domingo, 24 de abril de 2022

Um Amigo chamado Costa Pereira

https://tempocaminhado.blogspot.com/
2014/05/nossa-
senhora-da-graca-na-fe-dos.html


Conheci Costa Pereira há alguns anos. Era um mondinense extraordinário. Adorava Mondim de Basto, a sua bela Bajouca (Leiria), onde ia com regularidade, em companhia da esposa que também conheço. Gostava das pessoas, promovia-as nos seus dois blogues (Portugal, minha terra. e Aqui me tem) – sobretudo os escritores e os artistas.


Era um transmontano de rija têmpera. Atento, perspicaz e audaz. Acompanhado da sua máquina fotográfica, qualquer motivo servia para grande reportagem. Lembro-me de um dia enviar um texto (ilustrado) para este blogue, cujo motivo de reportagem, era um simples melro (se não me engano) que tinha pousado no quintal de sua casa, na Bajouca. Costa Pereira era isto. Um simples passarito, tinha honras de reportagem como acontecimento político, cultural, social e por aí adiante.

Estive várias vezes com ele em eventos da Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa. Ia (quase) sempre acompanhado por uma sua conterrânea, a Drª Maria da Graça, também ela sempre pronta a promover os escritores transmontanos. Todos esses eventos culturais foram motivo de reportagem que sempre enviou para este blogue. Aliás, Costa Pereira foi colaborador assíduo de Tempocaminhado, cerca de oito anos. Há cerca de ano e meio soube que não andava bem. Ainda contactei com ele mas verifiquei o que me haviam dito. Ainda enviou um texto, o último, há uns meses, e só na passada Terça feira soube que nesse mesmo dia (19) tinha falecido. Ele que tantas vezes escreveu neste blogue sobre amigos escritores que haviam partido, acabou por partir também. Até sempre bom Amigo.

Costa Pereira adorava a família. O neto era o seu tesouro. Para eles as minhas sinceras condolências.

Este blogue está repleto de textos de Costa Pereira [https://tempocaminhado.blogspot.com/2013/06/costa-pereira-semana-missionaria-em-ano.html]. Enquanto durar hei-de lembrar-me sempre desse Amigo de Mondim de Basto [Tempo Caminhado: Nossa Senhora da Graça na Fé dos Mareantes ...].

Jorge Lage homenageou-o com texto singelo. Jorge Golias e Barroso da Fonte (que Costa Pereira admirava extraordinariamente) lá deixaram comentários em sua homenagem.

Além deste pequeno texto, julgo que a melhor forma de o homenagear é transcrever um texto dele publicado em 2018.

 

Vilar de Ferreiros – no tempo da luz de pinha.

 

Freguesia rural e talhada por montes e ribeiros, foi durante séculos mal servida de meios de comunicação, bem como de estabelecimentos para superar a falta do que faz falta. Por volta dos finais da década de 30, do século passado, além da modesta loja do Alfredo, que um cunhado matou com uma sacholada, em Vilar; do Ferreira, de Vilarinho, e do Manuelzinho, de Campos, não havia mais onde se pedir um bijou, meio quartilho, um “maço de fortes”, uma caixa de palitos, ou petróleo para alumiar a casa. A escola primária, em velho e desconfortável imóvel era, com a caixa do correio, o único serviço público de que nessa ocasião dispunha a aldeia de Vilar de Ferreiros, como paga de ser terra transmontana de Basto. O pároco era um filho da terra, o Abade Miranda, com tanto de sacerdote cultíssimo, como de lavrador mediano. Tinha moços de servir, mas também ele se agarrava ao rabo do arado quando pelas sementeiras o serviço exigia. Além de artista no domar e ensinar o gado novo a puxar ao carro ou arado, primava em ter bom gado de trabalho, e montada de causar pasmo pelo aprumo do cavaleiro e arreios do cavalo limpos e brilhantes, sempre que descia a Mondim ou aparecia na feira de Fermil para se inteirar dos preços dos produtos e utensílios. Era no lugar, como a professora, a figura mais respeitada por uma população rústica e sedentária que trabalhava e vivia do que produziam nos canchos e leiras muito trabalhosas. Os mais aptos e habilidosos a par da lavoura deitavam mão duma arte qualquer, ainda que rusticamente executada, para ganhar mais uns testões. Uns a cortar barbas e cabelo; outros a carpinteirar, ou na forja, na pedra, na cestaria, na tanoaria, na moagem, e no que fazia falta para satisfazer as necessidades artesanais da comunidade local.      

