segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Longa vida para Barroso da Fonte

João Barroso da Fonte

Dia 23 de Janeiro completou 70 anos de Jornalismo ininterrupto. Dia 19 deste mês completa 84 de idade.

O nosso fraterno abraço transmontano, para esta lenda das letras transmontanas.

O seu percurso de vida é singular. Bairrista e acérrimo defensor de tudo o que cheira a Trás-os-Montes e Alto Douro.

https://maisguimaraes.pt/barroso-da-fonte/


4 comentários:

  1. ANDA POETA ...

    Anda Poeta
    despede-te das musas
    toma a tua arma
    e segue.

    Depois
    ouvirás o metralhar do inimigo
    e tu não terás medo
    porque os poetas renascem com a morte.

    Serão tristes os dias e negras as noites
    longos os meses e pesadas as manhãs monótonas do cacimbo.

    Andarás trilhos e picadas
    na mata e no capim
    dia e noite
    como quem é o senhor de todos os instantes.

    Passarás fome e sede
    calor e frio
    conforto e dor
    e no auge do desespero
    maldirás a hora em que nasceste
    a mãe que te criou
    o berço em que foste embalado
    docemente...

    Hás-de entender os mistérios da floresta
    as vozes anónimas da bicharada
    o segredo das horas incompreendidas.

    Hás-de chorar amargamente
    a perda dos que morrem em cada instante
    porque os poetas também choram lágrimas de revolta
    quando não há sorrisos de criança
    a espargir sobre o ódio dos assassinos!

    Anda Poeta
    esquece-te de que és fraco
    e levanta a tua voz de mensageiro
    em todas as direcções
    para que os teus seguidores
    te acompanhem como Homem-Universal!

    Ser Poeta
    e andar na guerra
    é trazer nas mãos a sede infinita dos homens
    e na alma o destino do mundo.

    AO ANO DE 1965

    Quis agarrar-me a ti
    amarrar-te de pés e mãos
    cuspir-te nos olhos
    puxar-te pelos cabelos
    e desventrar da tua tirania
    a minha angústia.

    O Sangue e as Palavras - In Trinta Anos de Poeta
    Barroso da Fonte

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  2. MEU PAÍS ESTÁ EM GUERRA

    Meu país está em guerra
    -- deixem as mães chorar
    os filhos do povo
    que morrem anonimamente
    sem que lhes pertença
    o direito da contestação ...

    (É Preciso Amar as Pedras)

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  3. Livro "Crónicas do Tempo da Guerra escritas por quem a viveu"- Angola 1965/67

    104 (3-6-1967)

    Possivelmente será este o último número desta já velhinha crónica semanal. Não desistimos da nossa presença sempre firme e a horas certas. Mas estamos já de malas feitas para partir a caminho do velho continente e depois da partida já não se ouvirá a voz dos que lutam, mas dos que lutaram e venceram, porque já se foram, felizes pela alegria de voltar. Quando este número sair a público vamos já certamente no alto mar, ansiosos por aportar no cais de Lisboa, onde há vinte e cinco meses, subimos as escadas do Vera Cruz que agora voltaremos a descer, cônscios do dever exactamente cumprido.
    Haverá talvez lágrimas de satisfação como nessa altura houve muitas de desespero. Muitas mães se ajuntarão no cais para receber nos braços o filho que foi, lutou e venceu porque está de novo a seu lado, com a alma radiante e o coração feliz. Será justa e humana a alegria de quem chega e de quem espera, porque quem chega e quem espera, tem dentro de si um sentimento comum em dor e contentamento.
    É esta crónica escrita numa tarde de sol ardente, numa vila do norte de Angola, quando as malas estão prontas a fechar-se e os lugares estão já ocupados por novos militantes. Nós como os que já se foram, estes que vieram como os que hão-de vir, transmitimos de cara levantada a missão que temos a entregar e partimos cientes de que eles, como nós, a saberão cumprir até à parte mais sagrada que exija mesmo o sacrifício da própria vida. Disso estamos certos e é com essa satisfação que nos vamos, com saudade de tantas horas boas, como até de muitas horas más que vivemos e que nunca mais esqueceremos pela vida fora.
    Estes que se habituaram a nós e que nos vêem partir, vieram já desejar-nos boa viagem e em todos se lê uma certa saudade, não obstante a cor que nos diferencia, já que em tudo o mais somos todos membros da mesma família.
    Na lápide que gravámos ficará bem visível a legenda que marcará a quantos que por aqui passem que:

    Fomos um dos muitos...
    Não pudemos fazer tudo
    Mas o que se poderia fazer
    Foi feito.

    Tudo o mais, aquilo que de nós possam dizer, algo que surja para além das nossas convicções ... (... )
    Será, pois, este o último número do «Portugal de lés- a- lés» ou mais propriamente a «Voz dos que lutam». O seu autor continuará sempre presente nas colunas deste Semanário, mas com outra temática, agora mais suave certamente ... ...
    (...)

    Barroso da Fonte

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  4. Onde Nasce o Rabagão?
    ... ...
    No seu percurso as águas são apanhadas para a rega de hortas, nabais e lameiros, além dos vários moinhos que faz moer, como sejam: o do Côbo, o das Carvalhas, o das Lavradas e o de Cavadas - este já pertencente a Peirezes. A cerca de meio quilómetro da nascente, já se encontram trutas da ordem das oitocentas gramas, e ainda no termo de Codeçoso, pescam-se já peixes de vários tamanhos.
    Objecto da mais pungente saudade e gratas recordações, quantas mágoas me traz nas horas tristes da minha ausência por este sertão africano. Quantas vezes o invoco, agora, como no passado, quando, lá por Vila Real, eu recordava o que fomos em criança:

    No teu curso de águas mansas
    Leva mano minhas mágoas
    Que trago minhas esperanças
    Metidas em duras fráguas

    Não te importes de levá-las
    Aos longínquos oceanos
    P´ra que não volte a encontrá-las
    A amargura dos meus anos.

    Desde que o fado contrário
    Me desterrou para aqui
    É a minha vida um rosário
    De saudades por ti.

    Tristezas só tenho tido
    Consolações não conheço,
    Sonhos me trazem ferido
    No leito em que adormeço.

    Ó Rio da minha Terra,
    Meu Rabagão feiticeiro,
    Ouve o teu mano que berra,
    Das grades do Cativeiro.

    Mucondo, 13-7-65 - [In A Voz de Chaves, 29-07-1965]

    In Crónicas do Tempo da Guerra escritas por quem a viveu
    Barroso da Fonte

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