domingo, 27 de junho de 2021

Momento Triste

 Boa tarde!

A esposa do amigo, António Chaves, partiu ontem 26/06/2021.

O amigo Coronel Jorge Golias dedica-lhe de imediato uma “Crónica Triste” da sua autoria. Pela beleza e pela tristeza entendi partilhá-la com alguns amigos da nossa região 

Deus a tenha em bom lugar.

Parabéns ao Coronel Jorge Golias.

Abraço amigo,

Jorge Lage.

 

JORGE GOLIAS


Momento Triste

A Teresa cata a Safira e canta. Não sei o quê, nem ela saberá. Toca o meu Tm, saio da sala e refugio-me no quarto. Oiço o António soluçar. Balbucia umas frases que mal entendo e adivinho que morreu a Cândida, aquela amiga por quem um dia rezei e pus amigos a rezar. É a sexta amiga/amigo que morre nesta janela da pandemia. Sim, foi com o vírus, depois de mais de 4 meses de coma.

O Alexandre saiu há pouco na sua cadeira de rodas GT, que faz demasiadas coisas e não cumpre o essencial, que é aguentá-lo, sem partir. Porque já partiu. São quase 18 horas, o Alex só volta perto da meia noite.

Neste tempo de espera, descanso, estendido no sofá, leio o jornal, ou um livro, dormitando a espaços, ganhando forças para a noite. Estas seis horas trissemanais são o espaço e o tempo do recobro de um dia de stresses vários.

A Cândida queria que fôssemos todos ao Barroso, passear pelo Gerês e pela sua aldeia, Vilarinho de Negrões, que é uma das mais bonitas de Portugal. Havemos de fazer-te a vontade, Cândida. Um dia estaremos em comunhão contigo, no teu país Barroso, que tem tanta coisa boa: língua, história, literatura e os usos e costumes comunitários, hoje uma memória do passado: o boi do povo, o forno do povo, os baldios do povo, antes da espoliação.

A Teresa cantarola e cata a gata, que não cura com o spray da farmácia. Vou esperar que páre de cantar para lhe contar que mais uma das suas amigas partiu, assim, sem mais nem menos, para o além, que cada vez fica mais perto.

A gata saltou e fugiu ao martírio da sua purificação. A Teresa parou de cantar e eu vou parar de escrever para lhe dizer: -Teresa, a Cândida… partiu!

A Teresa chora a amiga e acende uma velinha. Eu sabia que ela ia fazer isso, aqui num quase altar ao lado do seu lugar. Assim, custa menos. A velinha acesa, que afinal são duas, vai ajudar a amiga na sua longa viagem cósmica. Até ao fim dos tempos. Até que todos não sejamos nada.

Estamos ambos a pensar o mesmo e ambos estamos na mesma bolha. Daqui vê-se mal tudo o resto que passa por aí: a política, o futebol, os fait-divers, o que for é assunto menor perante o nosso assunto mor.

De vez em quando furo a bolha e salto para o mundo profano. Caminho com destino nas funções do macho que busca os alimentos para a família. Regresso, carregado e cansado, mas feliz porque alguém anseia por me ver chegar. Eu trago sempre o que faz falta e mais do que essa carga exterior trago a minha força interior. De onde me vem? Não sei! Estou aí para trabalhar e durar.

Hoje o ar carregou demais. Os amigos e as amigas são o melhor que todos temos. Quando um/uma falta percebemos melhor o bem que nos fazem. E não é preciso a presença nem o contacto, basta sabermos que estão ali, pensando em nós e rezando para que a vida nos seja mais leve.

Adeus Cândida, querida amiga, companheira do António Chaves, nosso querido amigo, que hoje abraçamos com mais força. Hoje voltamos a rezar por ti, Cândida. Até sempre!

26 de Junho de 2021                                                                                                                                   JG80

1 comentário:

  1. Belo cântico apesar de triste. Condolências ao Dr. António Chaves. Sempre muito tristes as partidas...

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