João Barroso da Fonte
Dia 23 de Janeiro completou 70 anos de
Jornalismo ininterrupto. Dia 19 deste mês completa 84 de idade.
O nosso fraterno abraço transmontano, para esta lenda das letras transmontanas.
O seu percurso de vida é singular. Bairrista e acérrimo defensor de tudo o que cheira a Trás-os-Montes e Alto Douro.
https://maisguimaraes.pt/barroso-da-fonte/

ANDA POETA ...
ResponderEliminarAnda Poeta
despede-te das musas
toma a tua arma
e segue.
Depois
ouvirás o metralhar do inimigo
e tu não terás medo
porque os poetas renascem com a morte.
Serão tristes os dias e negras as noites
longos os meses e pesadas as manhãs monótonas do cacimbo.
Andarás trilhos e picadas
na mata e no capim
dia e noite
como quem é o senhor de todos os instantes.
Passarás fome e sede
calor e frio
conforto e dor
e no auge do desespero
maldirás a hora em que nasceste
a mãe que te criou
o berço em que foste embalado
docemente...
Hás-de entender os mistérios da floresta
as vozes anónimas da bicharada
o segredo das horas incompreendidas.
Hás-de chorar amargamente
a perda dos que morrem em cada instante
porque os poetas também choram lágrimas de revolta
quando não há sorrisos de criança
a espargir sobre o ódio dos assassinos!
Anda Poeta
esquece-te de que és fraco
e levanta a tua voz de mensageiro
em todas as direcções
para que os teus seguidores
te acompanhem como Homem-Universal!
Ser Poeta
e andar na guerra
é trazer nas mãos a sede infinita dos homens
e na alma o destino do mundo.
AO ANO DE 1965
Quis agarrar-me a ti
amarrar-te de pés e mãos
cuspir-te nos olhos
puxar-te pelos cabelos
e desventrar da tua tirania
a minha angústia.
O Sangue e as Palavras - In Trinta Anos de Poeta
Barroso da Fonte
MEU PAÍS ESTÁ EM GUERRA
ResponderEliminarMeu país está em guerra
-- deixem as mães chorar
os filhos do povo
que morrem anonimamente
sem que lhes pertença
o direito da contestação ...
(É Preciso Amar as Pedras)
Livro "Crónicas do Tempo da Guerra escritas por quem a viveu"- Angola 1965/67
ResponderEliminar104 (3-6-1967)
Possivelmente será este o último número desta já velhinha crónica semanal. Não desistimos da nossa presença sempre firme e a horas certas. Mas estamos já de malas feitas para partir a caminho do velho continente e depois da partida já não se ouvirá a voz dos que lutam, mas dos que lutaram e venceram, porque já se foram, felizes pela alegria de voltar. Quando este número sair a público vamos já certamente no alto mar, ansiosos por aportar no cais de Lisboa, onde há vinte e cinco meses, subimos as escadas do Vera Cruz que agora voltaremos a descer, cônscios do dever exactamente cumprido.
Haverá talvez lágrimas de satisfação como nessa altura houve muitas de desespero. Muitas mães se ajuntarão no cais para receber nos braços o filho que foi, lutou e venceu porque está de novo a seu lado, com a alma radiante e o coração feliz. Será justa e humana a alegria de quem chega e de quem espera, porque quem chega e quem espera, tem dentro de si um sentimento comum em dor e contentamento.
É esta crónica escrita numa tarde de sol ardente, numa vila do norte de Angola, quando as malas estão prontas a fechar-se e os lugares estão já ocupados por novos militantes. Nós como os que já se foram, estes que vieram como os que hão-de vir, transmitimos de cara levantada a missão que temos a entregar e partimos cientes de que eles, como nós, a saberão cumprir até à parte mais sagrada que exija mesmo o sacrifício da própria vida. Disso estamos certos e é com essa satisfação que nos vamos, com saudade de tantas horas boas, como até de muitas horas más que vivemos e que nunca mais esqueceremos pela vida fora.
Estes que se habituaram a nós e que nos vêem partir, vieram já desejar-nos boa viagem e em todos se lê uma certa saudade, não obstante a cor que nos diferencia, já que em tudo o mais somos todos membros da mesma família.
Na lápide que gravámos ficará bem visível a legenda que marcará a quantos que por aqui passem que:
Fomos um dos muitos...
Não pudemos fazer tudo
Mas o que se poderia fazer
Foi feito.
Tudo o mais, aquilo que de nós possam dizer, algo que surja para além das nossas convicções ... (... )
Será, pois, este o último número do «Portugal de lés- a- lés» ou mais propriamente a «Voz dos que lutam». O seu autor continuará sempre presente nas colunas deste Semanário, mas com outra temática, agora mais suave certamente ... ...
(...)
Barroso da Fonte
Onde Nasce o Rabagão?
ResponderEliminar... ...
No seu percurso as águas são apanhadas para a rega de hortas, nabais e lameiros, além dos vários moinhos que faz moer, como sejam: o do Côbo, o das Carvalhas, o das Lavradas e o de Cavadas - este já pertencente a Peirezes. A cerca de meio quilómetro da nascente, já se encontram trutas da ordem das oitocentas gramas, e ainda no termo de Codeçoso, pescam-se já peixes de vários tamanhos.
Objecto da mais pungente saudade e gratas recordações, quantas mágoas me traz nas horas tristes da minha ausência por este sertão africano. Quantas vezes o invoco, agora, como no passado, quando, lá por Vila Real, eu recordava o que fomos em criança:
No teu curso de águas mansas
Leva mano minhas mágoas
Que trago minhas esperanças
Metidas em duras fráguas
Não te importes de levá-las
Aos longínquos oceanos
P´ra que não volte a encontrá-las
A amargura dos meus anos.
Desde que o fado contrário
Me desterrou para aqui
É a minha vida um rosário
De saudades por ti.
Tristezas só tenho tido
Consolações não conheço,
Sonhos me trazem ferido
No leito em que adormeço.
Ó Rio da minha Terra,
Meu Rabagão feiticeiro,
Ouve o teu mano que berra,
Das grades do Cativeiro.
Mucondo, 13-7-65 - [In A Voz de Chaves, 29-07-1965]
In Crónicas do Tempo da Guerra escritas por quem a viveu
Barroso da Fonte