Por Leonel Dias
Por ocasião da passagem do meu 75º
aniversário, o lagoaceiro Elmiro Barbeiro (O Miro, filho do António Cinco, da
Rua da Rebola), em boa hora, ofereceu-me a obra “O PEQUENO MUNDO DA NOSSA
TABERNA” – (histórias de vidas e comeres numa taberna transmontana), da autoria
de FERNANDO CALADO, licenciado em Filosofia e Professor aposentado, natural de
Milhão, Bragança.
Quero partilhar no Grupo de Amigos
de Lagoaça o quanto achei importante esta Obra e exortar os Amigos da leitura,
que não a conheçam, a lê-la e permitam-me que justifique a importância da
mesma.
A ação desenrola-se numa taberna,
de uma qualquer aldeia transmontana, considerando o autor que “a taberna é
um lugar mágico onde há de tudo na promiscuidade da fartura que delicia os
olhos, para desconsolo dos que nada têm.” Através da taberna, ponto de encontro
da comunidade, centro da vida social e retrato da vida quotidiana da aldeia,
local de convivência, de socialização e partilha de saberes e de fortalecimento
de laços comunitários, FERNANDO CALADO, oferece-nos um belo romance de memórias
e de defesa da verdadeira Cultura rural transmontana, onde marcam presença a
solidariedade, o mundo do trabalho, os costumes, as tradições, as notícias, as
experiências e os saberes.
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Na Obra estão presentes os usos e
costumes de um mundo rural, a valorização da gastronomia da região, funcionando
como fatores culturais, ao mesmo tempo que reflete e destaca as dificuldades da
vida antiga, os sacrifícios passados, a dureza do dia a dia, enaltecendo, como
contrapartida, a solidariedade entre gentes e nunca negada. Numa mistura,
extraordinariamente bem conseguida, de episódios bem interessantes das suas
gentes (a chegada do circo, o professor que por desgosto de amor se dedicou ao
vinho, a emigrante retornada à aldeia, o revisor da camioneta, o contrabando, a
passagem de Humberto Delgado (?) pela taberna, etc.) e memórias que
refletem a riqueza da génese humana, a cultura e a gastronomia, sempre
presente, de uma aldeia de Trás-os-Montes.
É este mundo que, progressivamente,
desaparece pela desertificação das aldeias e pelo envelhecimento da população
que, mais uma vez, como sucede no “Canto do Cisne”, preocupa o Professor de
Milhão.
FERNANDO CALADO, teimosamente, e
bem haja por isso, preocupa-se com a preservação de um universo rural,
marcadamente cultural, infelizmente, em vias de desaparecimento e expressa-o: “
O nosso soto, a nossa taberna, a nossa casa, o nosso forno… caíram… o pão é
somente pão… nesta tristeza de quem assiste, paulatinamente, ao cair do nosso
soto, da nossa taberna, da nossa casa… ao cair da vida… nesta noite quente…
transmontana… não chores! … o fim é sempre um novo começo! … estamos a
caminho!”
Obrigado, Professor FERNANDO
CALADO, por esta partilha de saberes, pelo grito de alerta deixado aos Homens
de hoje e, apesar de tudo, pela réstia de esperança ainda mantida. Julgo ter
justificado, Caros membros deste Grupo, a razão, ou as razões, pela qual este
Livro é imprescindível.