sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

Duas Notas

JORGE  GOLIAS



Ontem, 2 de Fevereiro, passaram 100 anos da publicação de Ulisses. James Joyce, neste seu dia de aniversário dos 40, não escreveu um romance convencional, mas antes algo desestruturado, sem fio de história, uma narrativa a roçar o absurdo, a fazer desistir muitos dos que se aventuraram nestas páginas inimagináveis. E, naquele tempo, um desafio aos costumes já que não se retrai de pôr cá fora marcas de obscenidade e pornografia. Perseguido socialmente haveria de lançar aos perseguidores a praga de que durante muitos séculos os melhores tentariam perceber os seus enigmas e mistérios, mas jamais os desvendariam. Queimado em Nova Iorque e Inglaterra circularia em edições clandestinas. O herói, Leopold Bloom, um mero angariador de publicidade, será um émulo de Ulisses, da Odisseia, de Homero, que deixa Tróia a caminho de Ítaca, onde o esperava Penélope, mas este Bloom nada tem daquele herói grego. Aqui talvez se nos depare a primeira espantação!

Rezam as crónicas que o livro foi escrito durante uns 5 anos em vários países do seu exílio e cuja acção literária decorre no dia 16 de Junho de 1904 e durante 18 horas de actividade do seu “herói” pelas ruas de Dublin. Daí este dia ser consagrado pela Irlanda com a marca de Bloomsday. E a sua escolha teve a ver com o dia em que ele teve a primeira relação sexual com a sua noiva Nora, que não se terá consumado, tendo ela o masturbado “com os olhos de uma santa”, cf. ele escreveu.

A noite passada adormeci com Ulisses na cabeça, pus o falso herói a deambular, sob a vista espantada do Ulisses autêntico, o lendário grego, que o tentou com uma viagem por mar, sob os ataques das fúrias da natureza e dos deuses enfurecidos e das deusas famintas de macho herói troiano. E li, claramente lido, um texto corrido, sem pontos nem vírgulas, sem nexo nem sexo, mas que quanto mais escrevia mais me embalava nos braços de Morfeu, entrando assim nos reinos do indizível e do intraduzível por símbolos de escrita escorreita, senti-me metido numa maratona de leitura em que cada um lia para si e quando já ninguém já ouvia ou se ouvia, me perdi nas ruas de Dublin, cheio de gente e de álcool e de ruído e festa. Festa bárbara mais que festa brava. Bêbado de sono, rendi-me.

Nunca fui a Dublin!

 

Amanhã 4 de Fevereiro, faz 156 anos que Ramalho Ortigão e Antero de Quental se bateram num duelo na cidade do Porto. Foi em Novembro de 1865 que em Portugal pela primeira vez acontecia um episódio literário que iria ficar na História – a famosa Questão Coimbrã. Então o velho poeta António Feliciano de Castilho, ultra-romântico, fez saltar a tampa ao jovem poeta modernista Antero de Quental. Alto, rico, belo, ruivo, reunia multidões de estudantes com o seu poder oratório, provocando o poder da velha universidade. Revolucionário, assumia-se como socialista e admirador de Garibaldi, ao lado de quem ainda pensou ir combater.

Esta nova geração, que viria a ser a Geração de 70 – Os Vencidos da Vida - já industriada pelos livros que lhes chegavam de Paris pelo novo meio de transporte -o comboio- e que devorava os clássicos franceses da literatura da economia e da política, pôs Coimbra a ferro e fogo. E não eram apenas questões de estilo literário que estavam em jogo, eram também os empregos e o acesso aos meios de comunicação. E foi assim que com um pretexto de um escrito de Castilho a troçar dos textos de Antero e Teófilo Braga, surgiu a Carta do Bom Senso e do Bom Gosto, com a qual Antero demoliu Castilho e esta geração de conservadores e dividiu o meio literário ao meio. De um lado Castilho, que arregimentou Camilo (este ainda tentou não se meter, mas devia favores ao velho) e Pinheiro Chagas. Do outro lado, Antero, Teófilo Braga e Eça (este mais motivado pelo seu papel de actor - pai nobre- no teatro académico, ainda não agarrado aos ideais revolucionários - a bem dizer nunca os teve - mas grande admirador de Antero).

Ramalho surge então em defesa da honra de Castilho e convoca Antero para um duelo. Que aconteceu no Porto. Camilo apadrinhou Ramalho e Eça Antero.

No duelo, em 4 de Fevereiro, logo no primeiro assalto, Antero fere Ramalho num braço. A luta termina, as honras estão lavadas. Os dois escritores reconciliam-se. Diz Camilo: Em 1866 na belicosa cidade do Porto, defrontaram-se de espada nua dois escritores portugueses de muitas excelências literárias e grande pundonor. Correu algum sangue. Deu-se por entretida a curiosidade pública e satisfeita a honra convencional dos combatentes. Alguns dias volvidos ia eu de passeio na estrada de Braga e levava comigo a honrosa companhia de um cavalheiro que lustra entre os mais grados das províncias do Norte. No sítio da Mãe-de-Água apontei a direcção de um plano encoberto pelos pinhais e disse ao meu companheiro: Foi ali que há dias a «Crítica Portuguesa» esgrimiu com o «Ideal Alemão»!

Estes homens, sem Camilo, o último romântico (que exagero!) seguiriam depois o rumo dos Vencidos da Vida, num grupo alargado de Os Onze do Bragança, e logo 6 anos depois, em 1871, seria outra vez Antero a surpreender com a famosa e ainda actual “Causas da Decadência dos Povos Peninsulares”, na primeira das Conferências do Casino, em Lisboa, que fizeram grande furor e transportaram a rebeldia coimbrã para a Baixa de Lisboa.

Antero que foi um dos nossos maiores poetas modernistas e que inquieto em tudo na vida, inclusive nos amores, se fez regressar à sua Ítaca, não para libertar Penélope dos pretendentes, mas para se libertar a si próprio.

Para todo o sempre!

 

JG80

 

1 comentário:

  1. Belo texto prenhe de recordações literárias.Parabéns!
    Entendo que a "libertação" de Antero resultou de muitos factos e não seria essa a primeira intenção de procurar o refúgio na sua terra- Açores; o suicídio pôs um ponto final ao sofrimento, dada a sua encruzilhada na vida.
    Júlia Serra

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