Fotografia: União das freguesias de Freixo de Espada à Cinta e Mazouco
Por Leonel Dias
Encantados com tudo o que nos foi
dado ver, queremos retribuir o bom acolhimento e a simpatia sempre presente, e
nunca negada, do povo de Lagoaça, partilhando neste Grupo a lenda de Freixo de
Espada-à-Cinta, da autoria do jornalista e escritor madeirense José Viale
Moutinho, publicada no “Diário de Notícias”, nos inícios do presente século,
designada “AS PANELAS E O HOMEM DE SAIAS”:
“ Façam o favor de imaginar que ouviram falar que em determinado sítio estavam enterradas panelas de ouro, de prata e de peste. Exatamente no lugar de Castelo Ferronho e nos Castelares, duas velhas atalaias do antigo castelo de Freixo de Espada-à-Cinta. E que sabiam que a localização poderia ser feita olhando o primeiro local onde bate o sol no clarear da manhã de S. Miguel. Pois, com uma certa dose de espírito aventureiro, lá aproveitaram esses dados. Pois sabiam que isso aconteceu a um tal Albaninho, que sonhou com estas indicações nas tais três noites a fio. Pois meteu enxada às costas no dia de S. Miguel do ano correspondente ao sonho e cumpriu o que pôde, que foi dar uns golpes de enxada na terra. E de repente – metam-se na pele do Albaninho, vá! -, ouvem lá do fundo do mundo uma voz cavernosa a dizer:
- Suspende! Nem mais uma enxadada. Se chegas à nossa vista, morrerás fulminado tu e mais meio mundo com a onda da peste! É só bateres aqui com a tua enxada na cobertura desta panela e a peste rebentará como um vulcão!
O que fariam os senhores? Albaninho fez o que não pensou, pois, tonado de pânico, desatou a correr e consta que nem em sua casa parou!
Já a vida aventurosa de caça-tesouros terá corrido melhor a um alfacinha com veia poética. Pois tendo tido o tal sonho do desencantamento do tesouro multiplicado por três noites, pôs-se a caminho de Freixo e não tardou em dirigir-se à fonte de Ménones. Este Ménones era um sujeito bem mais antigo que se chamava Mem Nunes, mas a voz do povo não perdoa quando apanha um nome bizarro a jeito. Então o alfacinha deu com um menino de ouro maciço. Agarrou nele e levou-o, deixando o terreno remexido, mas ainda teve tempo de imortalizar o seu gesto numa quadra que deixou na fonte:
Adeus forte Mem Nunes
Quem te dever que te pague;
Qu`eu dentro de ti achei
O valor duma cidade.
Ainda se gabou, o diabo! Mas se em
vez de se pôr a escrever versos, procurasse melhor, não deixaria de ter deitado
a mão a uma bola de ouro de bom tamanho que lá estava ao pé coberto de musgo.
Conta-se ainda de quando o Convento
Oratoriano de Freixo de Espada-à-Cinta, nacionalizado e vendido em hasta
pública, o homem que o comprou foi impiedoso com um frade velhinho que só
queria que o deixasse acabar os seus dias a um canto da igreja desativada. Não
tinha para onde ir e a sua paisagem de sempre foram as paredes interiores
daquela enorme casa. “Não quero cá homens de saias!” bradara o inflexível novo
proprietário. Então, o frade foi-se embora, mas caiu-lhe uma doença na bexiga
que lhe provocou incontinência tal que ele teve de usar saiotes até ao fim dos
seus dias…”


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