sábado, 17 de janeiro de 2026

Havia o meu amigo de fazer anos neste dia...

 Mário Adão Magalhães

Jornalista


Bom amigo

Havia o meu amigo de fazer anos neste dia... Além de lhe trazer o meu melhor parabém, com o desejo de saúde e continuação de sucessos, trago um texto sobre a data de hoje, o perecimento - ou sei lá o quê - de Torga.

Na oportunidade: Disse-me há tempo, que "um texto meu teve muita repercussão nos Transmontanos". O Transmontanos, é, concretamente, o quê?

Segue-se, então, o meu texto sobre Torga para o caso de também querer homenagear aquele transmontano maior.

E trago-lhe um bom e fraterno abraço. Não tenhamos medos do amplexo, porque o mundo, como está, carece ainda mais delas.

Mário Adão Magalhães

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).


                                           https://e-cultura.blogs.sapo.pt/um-estudo-sobre-miguel-torga-862236

Miguel Torga

Inclinou-se há trinta e um anos, não caiu

Há hoje trinta e um anos tombou Miguel Torga. Ou melhor, se é lícito dizê-lo, não tombou. Inclinou-se apenas perante a vida, como quem reconhece a sua força maior sem jamais se render. Inclinou-se a dezassete de Janeiro de mil novecentos e noventa e cinco, e assim permanecerá eternamente, curvado apenas o suficiente para escutar a terra que o fez e o mundo que lhe respondeu.

Depois de Ansiedade, Os Bichos, Contos da Montanha, Novos Contos da Montanha, A Criação do Mundo, o Reino Maravilhoso, Vindima, os Diários, O Senhor Ventura, entre poesia, teatro e romance, Miguel Torga não deixou apenas uma obra. Deixou uma presença. Uma literatura que não pede licença, não implora afecto, não se acomoda. Uma literatura que se impõe com a força telúrica de quem escreve com os pés fincados na terra e os olhos erguidos para o universal.

Miguel Torga foi, como o melhor dos bons transmontanos, alguém que não quebrou. Dobrou-se apenas, com dignidade austera, como se dobram as árvores fortes quando o vento é excessivo. O homem chamava-se Adolfo Correia da Rocha. Médico otorrinolaringologista. Escritor inteiro. Nasceu no meio das urzes, em São Martinho de Anta, Sabrosa, a doze de Agosto de mil novecentos e sete. Teve uma infância dura, tão dura que nem sequer apetece descrevê-la. A vida começou-lhe cedo com a rudeza que mais tarde viria a moldar a sua escrita.

Ainda criança, foi sozinho para o Brasil. Voltou. Estudou Medicina. E enquanto curava corpos, ensinou-nos a respirar literatura. Deu-nos páginas de diário que são espelho e combate, poemas onde a palavra é enxuta e exacta, contos que sangram verdade, romances que não fazem concessões, peças de teatro que interrogam o humano sem ornamento.

Escolheu o pseudónimo Miguel por admiração a Miguel de Cervantes e a Miguel de Unamuno. Dois faróis de uma Ibéria maior, pensante, inquieta. E escolheu Torga porque as raízes não se escondem. A torga, a urze agreste, o mato pobre e resistente, serviu-lhe de emblema. Assim se assumiu como ibérico do mundo, profundamente universal por ser profundamente local.

Era homem de difícil acesso. Tinha uns olhos que metem medo, digo eu, que os senti. Olhos de quem vê demais e não desvia. Caminhava atento e compenetrado no seu trajecto diário, de casa ao gabinete em Coimbra, cidade onde cedo se instalou e onde permaneceria até ao fim. Do Largo da Portagem, diante do Mondego que lhe entrava pelas janelas, criou para o mundo um reino que só ele poderia ter chamado maravilhoso. Não por fantasia fácil, mas por fidelidade extrema à condição humana.

Ali me recebeu. As circunstâncias são irrelevantes para a compreensão de Torga, mas foram marcantes para a minha vida. Recebeu-me quando tantos jovens escritores (membros da AJEP, Associação de Jovens Escritores de Portugal, como eu), já afamados, que estudavam ou passavam por Coimbra, não conseguiam sequer a sua atenção. Quando contei, ficaram cépticos. Só acreditaram quando lhes mostrei o manuscrito da resposta, escrita pela sua própria mão. Só mesmo de Torga podia vir um gesto assim, seco, directo, inesperado.

Eu próprio, conhecendo já algo do seu carácter, saí menos impressionado com a figura do que seria de esperar. Talvez porque não fui à procura do mito, mas do homem. E ainda hoje não sei explicar bem porque me recebeu. Talvez porque reconheceu a honestidade de quem não ia pedir nada senão um instante de verdade.

Viria a ser proposto várias vezes para o Prémio Nobel. Mais tarde, a Academia Sueca veio dizê-lo, como se fosse novidade. Não venham tarde com verdades antigas. Sempre se soube que Torga era uma potencia. O Nobel habita a obra de Torga, mesmo sem diploma nem cerimónia. Quem perdeu foi a Academia, que não pode hoje contar nos seus registos a atribuição do prémio a um nome que lhe teria engrandecido a história. Não o recebeu porque era desalinhado. E português. E depois tornou-se tarde.

Com humildade, sugere-se qualquer leitura de Miguel Torga. Qualquer uma. É literatura exigente, mas não hostil. É profunda, mas acessível. Cada leitor encontrará ali algo que lhe fala directamente. Quem não tem grande apetência pela leitura, em Torga descobrirá uma porta aberta, um chamamento, um estímulo para ficar.

Há trinta e um anos, eu não soube onde ir. Se a Coimbra, se a São Martinho de Anta, em Trás-os-Montes, para me curvar perante o seu corpo. Chovia muito. Era o mundo a chorá-lo. Fiquei em casa, doente, por sinal. Às vezes a vida também se inclina connosco.

Jaz Adolfo Correia da Rocha com a sua mulher, Andrée Crabbé, sob uma pedra no cemitério de São Martinho de Anta, à sombra de uma torga. Não poderia haver metáfora mais justa.

Réquiem por Torga

Miguel Torga deitou-se para descansar há trinta e um anos. A sua obra já o mantinha de pé muito antes disso. E mantém-no ainda hoje. Era um dia frio, como o de hoje, e também um Sábado. Nasceu a doze de Agosto de mil novecentos e sete, como aprendi em detalhe no preparatório, lições que ficaram gravadas para sempre.

Houve um tempo em que eu próprio me preparava para cirurgias difíceis e longos internamentos. Não me preocupavam demasiado, mas pensei, pelo sim pelo não, que talvez não tivesse oportunidade de conhecer pessoalmente Miguel Torga. Estava já numa idade avançada. Pedi-lhe que me recebesse. Respondeu-me. À mão. Acertámos datas. Fui.

Hoje, trinta e um anos depois da sua inclinação final, permanece inteiro. Não como estátua, mas como voz. Miguel Torga não morreu. Recolheu-se à terra que sempre o sustentou. E dela continua a erguer-se, palavra a palavra, como as torgas bravas que resistem ao frio, ao vento e ao esquecimento.

Mário Adão Magalhães

2026/01/17 _

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