A ensinar era a D. Luiza, uma professora muito exigente que só não fez alunos muito brilhantes porque eram tempos difíceis, decorria a segunda Guerra Mundial, com  as consequências disso derivadas. Falta de dinheiro, e para agravar a situação também de víveres, o que tornava a vida ainda mais pesada, aos já por si, carenciados de bens essenciais. O Racionamento foi outra chaga social que duramente castigou os portugueses dessa época, e que só depois de finda a guerra foi suspenso. Tempos muito difíceis que só o volfrâmio atenuou com a exploração das minas de Adoria, em Cerva, sobretudo a “Mina do Pilha”, em Rio Mau, onde depois de encerrada, os mais aventureiros tentavam às escondidas pilhar algum minério que se vendia a bom preço. Também em Vilar de Ferreiros, as minas de estanho, nos montes da Pedreira, deram trabalho a bastante gente.

A Floresta foi também um atenuante que em tempo das sementeiras e desbastes  nos montes da freguesia, deu trabalho a muito pessoal, e criou alguns empregos fixos para agentes de limpeza e conservação das matas. Mas acabada a guerra lá se foram as minas, deixando, os mineiros no desemprego e muitos aleijados e na miséria para o resto da vida pelas sapadas de terra que na escavação do mineral os tolheu. Por outro lado também  a Floresta proibiu o gado de pastar nos montes, agravando ainda mais os problemas de ordem social e psicológico, onde nessa época,  até para ir à lenha para cozinhar, ou ao estrume para a corte do gado, era preciso ir a Sobreira, pedir ao mestre Teixeira a senha de autorização.

O fraco trato alimentar manifestou-se na população e deu que fazer ao Dr. Brito, o “João Semana” de Mondim, único médico nessa ocasião para atender um concelho rural e pobre de recursos por explorar. Em muitos casos a doença acabava  mesmo por resvalar para casos de manifesta loucura, notórios no comportamento de algumas pessoas. Não apenas nos adultos, como também as crianças acabavam por experimentar as mazelas derivadas desse flagelo provocado pela má alimentação, e medos; medo da guerra, dos mortos, das bruxas, dos lobisomens, das encruzilhadas dos caminhos, bem mais do que dos cornos da vaca ou coice de cavalo, do frio ou do calor, ou mesmo da vergastada que por alguma asneira os pais davam quando necessário. Todavia, casos destes também podem servir de tónico, como algumas vezes acontece, ao espevitar os sentidos e coloca-los a funcionar. Foi o que sucedeu com um miúdo da aldeia cuja mãe certo dia deixou abandonado, embora com a “pilheira” da casa fornecida e no cortelho da bezerra e do lagar a tanha cheia de azeite, bem como galinhas poedeiras no capoeiro.  O que não evitou em certa manhã soalheira de Verão, o mocito para chamar a atenção dos adultos lhe desse para inventar uma história macabra e bem urdida: dizer que encontrou a mãe afogada na Ribeira, dando como local o sítio do “Caldeirão”. A noticia espalhou-se; mas ele, consciente da mentira que propagou afastou-se, na tarde desse dia, para os arrabaldes da povoação, com vergonha e receio de ser castigado. Logo o boato chegou à “Bila” e aos ouvidos do presidente do município que calhando encontrar ali o regedor da freguesia, perguntou lhe pelo que de verdade tinha acontecido na terra dele. Alheio acerca do assunto, aí vai ele apressado, carreiro fora, averiguar a ocorrência. Mas encontrar o boateiro? Valeu a perspicácia de um tal Zé Pequeno da Valdeira, para o efeito encarregado de ver se o conseguia agarrar. Conseguiu e, pelo punho, apareceu com ele no Souto, onde o regedor e o lugar em peso o esperavam para ver confirmada a “nova” que constava. Manteve a sua, e lá vai à frente do cortejo direito ao Caldeirão, por Carreira Cova, Calvário, Sarnado, Aveleda e pelo fundo da Cachada ter ao local onde centrou a história. Ali, apontando para um tronco de árvore submerso na ribeira, deu-o como sendo o corpo da mãe. Bem lhe diziam que era um tronco de salgueiro tombado no rio, mas ele teimava ser o corpo da mãe.

