Jornalista
Bom amigo
Havia o meu amigo de fazer anos neste dia... Além de lhe trazer o meu melhor
parabém, com o desejo de saúde e continuação de sucessos, trago um texto sobre
a data de hoje, o perecimento - ou sei lá o quê - de Torga.
Na oportunidade: Disse-me há tempo, que "um texto meu teve muita
repercussão nos Transmontanos". O Transmontanos, é, concretamente, o quê?
Segue-se, então, o meu texto sobre Torga para o caso de também querer
homenagear aquele transmontano maior.
E trago-lhe um bom e fraterno abraço. Não tenhamos medos do amplexo, porque o
mundo, como está, carece ainda mais delas.
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).
https://e-cultura.blogs.sapo.pt/um-estudo-sobre-miguel-torga-862236
Miguel Torga
Inclinou-se há trinta e um anos, não caiu
Há hoje trinta e um anos tombou Miguel Torga. Ou melhor, se é
lícito dizê-lo, não tombou. Inclinou-se apenas perante a vida, como quem reconhece
a sua força maior sem jamais se render. Inclinou-se a dezassete de Janeiro de
mil novecentos e noventa e cinco, e assim permanecerá eternamente, curvado
apenas o suficiente para escutar a terra que o fez e o mundo que lhe respondeu.
Depois de Ansiedade, Os
Bichos, Contos da Montanha, Novos Contos da Montanha, A Criação do Mundo, o
Reino Maravilhoso, Vindima, os Diários, O Senhor Ventura, entre poesia, teatro
e romance, Miguel Torga não deixou apenas uma obra. Deixou uma presença. Uma
literatura que não pede licença, não implora afecto, não se acomoda. Uma
literatura que se impõe com a força telúrica de quem escreve com os pés
fincados na terra e os olhos erguidos para o universal.
Miguel Torga foi, como o melhor dos bons transmontanos, alguém
que não quebrou. Dobrou-se apenas, com dignidade austera, como se dobram as
árvores fortes quando o vento é excessivo. O homem chamava-se Adolfo Correia da
Rocha. Médico otorrinolaringologista. Escritor inteiro. Nasceu no meio das
urzes, em São Martinho de Anta, Sabrosa, a doze de Agosto de mil novecentos e
sete. Teve uma infância dura, tão dura que nem sequer apetece descrevê-la. A
vida começou-lhe cedo com a rudeza que mais tarde viria a moldar a sua escrita.
Ainda criança, foi sozinho para o Brasil. Voltou. Estudou
Medicina. E enquanto curava corpos, ensinou-nos a respirar literatura. Deu-nos
páginas de diário que são espelho e combate, poemas onde a palavra é enxuta e
exacta, contos que sangram verdade, romances que não fazem concessões, peças de
teatro que interrogam o humano sem ornamento.
Escolheu o pseudónimo Miguel por admiração a Miguel de Cervantes
e a Miguel de Unamuno. Dois faróis de uma Ibéria maior, pensante, inquieta. E
escolheu Torga porque as raízes não se escondem. A torga, a urze agreste, o
mato pobre e resistente, serviu-lhe de emblema. Assim se assumiu como ibérico
do mundo, profundamente universal por ser profundamente local.
Era homem de difícil acesso. Tinha uns olhos que metem medo,
digo eu, que os senti. Olhos de quem vê demais e não desvia. Caminhava atento e
compenetrado no seu trajecto diário, de casa ao gabinete em Coimbra, cidade
onde cedo se instalou e onde permaneceria até ao fim. Do Largo da Portagem,
diante do Mondego que lhe entrava pelas janelas, criou para o mundo um reino
que só ele poderia ter chamado maravilhoso. Não por fantasia fácil, mas por
fidelidade extrema à condição humana.
Ali me recebeu. As circunstâncias são irrelevantes para a
compreensão de Torga, mas foram marcantes para a minha vida. Recebeu-me quando
tantos jovens escritores (membros da AJEP, Associação de Jovens Escritores de
Portugal, como eu), já afamados, que estudavam ou passavam por Coimbra, não
conseguiam sequer a sua atenção. Quando contei, ficaram cépticos. Só
acreditaram quando lhes mostrei o manuscrito da resposta, escrita pela sua
própria mão. Só mesmo de Torga podia vir um gesto assim, seco, directo,
inesperado.
Eu próprio, conhecendo já algo do seu carácter, saí menos
impressionado com a figura do que seria de esperar. Talvez porque não fui à
procura do mito, mas do homem. E ainda hoje não sei explicar bem porque me
recebeu. Talvez porque reconheceu a honestidade de quem não ia pedir nada senão
um instante de verdade.
Viria a ser proposto várias vezes para o Prémio Nobel. Mais
tarde, a Academia Sueca veio dizê-lo, como se fosse novidade. Não venham tarde
com verdades antigas. Sempre se soube que Torga era uma potencia. O Nobel
habita a obra de Torga, mesmo sem diploma nem cerimónia. Quem perdeu foi a
Academia, que não pode hoje contar nos seus registos a atribuição do prémio a
um nome que lhe teria engrandecido a história. Não o recebeu porque era
desalinhado. E português. E depois tornou-se tarde.
Com humildade, sugere-se qualquer leitura de Miguel Torga.
Qualquer uma. É literatura exigente, mas não hostil. É profunda, mas acessível.
Cada leitor encontrará ali algo que lhe fala directamente. Quem não tem grande
apetência pela leitura, em Torga descobrirá uma porta aberta, um chamamento, um
estímulo para ficar.
Há trinta e um anos, eu não soube onde ir. Se a Coimbra, se a
São Martinho de Anta, em Trás-os-Montes, para me curvar perante o seu corpo.
Chovia muito. Era o mundo a chorá-lo. Fiquei em casa, doente, por sinal. Às
vezes a vida também se inclina connosco.
Jaz Adolfo Correia da Rocha com a sua mulher, Andrée Crabbé, sob
uma pedra no cemitério de São Martinho de Anta, à sombra de uma torga. Não
poderia haver metáfora mais justa.
Réquiem por Torga
Miguel Torga deitou-se para descansar há trinta e um anos. A sua
obra já o mantinha de pé muito antes disso. E mantém-no ainda hoje. Era um dia
frio, como o de hoje, e também um Sábado. Nasceu a doze de Agosto de mil
novecentos e sete, como aprendi em detalhe no preparatório, lições que ficaram
gravadas para sempre.
Houve um tempo em que eu próprio me preparava para cirurgias
difíceis e longos internamentos. Não me preocupavam demasiado, mas pensei, pelo
sim pelo não, que talvez não tivesse oportunidade de conhecer pessoalmente
Miguel Torga. Estava já numa idade avançada. Pedi-lhe que me recebesse.
Respondeu-me. À mão. Acertámos datas. Fui.
Hoje, trinta e um anos depois da sua inclinação final, permanece
inteiro. Não como estátua, mas como voz. Miguel Torga não morreu. Recolheu-se à
terra que sempre o sustentou. E dela continua a erguer-se, palavra a palavra,
como as torgas bravas que resistem ao frio, ao vento e ao esquecimento.
Mário Adão Magalhães
2026/01/17 _


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