Ontem, 2 de Fevereiro, passaram 100 anos da publicação
de Ulisses. James Joyce, neste seu dia de aniversário dos 40, não
escreveu um romance convencional, mas antes algo desestruturado, sem fio de
história, uma narrativa a roçar o absurdo, a fazer desistir muitos dos que se
aventuraram nestas páginas inimagináveis. E, naquele tempo, um desafio aos
costumes já que não se retrai de pôr cá fora marcas de obscenidade e
pornografia. Perseguido socialmente haveria de lançar aos perseguidores a praga
de que durante muitos séculos os melhores tentariam perceber os seus enigmas e
mistérios, mas jamais os desvendariam. Queimado em Nova Iorque e Inglaterra
circularia em edições clandestinas. O herói, Leopold Bloom, um mero angariador
de publicidade, será um émulo de Ulisses, da Odisseia, de Homero, que deixa
Tróia a caminho de Ítaca, onde o esperava Penélope, mas este Bloom nada tem daquele
herói grego. Aqui talvez se nos depare a primeira espantação!
A noite passada adormeci com Ulisses na cabeça, pus o falso
herói a deambular, sob a vista espantada do Ulisses autêntico, o lendário
grego, que o tentou com uma viagem por mar, sob os ataques das fúrias da
natureza e dos deuses enfurecidos e das deusas famintas de macho herói troiano.
E li, claramente lido, um texto corrido, sem pontos nem vírgulas, sem nexo nem
sexo, mas que quanto mais escrevia mais me embalava nos braços de Morfeu,
entrando assim nos reinos do indizível e do intraduzível por símbolos de
escrita escorreita, senti-me metido numa maratona de leitura em que cada um lia
para si e quando já ninguém já ouvia ou se ouvia, me perdi nas ruas de Dublin,
cheio de gente e de álcool e de ruído e festa. Festa bárbara mais que festa
brava. Bêbado de sono, rendi-me.
Nunca fui a Dublin!
Amanhã 4 de Fevereiro, faz 156 anos que Ramalho
Ortigão e Antero de Quental se bateram num duelo na cidade do Porto. Foi em
Novembro de 1865 que em Portugal pela primeira vez acontecia um episódio
literário que iria ficar na História – a famosa Questão Coimbrã. Então o
velho poeta António Feliciano de Castilho, ultra-romântico, fez saltar a tampa
ao jovem poeta modernista Antero de Quental. Alto, rico, belo, ruivo, reunia
multidões de estudantes com o seu poder oratório, provocando o poder da velha
universidade. Revolucionário, assumia-se como socialista e admirador de Garibaldi,
ao lado de quem ainda pensou ir combater.
Esta nova geração, que viria a ser a Geração de 70 – Os
Vencidos da Vida - já industriada pelos livros que lhes chegavam de Paris pelo
novo meio de transporte -o comboio- e que devorava os clássicos franceses da
literatura da economia e da política, pôs Coimbra a ferro e fogo. E não eram
apenas questões de estilo literário que estavam em jogo, eram também os
empregos e o acesso aos meios de comunicação. E foi assim que com um pretexto de
um escrito de Castilho a troçar dos textos de Antero e Teófilo Braga, surgiu a Carta
do Bom Senso e do Bom Gosto, com a qual Antero demoliu Castilho e esta
geração de conservadores e dividiu o meio literário ao meio. De um lado
Castilho, que arregimentou Camilo (este ainda tentou não se meter, mas devia
favores ao velho) e Pinheiro Chagas. Do outro lado, Antero, Teófilo Braga e Eça
(este mais motivado pelo seu papel de actor - pai nobre- no teatro académico,
ainda não agarrado aos ideais revolucionários - a bem dizer nunca os teve - mas
grande admirador de Antero).
Ramalho surge então em defesa da honra de Castilho e convoca Antero
para um duelo. Que aconteceu no Porto. Camilo apadrinhou Ramalho e Eça Antero.
No
duelo, em 4 de Fevereiro, logo no primeiro assalto, Antero fere Ramalho num
braço. A luta termina, as honras estão lavadas. Os dois escritores
reconciliam-se. Diz Camilo: Em
1866 na belicosa cidade do Porto, defrontaram-se de espada nua dois escritores
portugueses de muitas excelências literárias e grande pundonor. Correu algum
sangue. Deu-se por entretida a curiosidade pública e satisfeita a honra
convencional dos combatentes. Alguns dias volvidos ia eu de passeio na estrada
de Braga e levava comigo a honrosa companhia de um cavalheiro que lustra entre
os mais grados das províncias do Norte. No sítio da Mãe-de-Água apontei a
direcção de um plano encoberto pelos pinhais e disse ao meu companheiro: Foi
ali que há dias a «Crítica Portuguesa» esgrimiu com o «Ideal Alemão»!
Estes homens, sem Camilo, o último romântico (que exagero!)
seguiriam depois o rumo dos Vencidos da Vida, num grupo alargado de Os Onze do
Bragança, e logo 6 anos depois, em 1871, seria outra vez Antero a surpreender
com a famosa e ainda actual “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, na
primeira das Conferências do Casino, em Lisboa, que fizeram grande furor e
transportaram a rebeldia coimbrã para a Baixa de Lisboa.
Antero que foi um dos nossos maiores poetas modernistas e que
inquieto em tudo na vida, inclusive nos amores, se fez regressar à sua Ítaca,
não para libertar Penélope dos pretendentes, mas para se libertar a si próprio.
Para todo o sempre!
JG80
Belo texto prenhe de recordações literárias.Parabéns!
ResponderEliminarEntendo que a "libertação" de Antero resultou de muitos factos e não seria essa a primeira intenção de procurar o refúgio na sua terra- Açores; o suicídio pôs um ponto final ao sofrimento, dada a sua encruzilhada na vida.
Júlia Serra