Deram-no também por tolinho, mas levou a sua avante; safando-se de um bom par de merecidas sapatadas para não ser mentiroso. Entretanto dias depois a mãe voltou a aparecer, muito debilitada e ainda mais desarranjada do juízo. O negócio do pão e das encomendas por toda a montanha maronesa já não lhe despertavam ânimo e as forças no corpo para subir e descer a serrania faltavam-lhe. Enquanto pode, além do mais cultivou e cuidou dos cibos que herdou dos pais; e do filho pensou enriquece-lo com aquilo que não teve: saber ler e escrever. Confiou-o aos cuidados da mestra que ensinava na aldeia e comprou-lhe o livro da 1ª e da 2ª Classe. Tudo fez por ele enquanto a saúde deixou; só que também foi uma daquelas vítimas de uma sociedade ensombrada pelo terror da guerra, da fome e das agruras da vida pobre e doentia que o egoísmo humano gera. Um dia a crise foi mais forte e, então, dizem que lhe deu para se desfazer do herdeiro, escolhendo a ponte de Mondim e o rio Tâmega para o macabro trabalho. Resultou daí vir no seu encalço uma patrulha da GNR que a obrigou a inverter a marcha e a ir ao posto contar ao Cabo Revelo o que andava a fazer no Senhor da Ponte. Certo é que ambos desapareceram da terra. Ela nunca mais foi vista, nem noticias dela se soube. Do filho consta que muitos anos depois passou por ali um forasteiro em jeito de romeiro que sem se identificar contou num dos cafés da aldeia, conhecer a terra e a região, bem como sítios e famílias antigas, do tempo em que não havia estrada, nem luz elétrica. Referiu nomes como uma D. Rosinha, a filha D. Emilinha, que morreu caída duma janela avarandada, junto à casa dos Leites, e outros como o ti Narciso Gonçalves que teve muitos amigos enquanto lavrador abastado, e morreu pobremente esquecido. Na rota do Caminho de Santiago que por “Lamardolo” (Lamas de Olo) conduz a Compostela, Vilar de Ferreiros noutros tempos servia de pousada a um ou outro romeiro que com receio da noite lhe impedir a caminhada desse dia, pedia para pernoitar, e não raro alguns deles até aproveitavam para convocar a aldeia e darem noticias de terras por aonde passavam ou do propósito da romagem que os levava ao tumulo do Apóstolo. É bem provável que também o herói nesta história tivesse sido movido por uma intenção semelhante, visto que consta fez alusão ao facto, recordando que vinha de estar com uma meia-irmã paterna, nos arrabaldes de Vila Real, e que pelo Caminho de Santiago, vinha também em romagem, visitar uma aldeia que em criança conheceu. Se era ele ou não ninguém pode confirmar, pode é ficar seguro que quem quer que tenha sido já não encontrou a aldeia de outrora com estrumeiras na rua, os caminhos pedregosos e difíceis de transitar, agora transformados em estrada, a luz da pinha, azeite ou petróleo substituídos pela luz elétrica, as lojas-tasca trocadas por ótimos cafés, onde junto se pode mercar bens alimentares. Nem tão-pouco os moinhos de rodizio do rego da Poça e do rio Cabril se deixam identificar . Há muito que seguiram o exemplo das azenhas e alambiques desta e outras aldeias vizinhas.

