filhos. De um deles (Luís Garcia), falaremos adiante. Do outro diremos que se chamou Francisco Garcia e casou em Chacim com Catarina Lopes Garcia, indo morar para cidade de Bragança e dali passando mais tarde a Castela.
Tempos depois, Manuel Garcia e Maria do Vale assentaram definitivamente em Lagoaça, exercendo ele as profissões de curtidor de peles e de sapateiro. Não sabemos em que rua moravam, mas sabemos que tinham uma horta ao fundo da aldeia, à margem de um ribeiro que ali corre. Na horta, para além do terreno de cultivo, com videiras e outras árvores, haveria uma construção, tipo armazém (e também moradia?) que no processo é designada como a “casa de curtume”. E haveria uma tinaria constituída por 5 pelames e um enoque, confrontando com complexos semelhantes de preparação de couros pertencentes a outros moradores da aldeia, um dos quais ao cirurgião Diogo Currales que era irmão de Maria do Vale.[12]
O valor da propriedade e tinaria era bastante elevado – 80 mil réis. E do mobiliário industrial da casa de curtume de Manuel Garcia, destaque para a “caldeira da fornalha”, feita de “cobre castelhano” e que custou 4 mil réis, para dois outros caldeiros, mais pequenos, também de cobre e para uns 5 cutelos, objectos também indispensáveis na indústria dos curtumes.
Em preparação e curtimento nos pelames e enoque tinha 7 couros que valiam 14 mil réis. E tinha em stock 3 cargas (uns 250 litros) de sal, que valiam 3 mil réis. Isto quando o prenderam.
No que respeita ao seu ofício de sapateiro, diremos que Manuel Garcia estava bem abastecido de formas: uma colecção de 88 pares, a que foi arbitrado o valor de 2 mil réis.
Do inventário de seus bens, consta ainda um sedeiro (instrumento usado na preparação da seda) e umas quantas pedras de linho, bem como uma espada, dois burros e dois porcos.
Escusado será dizer que Manuel Garcia e Maria do Vale acabaram por ser presos pela Inquisição de Coimbra, em 7 de Novembro de 1701 e com eles os dois filhos mais novos: Diogo e António Garcia, ambos solteiros,  E antes deles, havia sido encarcerado pelo mesmo tribunal o outro filho – Luís Garcia – e a sua mulher – Catarina Lopes, também – o casal de que ao início colocamos no centro da nossa investigação e de quem falaremos a seguir.[13]
E se o filho Francisco não foi também preso é porque antes abalara com a mulher (também chamada Catarina Lopes Garcia) para lá da fronteira, encontrando-se a residir bem longe, na Andaluzia. O mesmo se passou ainda com o filho mais velho, de quem já falámos, que estava casado em Freixo de Espada à Cinta e morava em Mieza.

in: Trás-os-Montes e Alto douro, mosaico de Ciência e cultura (2011)

(continua)



[1] CASIMIRO HENRIQUES DE MORAES MACHADO, Mogadouro um olhar sobre o passado, edição de Herdeiros de C. H. M. M., pg. 98, Mogadouro, 1998.
[2] FRANCISCO MANUEL ALVES, Memórias Arqueológico Históricas do Distrito de Bragança, vol. V, pg. LIV, Bragança, 2000.
[3] Sobre este tema consultar  “Arqueologia Judaica do Concelho de Moncorvo ( Novos Elementos) - Carmen Ballesteros , Universidade de Évora – CIDEHUS – Dra. Carla Santos.
Caderno de Estudos Sefarditas n.º 4 de 2004.
[4] ANTONIO LULIO ANDRADE, Lagoaça notas de arqueologia judaica, in: Jornal Terra Quente, de 1 de Outubro de 2004.
[5] AMILCAR PAULO, Os marranos em Trás-os-Montes, in: Douro Litoral, boletim da Comissão de Etnografia e História, sétima série, V-VI e VII-VIII, Porto, 1956. Deste trabalho, páginas 531 – 532, extractamos:
- Em Lagoaça e em Vilarinho dos Galegos vigora o costume de se não comer, na Semana Santa, pão fermentado, mas sim bolos cozidos entre duas telhas (…) Quando morre alguém é uso iluminar a câmara mortuária com muitas luzes durante 9 dias; a família enlutada manda fazer a cama e espalhar farinha em volta da mesa, sobre a qual coloca alguns alimentos, como se o defunto estivesse vivo e, em seguida, vestem um indigente com a roupa dele para que ocupe à mesa o seu lugar, ao mesmo tempo que dão esmolas aos pobres e colocam sob o leito todo o pão cozido que houver em casa, dizendo: - “Pega leão; deixa a alma deste defunto enquanto passa o rio Jordão”. Todas as noites, durante nove dias, os familiares vão ao quarto que pertenceu ao defunto e dizem: - “Boa noite te dê Deus / Tu já foste como nós / E nós seremos como vós”.
[6] Jornal HA-LAPID, nº 45 e seguintes.
[7] Seria interessante juntar as orações recolhidas em Lagoaça nos tempos modernos, por Amílcar Paulo e outros investigadores e comparar com as que são apresentadas nos processos da Inquisição. A título de exemplo, vejam esta, recolhida por A. Paulo e publicada na página 539 do trabalho citado: - Adonay comigo / e eu com Ele / Ele adiante / e eu atrás dele. E ainda esta, publicada na página 551:

