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| Jorge Lage |
CÁ O TEMPO
Antologia da
Maria Castanha
> Júlia Serra
(crítica literária)
Nas vésperas de um novo livro, é sempre bom
relembrar o autor e dar a conhecer alguns aspetos/itens desse novo projeto,
quanto mais não seja, para espicaçar os hipotéticos leitores.
Jorge
Lage é autor de várias obras sobre a Castanha e os Castanheiros -A Castanha Saberes e Sabores; Castanea uma dádiva dos deuses; Memórias da
Maria Castanha; Maria Castanha Outras Memórias; Romanceiro da Castanha – e de
muitos outros escritos sobre a sua terra natal: Falares de Mirandela; As Maias
entre mitos e crenças; para além de autor de prefácios, co-autor no Dicionário
dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses e de muitos outros textos e
obras que preencheram toda a sua vida. E sobre este assunto vou descobrir
alguns dos registos biográficos deste transmontano de gema: nasceu em
Chelas, freguesia de Cabanelas, Mirandela e fez a instrução primária na sua
aldeia. Continuou os estudos no Colégio Marista dos Pousos – Leiria, onde
concluiu o 5.º ano liceal em 1966. Em 1967, estudou no Colégio de Nossa Senhora
da Boavista – Vila Real e concluiu o 6.º e 7.º anos liceais. Em 1969, tirou o
Curso de Oficiais Milicianos (Escola Prática de Infantaria – Mafra) e, em 1973,
o Curso de Promoção a Capitães (comandou uma subunidade na ex-Guiné Portuguesa
– 1973/74), possuindo hoje a patente de Coronel do Exército. Licenciou-se em
História, em 1977, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2004/05,
fez Curso de Museologia na Faculdade de Filosofia em Braga da Universidade
Católica. Não ficou por aqui: foi professor de História, esteve sempre ligado à
Escola e ao Ministério de Educação, fez-se jornalista e escritor. Não para de
escrever até que a mão lhe doa e libertar-se -à da “lei da morte”, através da
escrita.
Jorge Lage dedicou -se ao estudo da castanha e do castanheiro, considerado, atualmente, um dos melhores especialistas na área castanhícola. A testemunhar esse saber, este seu novo projeto (que será publicado brevemente) elucidará o público sobre as mais variadas questões que esta temática poderá suscitar, revelando também os seus dotes de escrita. Produzir uma Antologia exige, para além de conhecimentos, muita investigação, trabalho de campo e gestão organizacional. Trata-se, portanto, de um trabalho moroso, solitário, porque, embora o diálogo esteja incluído na pesquisa empírica, o processamento da escrita faz-se pelo monólogo simples ou dialogante em que o autor, por vezes, se interroga ou se exprime em função do que escreve e para o “tu”, preocupado sempre com a conquista da verdade e da clareza do assunto. Assim, na linguagem de Malraux, ele é um “herói de solidão” que incansavelmente trabalha para o comprazimento do outro.
Como não é uma obra de invenção, mas de aprofundamento temático, exige um
questionamento constante do autor sobre os seus limites - não provocado pelo
cansaço ou pela ânsia de libertação do livro – mas, sobretudo, pela obsessão do
esgotamento temático, como se poderá vir a confirmar pelo longo índice composto
por treze itens e com um belo elenco de colaboradores, a quem se refere o
autor, na Nota Introdutória: ”Penso encerrar este
trabalho solitário, árido e duro com esta Antologia, reunindo mais de 80
escritores ligados ao país castanícola e de diferentes níveis sociais.” Na
mesma Nota Introdutória explica a sua paixão: ”O estudo da
Castanha e do Castanheiro aconteceu porque, em finais do século XX, havia uma
lacuna confrangedora nas feiras temáticas da castanha, em Trás-os-Montes, onde
quase só se podia comprar castanha em verde. Então, estas feiras da castanha
levaram-me a solicitar em jornais que a castanha devia ser apreciada nesses
eventos, tanto mais que os vizinhos galegos já a promoviam com grande pompa.
Como desconhecia publicações sobre a
gastronomia da castanha pensei em compor um caderno de receitas, que
incentivasse os lares e a restauração. Para tal, socorri-me, sobretudo, dos
Clubes da Floresta, do PROSEPE (Projecto de Sensibilização e Educação Florestal
da População Escolar), da Universidade de Coimbra, concebido e dirigido pelo
Professor Luciano Lourenço. Neste Projecto Educativo trabalhei, como
voluntário, durante mais de 20 anos e só terminou porque tinha grandes forças
adversas (os lóbis: florestal e indústria de incêndios) que o bloqueavam nos
apoios ao mais alto nível governativo, desde algumas direcções-gerais das Florestas/ICNF,
ministérios (incluindo o staff de alguns ex-Primeiro Ministro). Foram precisas
as grandes tragédias nacionais dos incêndios para os políticos se envergonharem
de pouco ou nada fazerem.”
A confirmar o valor do castanheiro e
do seu fruto, o douto autor do Prefácio da obra - Telmo Verdelho - apresenta
uma longa explanação sobre o valor da castanha na alimentação e, sobretudo,
percorre a Literatura Clássica (evocando, Ovídio e Virgílio) e Portuguesa,
passando por várias épocas e escritores, ao ponto de citar uma Ode de
Filinto Elísio. Um belo Prefácio para ser lido como um rito de passagem
comungado pelo prefaciador, a quem Barthes designa como voz - off (do sujeito e
do autor) e pelo leitor. Telmo Verdelho termina este saboroso e eloquente
umbral, desta forma: ”Fiel à herança da memória antiga, recebida ainda na
juventude, e aos valores e tradições que instituíam as nossas comunidades
rurais, Jorge Lage teve a inteligência de quanto era importante a preservação
desse espólio antigo e quase perdido da nossa civilização. Dedicou-se com
solicitude e esclarecida indagação à recolha da memória ainda viva ou ainda
recuperável; coligiu toda a informação «scibile» abrangendo a produção, o
trânsito comercial e alimentar, e ainda todo o enquadramento cultural e
metassocial.
Prosseguindo a sua demanda de
salvaguarda cultural, promove agora (feliz ideia!) a publicação desta antologia
testemunhal de depoimentos pessoais, ouvidos, vividos e recontados para
celebrar o legado e fazer prova de herança. Vai ilustrada por nomes
prestigiados de escritores e intelectuais. Tem verdade, tem arte, tem emoção,
alguma nostalgia, bastante saudade e um justificado louvor aos nossos pais e à
terra onde começámos a ver o mundo. Honra lhe seja feita!”
Assim, esta Antologia poderá ser um
documento-doação para as gerações mais novas onde, um dia, poderão ter acesso a
um manancial de dados raros devidamente testemunhados e elucidados com imagens.


O Sr. Doutor está um bocado vaidoso da sua Antologia da Castanha vir na grande Revista Lusófona!! , mas não admira nada - são duas grandes Obras idealizadas e elaboradas por gente transmontana, a bem dizer...
ResponderEliminarMuito bom artigo, sobretudo por podermos admirar o excelente percurso do autor, o que é bom para quem colaborou na antologia, através do convite sugestão da Manuela Morais, da editora Tartaruga, e fica assim a saber e a valorizar mais a dimensão humana e cultural do notável organizador. Parabéns aos dois, e mais obras!
ResponderEliminarExcelente apresentação da Obra e seu Autor, que deixa o potencial leitor, mui ávido da leitura do livro e de saborear uma apetitosa receita com castanhas...
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