Pesou nesta transformação entre o mais, a emigração ao  despertar nos mais afoitos a deixar a terra-berço em busca do que não havia ali : trabalho diferenciado, acesso à formação e cultura, assistência medica e social e demais serviços de apoio a quem nasce português, mesmo que em terras de Além Marão. Foi nesse cenário rude e penoso que se moldou e temperou quem nasceu e viveu nas décadas de 30 e 40, até que chegasse a hora do avesso. Tarde, mas chegou, pois muitos foram os que quase analfabetos fizeram o mesmo que o personagem desta história, foram correr mundo, trabalhar, a maior parte na construção civil. Uns voltaram, outros não. O caso do suposto romeiro que passou um dia em romagem e falou da mudança que notou. Mudança que também acrescento eu: trouxe sem dúvida melhorias de vida para as populações, mas descaraterizou em muito o aspeto urbano da aldeia, como também apagou imagens seculares gravadas na pedra e nas tradições, em prejuízo do património construído e etnográfico da freguesia e paróquia de Vilar de Ferreiros.

Lisboa, 2017.

José Augusto da Costa Pereira

 

In: Antologia de Autores Transmontanos, Durienses e da Beira Transmontana, ed. Casa de Trás-os-Montes e Alto Douro de Lisboa, Exoterra, 2018, pp. 438-432.

 

Nasceu a 6 de Dezembro de 1938, em Vilar de Ferreiros, Mondim de Basto, onde viveu os primeiros anos, repartidos entre a sua terra e Fermil de Basto.

Por volta dos seus 13 ou 14 anos foi para Vila Real onde aprendeu a profissão de barbeiro e nessa profissão trabalhou em terras como VN de Famalicão, Nine, São Mamede do Coronado e Lisboa, onde fixou residência em 1961.

Pela mão do seu mestre escola, o publicista celoricense José Lopes, inicia a sua caminhada na comunicação social, com um artigo pulicado no extinto Noticias de Basto, em 25 de Julho de 1960. Depois foi um nunca mais acabar, com colaboração nos mais diverso jornais da Imprensa Não Diária: o Noticias de Chaves, Voz de Trás-os-Montes, A Ordem, Terras de Basto, Monte Farinha, Povo de Basto, Ecos de Belém, Noticias do Bombarral, A Voz de Domingo, O Mensageiro, Elo da Bajouca e outros mais, como o boletim do Grupo Folclórico e Recreativo de Vilarinho - Vilar de Ferreiros, de que foi fundador.

É autor de “ A Região de Basto e As Ferrarias entre Tâmega e Douro”, “Vilar de Ferreiros, na história, no espaço e na etnografia” e “Nossa Senhora da Graça. Na Fé dos Mareantes”. É aposentado do Ministério da Defesa, casado, pai e residente em

Mercê do seu profissionalismo e comportamento no ambiente de trabalho vários são os louvores oficiais que lhe foram conferidos: e por Portaria de 09 de Março de 1998 foi condecorado com a Medalha de D. Afonso Henriques, Patrono do Exército, pelo Chefe do Estado-Maior do Exército.

Armando Palavras


1 comentário:

  1. É muito bonito e um exemplo a seguir a forma superior com que o nosso ilustre amigo, Doutor Armando Palavras, dá espaço aos nossos conterrâneos que partem, sendo um nobre exemplo a seguir. Partiu o grande amigo e lutador de grandes causas, José Augusto da Costa Pereira, a quem muitos de nós devemos muito e a sua querida Vilar de Ferreiros - Mondim de Bastos. Todos ficamos mais pobres com a sua partida tão cedo.
    Até sempre amigo Costa Pereira. Jorge Lage

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