- Bendito tu Adonay, nosso Deus,
Rei do mundo que nos santificaste
nas santas encomendanças,
benditas e santas, santas e benditas,
nos recomendaste pelos teus profetas
para distinguir o teu santo dia
e nele repousar, e escolheste
em terras de Israel. Amén.

[8] Sobre o assunto escreveram os autores um trabalho (“ Uma Missa Judaica em Quintela de Lampaças”) cuja publicação está sendo promovida.
[9] ANTONIO JULIO ANDRADE e MARIA FERNANDA GUIMARÃES, Jorge Lopes Henriques, de Carção, e alguns familiares processados pela Inquisição, in: Almocreve, um retrato das gentes de Carção, pg. 65 - 72, Carção, 2009. Este homem de Carção é que foi acusado de ter avisado os de Lampaças para fugirem. Por isso foi preso pela Inquisição de Coimbra –  Proc.  3271.
[10] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc.  8343, de Manuel Garcia; Proc.  8816, de Maria do Vale.
[11] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc.  7217 de Domingos  Garcia;
[12] Também a família do Dr. Diogo Currales foi perseguida pela Inquisição, que prendeu a sua 2ª mulher, Ana Henriques, filha de Francisco Simões e Maria Henriques, de Ventuzelo, Mogadouro, e as suas filhas: Maria de Campos Currales (pº 62), natural e moradora em Freixo de Espada à Cinta; Leonor de Campos Currales (pº 86), natural de Castelo Branco, bispado de Portalegre e moradora em Freixo de Espada à Cinta ou Carrazeda de Ansiães; Mariana de Campos Currales (pº 173), natural de Torre de Moncorvo e moradora em Freixo de Espada à Cinta; e Violante de Campos Currales (pº 6529), natural de Torre de Moncorvo e moradora em Freixo de Espada à Cinta.
[13] IANTT, Inquisição de Coimbra, Proc. 7571 de Diogo Garcia

