terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Crítica literária sobre "Quem me dera cá o tempo" na 9 séculos

                                                                 9 séculos Revista da lusofonia
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Jorge  Lage
QUEM ME DERA 

CÁ O TEMPO

Antologia da 

Maria Castanha

> Júlia Serra

(crítica literária)

 

             Nas vésperas de um novo livro, é sempre bom relembrar o autor e dar a conhecer alguns aspetos/itens desse novo projeto, quanto mais não seja, para espicaçar os hipotéticos leitores.

         Jorge Lage é autor de várias obras sobre a Castanha e os Castanheiros -A Castanha Saberes e Sabores; Castanea uma dádiva dos deuses; Memórias da Maria Castanha; Maria Castanha Outras Memórias; Romanceiro da Castanha – e de muitos outros escritos sobre a sua terra natal: Falares de Mirandela; As Maias entre mitos e crenças; para além de autor de prefácios, co-autor no Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses e de muitos outros textos e obras que preencheram toda a sua vida. E sobre este assunto vou descobrir alguns dos registos biográficos deste transmontano de gema: nasceu em Chelas, freguesia de Cabanelas, Mirandela e fez a instrução primária na sua aldeia. Continuou os estudos no Colégio Marista dos Pousos – Leiria, onde concluiu o 5.º ano liceal em 1966. Em 1967, estudou no Colégio de Nossa Senhora da Boavista – Vila Real e concluiu o 6.º e 7.º anos liceais. Em 1969, tirou o Curso de Oficiais Milicianos (Escola Prática de Infantaria – Mafra) e, em 1973, o Curso de Promoção a Capitães (comandou uma subunidade na ex-Guiné Portuguesa – 1973/74), possuindo hoje a patente de Coronel do Exército. Licenciou-se em História, em 1977, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2004/05, fez Curso de Museologia na Faculdade de Filosofia em Braga da Universidade Católica. Não ficou por aqui: foi professor de História, esteve sempre ligado à Escola e ao Ministério de Educação, fez-se jornalista e escritor. Não para de escrever até que a mão lhe doa e libertar-se -à da “lei da morte”, através da escrita.

             Jorge Lage dedicou -se ao estudo da castanha e do castanheiro, considerado, atualmente, um dos melhores especialistas na área castanhícola. A testemunhar esse saber, este seu novo projeto (que será publicado brevemente) elucidará o público sobre as mais variadas questões que esta temática poderá suscitar, revelando também os seus dotes de escrita. Produzir uma Antologia exige, para além de conhecimentos, muita investigação, trabalho de campo e gestão organizacional. Trata-se, portanto, de um trabalho moroso, solitário, porque, embora o diálogo esteja incluído na pesquisa empírica, o processamento da escrita faz-se pelo monólogo simples ou dialogante em que o autor, por vezes, se interroga ou se exprime em função do que escreve e para o “tu”, preocupado sempre com a conquista da verdade e da clareza do assunto. Assim, na linguagem de Malraux, ele é um “herói de solidão” que incansavelmente trabalha para o comprazimento do outro. 

Como não é uma obra de invenção, mas de aprofundamento temático, exige um questionamento constante do autor sobre os seus limites - não provocado pelo cansaço ou pela ânsia de libertação do livro – mas, sobretudo, pela obsessão do esgotamento temático, como se poderá vir a confirmar pelo longo índice composto por treze itens e com um belo elenco de colaboradores, a quem se refere o autor, na Nota Introdutória: ”Penso encerrar este trabalho solitário, árido e duro com esta Antologia, reunindo mais de 80 escritores ligados ao país castanícola e de diferentes níveis sociais.” Na mesma Nota Introdutória explica a sua paixão: ”O estudo da Castanha e do Castanheiro aconteceu porque, em finais do século XX, havia uma lacuna confrangedora nas feiras temáticas da castanha, em Trás-os-Montes, onde quase só se podia comprar castanha em verde. Então, estas feiras da castanha levaram-me a solicitar em jornais que a castanha devia ser apreciada nesses eventos, tanto mais que os vizinhos galegos já a promoviam com grande pompa.

          Como desconhecia publicações sobre a gastronomia da castanha pensei em compor um caderno de receitas, que incentivasse os lares e a restauração. Para tal, socorri-me, sobretudo, dos Clubes da Floresta, do PROSEPE (Projecto de Sensibilização e Educação Florestal da População Escolar), da Universidade de Coimbra, concebido e dirigido pelo Professor Luciano Lourenço. Neste Projecto Educativo trabalhei, como voluntário, durante mais de 20 anos e só terminou porque tinha grandes forças adversas (os lóbis: florestal e indústria de incêndios) que o bloqueavam nos apoios ao mais alto nível governativo, desde algumas direcções-gerais das Florestas/ICNF, ministérios (incluindo o staff de alguns ex-Primeiro Ministro). Foram precisas as grandes tragédias nacionais dos incêndios para os políticos se envergonharem de pouco ou nada fazerem.”

           A confirmar o valor do castanheiro e do seu fruto, o douto autor do Prefácio da obra - Telmo Verdelho - apresenta uma longa explanação sobre o valor da castanha na alimentação e, sobretudo, percorre a Literatura Clássica (evocando, Ovídio e Virgílio) e Portuguesa, passando por várias épocas e escritores, ao ponto de citar uma Ode de Filinto Elísio. Um belo Prefácio para ser lido como um rito de passagem comungado pelo prefaciador, a quem Barthes designa como voz - off (do sujeito e do autor) e pelo leitor. Telmo Verdelho termina este saboroso e eloquente umbral, desta forma: ”Fiel à herança da memória antiga, recebida ainda na juventude, e aos valores e tradições que instituíam as nossas comunidades rurais, Jorge Lage teve a inteligência de quanto era importante a preservação desse espólio antigo e quase perdido da nossa civilização. Dedicou-se com solicitude e esclarecida indagação à recolha da memória ainda viva ou ainda recuperável; coligiu toda a informação «scibile» abrangendo a produção, o trânsito comercial e alimentar, e ainda todo o enquadramento cultural e metassocial.

            Prosseguindo a sua demanda de salvaguarda cultural, promove agora (feliz ideia!) a publicação desta antologia testemunhal de depoimentos pessoais, ouvidos, vividos e recontados para celebrar o legado e fazer prova de herança. Vai ilustrada por nomes prestigiados de escritores e intelectuais. Tem verdade, tem arte, tem emoção, alguma nostalgia, bastante saudade e um justificado louvor aos nossos pais e à terra onde começámos a ver o mundo. Honra lhe seja feita!”

          Assim, esta Antologia poderá ser um documento-doação para as gerações mais novas onde, um dia, poderão ter acesso a um manancial de dados raros devidamente testemunhados e elucidados com imagens.

 

3 comentários:

  1. O Sr. Doutor está um bocado vaidoso da sua Antologia da Castanha vir na grande Revista Lusófona!! , mas não admira nada - são duas grandes Obras idealizadas e elaboradas por gente transmontana, a bem dizer...

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  2. Muito bom artigo, sobretudo por podermos admirar o excelente percurso do autor, o que é bom para quem colaborou na antologia, através do convite sugestão da Manuela Morais, da editora Tartaruga, e fica assim a saber e a valorizar mais a dimensão humana e cultural do notável organizador. Parabéns aos dois, e mais obras!

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  3. Excelente apresentação da Obra e seu Autor, que deixa o potencial leitor, mui ávido da leitura do livro e de saborear uma apetitosa receita com castanhas...

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