- Sebastião Bugalho
- Opinião - DN
No espaço de uma
semana, o governo anunciou a vontade de vender a TAP que havia nacionalizado, a
intenção de cortar 600 a mil milhões de euros no sistema de pensões e um novo
ministro da Saúde com carreira no privado. Nove meses depois de ter sido eleito
com uma maioria absoluta que concentrou o voto da esquerda em si, António Costa
está a governar contra essa esquerda, que antes o apoiou, contra essa maioria,
que nele confiou, e contra um novo líder do PSD, que não o vai largar. Talvez
por isso tenha evitado dizer a verdade - rapidamente detetada pelas oposições e
televisões - sobre a revisão da lei de atualização de pensões.
Mas de que serve,
afinal, uma inverdade tão inevitavelmente desmentida?
De nada.
A questão, tão
evidente nos últimos dias, é que o Partido Socialista já não tem forma de fazer
política sem fugir à verdade, sem se suster na mentira. Porque das duas uma: ou
diz a verdade sobre as medidas difíceis que será forçado a tomar num contexto
de crise, e aí será acusado de ter mentido no passado, quando prometeu um país
sem austeridade; ou não assume as medidas difíceis que está a ser forçado a
tomar no contexto de crise, e é prontamente acusado de desonestidade no próprio
dia, como sucedeu esta semana.
Nenhuma das duas é
boa. E pior: nenhuma das duas tem solução.
Diante de uma
encruzilhada entre mentiras - ou sobre a narrativa difundida no passado ou
sobre os cortes escondidos para futuro -, o governo não tem escapatória a uma
conjuntura que é europeia e a uma dívida que não deixou de estar entre as mais
pesadas da moeda-única.
Politicamente,
está agrilhoado entre a ficção que promoveu durante sete anos e a realidade que
se aproxima para os que aí vêm. A maioria absoluta de janeiro, tão celebrada
entre as hostes socialistas, arrisca trancar o PS numa prisão em que não tem
instabilidade política para cair -- e entregar mais uma vez a gestão de
sacrifícios a outrem -- nem estabilidade económica para distribuir, e
satisfazer o eleitorado que nele vota há sete anos. Não é um dilema, porque não
há grande escolha a fazer. Mas é um problema, porque a única solução é esperar
que o tempo passe.
Perante a
encruzilhada, o governo faz o que pode: recua, em marcha à ré, tentando
preservar o máximo de coerência na mensagem e simpatia do eleitorado. À medida
que os juros forem subindo, o poder de compra dos mais vulneráveis caindo e a
capacidade do Estado diminuindo, será cada vez mais impossível manter esse
equilíbrio. Esta semana, a sustentabilidade da Segurança Social pregou um susto
aos reformados. Daqui a dias, a indexação dos apoios e prestações sociais será
o novo alvo de revisão. E a tragédia do Partido Socialista será essa: quanto
mais responsável for, mais votos perderá.
A inversão de
visão na Saúde, em que se convidou um ministro que inaugurou PPP"s
enquanto secretário de Estado para substituir Marta Temido; na TAP, em que se
privatizará aquilo que foi pago com dinheiro dos contribuintes; e no sistema de
pensões, cuja fragilidade foi sucessivamente negada pelo PS desde que chegou ao
governo, são três exemplos que ocorreram em três dias.
Imaginem os
próximos quatro anos.
Colunista
FONTE: https://www.dn.pt/opiniao/a-encruzilhada-de-um-governo-em-marcha-atras-15154614.html
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