sábado, 28 de abril de 2012

The Evolution of Dodd de William Hawley Smith



Há livros que, pela natureza do seu autor, ou por aquilo que encerram, marcam uma comunidade e uma época. Foi o caso deste e do seu autor – William Hawley Smith (1845 – 1922).
William Hawley Smith
Sobre Hawley Smith diz-nos Elbert Hubbard (acerca da sua fisionomia) em Sobre livros e anúncios: “Há um homem chamado William Hawley Smith que poderia representar Cyrano de Bergerac[1] sem um apêndice artificial, mas que possui um coração tão grande e generoso que, em comparação, o nariz parece uma coisa insignificante. Além disso, ele é capaz de lutar e compor uma balada ao mesmo tempo”. E acrescenta:” Hawley Smith tem analisado a questão da educação tão meticulosamente como Jean Jacques Rousseau, aplicando as premissas muito melhor …”. Termina o seu elogio desta forma: “…Hawley Smith escreveu um livro que vendeu mais de cem mil exemplares e deu um contributo maior para o desenvolvimento da educação na América por linhas de bom senso[2] do que qualquer coisa que Pestalozzi[3] alguma vez publicou. Esse pequeno livro tem sido uma verdadeira alavanca do mundo – não vou dizer o título, pois quem não o conhece é digno de compaixão, mas o autor jamais ganhou um único dólar das vendas. Quando ele o escreveu, editores desdenharam, outros escarneceram, houve até um que o aceitou como presente e disse ao autor que podia ir contemplá-lo na montra sempre que desejasse”.
O livro a que Hubbard se refere foi publicado pela primeira vez em 1884. Quarenta e nove anos depois Da Democracia na América de Alexis de Tocqueville, e 25 anos depois Da Liberdade de John Stuart Mill.
Nenhum pedagogo moderno refere o seu nome e os seus livros.
No último capítulo deste livro, o XXIV, por sinal o mais curto, diz-nos Hawley Smith que “Dodd” vive numa casa confortável dos subúrbios de Nova York, com a sua fiel e dedicada esposa, e um filho. Olha para o caminho percorrido com gratidão e espera saber conduzir o seu filho pela estrada da vida, apontando-lhe as armadilhas por ele ultrapassadas graças ao seu professor, Mr. Bright, que o salvou da destruição total na caminhada da vida, ajudando-o a fortalecer o carácter.
Ao rebanho colectivo contrapõe-se a alma individual, contrária ao igualitarismo primário (ou básico /bacoco) que priva o Homem de carácter e de liberdade/responsabilidade.

Este livro foi escrito numa época diferente da nossa. E como tal, só assim deve ser entendido. Numa época em que a América era influenciada pelo filósofo Emerson.

Armando Palavras




[1]Cyrano de Bergerac é uma peça de teatro escrita em 1897 por Edmond Rostand, baseada na vida de Hector Savinien de Cyrano de Bergerac, escritor francês.
[2] O sublinhado (negrito) é nosso.
[3]  Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827) é um dos muitos pedagogos da chamada escola romântica, cujo mestre foi Rousseau. A ela pertenceram Friedrich Froebel (1782-1852), Maria Montessori (1870-1952). E, em muitos aspectos, John Dewey. Sem terem, julgamos, consciência do potencial de autoritarismo (ou tirania) colectivista que as noções que defendiam encerravam, por abraçarem formas de igualitarismo que conduzem ao relativismo.

A propósito dos rebeldes abrilistas



Público - 27-4-XII

Coisas da Loisa - uma aldeia empoleirada no Doiro (2)

