domingo, 6 de setembro de 2026

CASAL DE SETUBALENSES EM LAGOAÇA

           Fotografia:   União das freguesias de Freixo de Espada à Cinta e Mazouco


 Por Leonel Dias


A convite do Miro (Elmiro) Barbeiro (filho do “António Cinco”) visitámos Lagoaça, onde permanecemos durante oito dias, tendo marcado presença, com enorme gosto, nas Festas em Honra do Santo António, 2026.

Encantados com tudo o que nos foi dado ver, queremos retribuir o bom acolhimento e a simpatia sempre presente, e nunca negada, do povo de Lagoaça, partilhando neste Grupo a lenda de Freixo de Espada-à-Cinta, da autoria do jornalista e escritor madeirense José Viale Moutinho, publicada no “Diário de Notícias”, nos inícios do presente século, designada “AS PANELAS E O HOMEM DE SAIAS”:

“ Façam o favor de imaginar que ouviram falar que em determinado sítio estavam enterradas panelas de ouro, de prata e de peste. Exatamente no lugar de Castelo Ferronho e nos Castelares, duas velhas atalaias do antigo castelo de Freixo de Espada-à-Cinta. E que sabiam que a localização poderia ser feita olhando o primeiro local onde bate o sol no clarear da manhã de S. Miguel. Pois, com uma certa dose de espírito aventureiro, lá aproveitaram esses dados. Pois sabiam que isso aconteceu a um tal Albaninho, que sonhou com estas indicações nas tais três noites a fio. Pois meteu enxada às costas no dia de S. Miguel do ano correspondente ao sonho e cumpriu o que pôde, que foi dar uns golpes de enxada na terra. E de repente – metam-se na pele do Albaninho, vá! -, ouvem lá do fundo do mundo uma voz cavernosa a dizer:

- Suspende! Nem mais uma enxadada. Se chegas à nossa vista, morrerás fulminado tu e mais meio mundo com a onda da peste! É só bateres aqui com a tua enxada na cobertura desta panela e a peste rebentará como um vulcão!

O que fariam os senhores? Albaninho fez o que não pensou, pois, tonado de pânico, desatou a correr e consta que nem em sua casa parou!

Já a vida aventurosa de caça-tesouros terá corrido melhor a um alfacinha com veia poética. Pois tendo tido o tal sonho do desencantamento do tesouro multiplicado por três noites, pôs-se a caminho de Freixo e não tardou em dirigir-se à fonte de Ménones. Este Ménones era um sujeito bem mais antigo que se chamava Mem Nunes, mas a voz do povo não perdoa quando apanha um nome bizarro a jeito. Então o alfacinha deu com um menino de ouro maciço. Agarrou nele e levou-o, deixando o terreno remexido, mas ainda teve tempo de imortalizar o seu gesto numa quadra que deixou na fonte:

Adeus forte Mem Nunes

Quem te dever que te pague;

Qu`eu dentro de ti achei

O valor duma cidade.

Ainda se gabou, o diabo! Mas se em vez de se pôr a escrever versos, procurasse melhor, não deixaria de ter deitado a mão a uma bola de ouro de bom tamanho que lá estava ao pé coberto de musgo.

Conta-se ainda de quando o Convento Oratoriano de Freixo de Espada-à-Cinta, nacionalizado e vendido em hasta pública, o homem que o comprou foi impiedoso com um frade velhinho que só queria que o deixasse acabar os seus dias a um canto da igreja desativada. Não tinha para onde ir e a sua paisagem de sempre foram as paredes interiores daquela enorme casa. “Não quero cá homens de saias!” bradara o inflexível novo proprietário. Então, o frade foi-se embora, mas caiu-lhe uma doença na bexiga que lhe provocou incontinência tal que ele teve de usar saiotes até ao fim dos seus dias…”

 

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