No conjunto do concelho (de Moncorvo), onde todos os povos têm um apodo que irrita os nativos -os do Castedo são os martelos, os de Felgueiras os choqueiros, os da Açoreira os pipineiros, os da Cabeça Boa os chulanos (da barriga pelada), os de Moncorvo os cães de vila… E os do Vilarinho, nossos vizinhos, os soqueiros. Nós somos os labregos. Alcunho que assumimos com a maior das naturalidades, porquanto labrego significa rural, campesino, rústico, lavrador. O que ama o agros e dele retira o sustento, com muito esforço e dedicação, acrescente-se
Os da Loisa têm (ou tinham, porque tudo passa) má fama. Ainda há poucos anos, com relativa frequência, encontrávamos gente pela região, mesmo noutros distritos, que quando dizíamos que éramos loiseiros, vinham com a história da (má) fama de que os da Loisa puseram a Guarda a lavrar. Assim como os de Mortágua ainda hoje se enfurecem quando lhe atiramos com a pergunta: quem matou o juiz? Os loiseiros não se aborrecendo por norma, sentem-se todavia incomodados. Durante anos fomos questionando os anciãos sobre o assunto. E poucos se abriam ao tema. Alguns, e essa era/é a versão mais vulgar, verdadeira ou construída (como meio de defesa), diziam que não era verdade. Que chegaram a ir buscar a canga (e o arado) mas que não lha puseram ao cachaço. Dois guardas -já republicanos, pois pelas nossas contas o episódio terá ocorrido por finais dos anos de 1920, nos primeiros da Ditadura Nacional-, em patrulha pela Loisa, entraram à taberna do Varela, existente na Carreira, para matarem a sede, ou talvez até a fome, e repararam num labrego com dois coelhos à cintura, isto no tempo do defeso. O que não era de estranhar, pois os loiseiros, mercê talvez da distância (distância física e distância-tempo) que os separava da vila (de Moncorvo) -terra onde se concentravam todas as (in)justiças-, sempre abusaram neste aspecto, diga-se em abono da verdade.
Os homens fardados intervieram, por obrigação profissional. Mas os loiseiros, que na sua terra se sentiam livres e donos dos seus recursos (incluindo os cinegéticos, está bom de ver), não podiam submeter-se a tal vexame. Poderiam lá consentir que um dos seus fosse preso por dois bichos-caretos, apenas por haver caçado uns laparotos como complemento à pobre dieta, láparos esses nados e criados no seu país? Ora essa…
Vai daí, arma-se um tumulto que desarmou os guardas. E o pior vexame veio da mulher do Carocha, qual Brites de Almeida. Quitou os coelhos ao caçador e com eles esbofeteou a autoridade, que já o não era. Foram buscar a dita canga e o arado e apenas os ameaçaram que os poriam a lavrar. E com isto os deixaram ir em paz. Desarmados, claro está. As autoridades administrativo-judiciais é que não estiveram pelos ajustes. Apresentaram-se na aldeia com uma aparatosa força militar, não sabendo nós se no dia seguinte, se nos dias subsequentes, pois os caminhos eram ruins.
Entrou a força a cavalo e, no meio do povo, encontraram uma barreira humana, constituída por mulheres e raparigos. Umas prinhadas, outras paridas. O comandante da força, questionou-as sobre o paradeiro dos homens. E elas responderam que não tinham homem. O que levou o servidor da ordem a voltar a perguntar: se não tendes homem, quem vos emprenhou? Certamente nenhuma delas conhecia o que os autores latinos disseram das éguas lusitanas. Com o devido respeito às nossas mulheres. Nossas entre aspas. Mas sabeis que dos cavalos lusitanos, equídeos ainda hoje muito apreciados em certas lides, se dizia serem filhos do vento, ou seja, que as suas mães eram fecundadas pelo vento. Ora os homens, andavam a monte, acaçapados nas lorgas dos bichos, porque baterem-se com uma força daquelas, já não estava ao seu alcance.
A verdade, ou pelo menos aquela que ouvimos contar, é que da dita “brincadeira”, vários foram os degradados para o Ultramar. E pelos vistos alguns, sem culpa nenhuma. Mas o poder para se afirmar, ontem assim como hoje, precisa de culpados. Por isso deita mão ao primeiro que for menos listo que ele, tenha culpas no cartório ou não
Há anos que andamos para tirar esta história a limpo, porque estamos em crer que ela não está bem contada. É verosímil a captura das orelhudas alimárias, de rica chicha, como estando na origem do conflito. Mas pensamos que essa foi apenas a gota que fez transbordar o caneco. Não o “caneco do Diberto” (esta é outra história). Mas o caneco abarrotado pela injustiça, pela opressão, pela exploração, pela miséria. Pela DITADURA.
            Era daqui natural o P.e José Augusto Tavares, mais conhecido por Abade Tavares ou de Carviçais, terra onde viveu os últimos 30 anos da sua vida, depois de ter paroquiado Maçores e Ligares. Foi precursor no estudo da Arqueologia no Sul do Distrito de Bragança. Depois de sobre ele já termos publicado um pequeno trabalho, tencionamos voltar ao assunto porquanto possuímos um conjunto de epístolas suas que, depois de estudadas, nos permitirão conhecer melhor o homem, o presbítero e o investigador.
E nativo também foi Manuel de Jesus Pinto, que escreveu um considerável conjunto de livros de realidade ficcionada com o pseudónimo de João da Chela, e outros textos. Da Chela por ter vivido muitos anos no Sul de Angola. Tivemos oportunidade de o homenagear há cerca de uma dúzia de anos atrás, e de o elevar à condição de sócio-honorário da Associação Cultural e Recreativa da Loisa, através de uma exposição bio-bibliográfica e de um colóquio. E a publicação de um opúsculo do qual lamentavelmente já não possuímos exemplares suficientes para vo-lo poder oferecer. Mas se nele estiverdes interessados, podeis pedi-lo à Câmara Municipal, que nos adquiriu (à Junta de Freguesia) 200 a preço de custo, mas que volvidos todos estes anos, ainda não teve vagar de no-los pagar.
            Voltemos à capela de Santo António para vos falar da imagem mais importante que aí se encontra, pelas suas dimensões e pela localização no altar. É a da Senhora dos Remédios, a padroeira dos Trinitários, e a quem o Povo dedica a sua festa maior. Está em casa emprestada porque o convento que aqui houve dessa Ordem, bem como a respectiva igreja já não existem. Não existe aliás pedra sobre pedra. Foi um verdadeiro crime de lesa-património a destruição de tal conjunto edificado. Nesse aspecto seguiram o exemplo dos da vila de Moncorvo, relativamente ao castelo, ao pelourinho e outros imóveis.
Por cá afirma-se que a Senhora dos Remédios também protegia os marinheiros, porquanto quando se ia à igreja do convento para a visitar e a chave não desandava na fechadura, era sinal que se ausentara para proteger algum marujo (certamente da auga-doce duriense).
Mas outras histórias milagreiras se contam desta Senhora, como as duas tentativas de furto de que foi alvo, talvez para reforçar o sentido de posse: levavam-na num burro para a barca, chegados à Parada o asno estancou e deu um coice, cuja ferradura ficou gravada próximo da capela (ainda hoje se lá vê); outra vez levavam-na pela Chã (em sentido contrário), quando chegou ao Cruzeiro, aí a cabeça dos sequestradores virou-se-lhes para trás e, estes não tiveram outro remédio se não retroceder e devolverem-na à procedência.
            A história do cenóbio é longa e algo grandiosa. Continua a intrigar-nos o facto de se ter construído numa zona tão interior da Península, isto é, tão distante das fronteiras sarracenas, quando a Ordem da Santíssima Trindade da Redenção dos Cativos, fundada por João da Mata em 1198, tinha como principal missão o resgate dos prisioneiros cristãos nas mãos dos moiros.
            A verdade é que no século XV, um jovem do Seixo de Ansiães com inclinações ascéticas, se instalou na tal ermida da Senhora dos Altos Céus, convencendo pouco depois, a partir dumas visões e com a ajuda divina, que os aldeões aí levantassem uma igreja e que a ela chamasse religiosos trinos calçados, indo buscá-los ao mosteiro que a Ordem possuía em Santarém. 1474 é a data oficial da sua fundação. E Frei Antão de Bem-Espera o nome do seu fundador.
            Marcou esta instituição o quotidiano da aldeia ao longo dos 360 anos da sua existência, durante os quais foi engrossando o seu património, sobretudo fundiário, espalhado pela região. Foi extinto em 1834, nacionalizados os seus bens e vendidos em hasta pública, excepto alguns objectos de culto que foram oferecidos à paróquia, destacando-se entre eles duas imponentes esculturas de S. João da Mata e S. Felix de Valois que se encontram na igreja matriz. E a da Senhora dos Remédios, objecto de grande veneração.
            Mas a história do conjunto edificado do antigo mosteiro e respectiva cerca e demais propriedades rústicas não acaba aqui. Ao longo de várias dezenas de anos são esses bens objecto de tentativas de venda, ou de transacções várias.
            Os edifícios e cerca foram numa primeira fase não anterior a 1841 adquiridos por um indivíduo de Sedovim (Foz Côa), que posteriormente os vendera a Manuel António Machado, da Lousa. E este aliena do conjunto o edifício da sua antiga igreja, que vende a Manuel Joaquim Lopes, em 1868, o qual parece tê-lo transformado em armazém ou nele instalado uma indústria de sericicultura. Ou então o tivesse adquirido para apoio a essa indústria, pois construíra, não sabendo exactamente se antes ou depois, um edifício ex novo para a criação do sirgo, ainda hoje conhecido por Casulo, onde um seu filho lhe dava continuidade nos primórdios do século XX, como prova a publicidade inserta no jornal “O Transmontano”, publicado em Moncorvo entre 1902 e1905. É um imóvel de arquitectura industrial, que possuía várias caldeiras próprias para a actividade. Comprava também o bicho aos aldeões, cujas mulheres o chocavam junto no peito, o que revela que esta cultura se popularizara por cá.
            Ou porque o edifício tivesse chegado a ser utilizado como curral, ou apenas como palheiro, conta a família do proprietário que o pastor da casa, por descuido, lhe pegou fogo. Foi tal o incêndio que iluminou toda a aldeia, como contava a sua filha Dioníria Lopes, recordando ainda que seu pai, com o choque, nunca mais se levantou da cama e daí morreu. Isto terá ocorrido por meados da década de 1890, supomos nós.
            Conta(va) o povo que o sino do convento foi roubado pelos de Foz Côa e que sempre que tocava se ouvia deste lado. Ora, considerando que aquele que temos como o primeiro possuidor particular do antigo mosteiro, era desse concelho d’Além Doiro, é muito provável que tivesse levado o sino para a sua terra mas, como esse sino segundo a tradição fora sagrado por D. Frei Bartolomeu dos Mártires (ao regressar de Trento) e tinha a virtude de afastar as trovoadas ao ser tangido, a sua saída para terras estranhas constituía uma afronta para os loiseiros.
            Possuímos microfilmada a documentação do cartório do cenóbio (que perseguimos durante dezenas de anos), cujo estudo só ainda não foi integralmente realizado, por não existirem apoios para a sua publicação. Mas sobre o assunto demos à estampa um “Contributo para a História do Convento Trinitário da Freguesia de S. Lourenço da Lousa e Culto à Senhora dos Remédios”, do qual existem exemplares à vossa disposição, que só vo-los não ofereço por já não nos pertencerem. Ele resulta duma comunicação apresentada a uma das Jornadas Culturais de Balsamão (2002) mas cujas actas não chegaram a ver o prelo, porque os inocentes marianos, que as organizam, foram iludidos pelos presidentes de Câmara (o que não é de estranhar), e teve que ser publicada na revista “Côavisão”, de Foz Côa, da qual se fez uma separata de 500 exemplares que oferecemos a esta mesma capela, para que a sua venda pudesse colaborar nas despesas com umas obras de que então necessitava. Este sim, podeis levá-lo, pois uma das zeladoras, ao entregar-nos a chave da porta para vos mostrar o interior, informou que ainda têm algumas dezenas de exemplares dentro de um dos armários. Vendem o opúsculo a 5 euros. Barato e arrepiado.
            Lamentavelmente os bichos-caretos que promoveram a elaboração da brasonística das freguesias do concelho, não pelos lindos olhos da heráldica claro está, na grande maioria dos casos não tiveram em consideração os seus valores históricos e patrimoniais. Veja-se o caso concreto da Loisa, em que nem o Doiro, nem o Mosteiro, nem a ligação de 700 anos ao vetusto concelho do Vilarinho, foram considerados.
            E porque o tempo urge, desejamos que esta visita virtual (como agora sói dizer-se) tenha servido para vos aguçar o apetite e, qualquer dia com vagar, possais vir e descobrir com os vossos próprios olhos aquilo que os nossos vos poderão mostrar e que aqui seria difícil contar. E até poderemos comer uns peixinhos do Rio, se tivermos curjidade em os pescar.
            E como já não resta campo para a bibliografia, enviai-nos recados e vo-la remeteremos.

 in: Trás-os-Montes e Alto Douro, mosaico de Ciência e Cultura (2011)

 O Autor

Carlos d’Abreu (abreu@usal.es), natural do Douro Transmontano, nascido no ano do início da luta armada anti-colonialista em Angola, razão pela qual à terra dos seus ancestros veio nascer. Viveu e estudou nessa antiga colónia, no Brasil, em Portugal e na Espanha.
De espírito (algo) libertário, vive desde finais do século passado, a tempo inteiro, a cavalo na raia (ibérica duriense), onde também é lavrador e associativista militante.
Andou por três Universidades junto das quais fez investigação (tarefa que prossegue autonomamente), sendo oficialmente técnico superior do ministério da (des)educação (português), actividade que de quando em vez interrompe para regressar ao Studii Salmantini e aí, em companhia do seu setecentista paisano Francisco Botelho, tecer loas a um visionário projecto (neo)iberista.
E como quem faz um cesto faz um cento, publicou uma vez e um cento de outras, onde sobressai a Ibéria, a raia e o Durius, o território e o(s) património(s), na História, na Arqueologia e na Geografia.


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