| ANTÓNIO MAGALHÃES (em Sheffield) |
Porque precisarão essas pessoas de um repelente para emigrantes?
Que tal, na eventualidade de não encontrarem
um, começarem a procurar um repelente para idiotas? Untem-se com ele. Pelo
menos servir-lhes-ia de menos embaraço.
4 de Janeiro de 2000
A minha dor de emigrante
começou muito antes de o avião da TAP Air Portugal ter aterrado no aeroporto de
Manchester, no Reino-Unido.
Talvez um dos mais
sofridos sentimentos de um emigrante seja a saudade, e essa, eu comecei a
senti-la no preciso momento em que tive de abraçar a família para um adeus até
breve.
As minhas lágrimas
misturaram-se com as deles e as palavras pouco percebíveis, foram curtas e
abafadas, moldadas pelo sufoco do nosso choro.
Sofri a dor de emigrante
no preciso momento em que abracei e beijei os meus pais e lhes tive que dizer
adeus.
Quando segurei a minha
querida mulher nos meus braços, suavemente a apertei contra o meu peito e sem
forças para que eventualmente pudesse expressar as palavras, despedimo-nos num
abraço silencioso, longo e triste.
Mas a dor que ainda mais
me ficou gravada nos pensamentos, foi a do meu filho mais velho, nessa altura
com pouco mais de 7 anos de idade, quando na hora da despedida se retirou com a
bola que chutava vezes sem conta, contra a parede da casa, no quintal de trás,
mostrando dessa maneira o quão dolorosa estava a ser para ele a despedida, tão
dolorosa que não sendo capaz de a enfrentar, encontrou na bola e nas vezes que
a chutou contra a parede da casa, uma maneira de lhe escapar. E eu no topo das
escadas, a fazer um esforço quase sobre-humano para que ele não notasse na minha
voz o quanto eu sofria ao dizer adeus.
“Pronto Miguel, já vou…”
“Ta bem pai…adeus…”
E nem sequer levantou a
cabeça, fixando os olhos na bola, mas não a vendo, sei que não a via. Chorava
por dentro, e isso, conhecendo-o tão bem como eu o conheço, foi a constatação
do quanto ele sofria naquele momento de despedidas.
Essa imagem ficou-me
gravada no pensamento e com ela, e por causa dela, não consegui conter as
lágrimas que me não largaram os olhos desde Felgueiras até ao aeroporto de
Sá-Carneiro e de lá até Manchester, Reino-Unido.
Comecei a amar o meu
país, o meu povo, a nossa cultura, as nossas qualidades e os nossos defeitos,
com muito mais intensidade quando no processo de adaptação a uma nova realidade
comecei a dar o verdadeiro valor a tudo isso que sempre me rodeou e eu sempre
dei por garantido.
Comecei a sentir um
enorme orgulho de ser Português, de pertencer à estirpe dos Heróis do mar (eu
que nem sequer sei nadar muito bem) quando pessoas de outros países, que não só
o Reino-Unido, me falam tão bem do nosso país, do nosso povo, na maneira
amigável que temos em receber outras gentes, outras culturas, da nossa comida,
da nossa história como país com mais de 800 anos de existência.
Mas também um enorme
orgulho pela aceitação que temos como trabalhadores nos vários países para onde
emigramos, pela integração, pela confiança que em nós e no nosso trabalho
depositam, pela reputação que com o nosso esforço árduo continuamos a dar ao
nosso povo e ao nosso país. Mas também sei que não há regra sem exceção.
Tudo isto é ser
emigrante, e tudo isto se pode resumir numa única palavra chamada, “Saudade”.
Esta palavra carrega nos
ombros, a família, os amigos, as iguarias, os lugares, os cheiros, as cores, os
sons, as alegrias e as tristezas. Esta palavra carrega nos ombros a nossa
identidade como portugueses que somos.
E por tudo isto e muito
mais, venha o Agosto ou qualquer mês do ano e vem o emigrante ao aconchego do
lugar que o viu nascer, das pessoas que amamos, dos sítios pelos quais ansiamos
um ano inteiro, e não há repelente que nos afaste daquilo a que temos direito,
porque também nos pertence.
Vou a caminho de vinte
anos em Inglaterra. Comecei como muitos emigrantes. Do nada, quase sem ninguém.
Sem saber falar a língua, sem conhecer a cultura, às vezes sem saber para onde
me virar.
Mas também como muitos
outros emigrantes, herdei a fibra dos Heróis do mar e fui à luta, e trabalhei
arduamente, sabendo bem que, muitos dos meus amigos e familiares que nunca
emigraram, também eles sempre trabalharam muito para que, apesar das
vicissitudes da vida, com a nossa ajuda de emigrantes, e com a deles, os que
ficaram por terras lusas, Portugal possa ser a pátria que todos amamos.
Tive a sorte, mas também
a coragem de tudo fazer para trazer a minha querida e os meus filhos para junto
de mim. E também nessa altura pude ver neles o exemplo de coragem e de luta, de
vontade de vencer e seguir em frente, enfrentando todas as dificuldades de
quaisquer princípios.
Tive uma enorme admiração
pela coragem dos meus filhos (como qualquer filho de emigrante) quando tiveram
que se apresentar numa escola onde não conheciam ninguém, onde ninguém falava a
língua da qual eles eram capazes nessa altura, de comunicar. Da coragem e
determinação da minha querida esposa em se adaptar a uma nova realidade, ela
que ama de alma e coração, Portugal.
Todos sofremos, mas
fizemo-lo com o apoio incondicional com que juntos enfrentamos o dia a dia e as
suas dificuldades.
Depois de tanta luta,
tanto sofrimento, porque parece assim tão difícil de entender para algumas
pessoas, muito poucas apesar de tudo, acredito, que o mês de Agosto seja para
nós um mês de alegria, de comunhão e confraternização com aqueles que nos são
queridos e por quem passamos o ano todo a morrer de saudades.
Porque precisarão essas
pessoas de um repelente para emigrantes? Que
tal, na eventualidade de não encontrarem um, começarem a procurar um repelente
para idiotas? Untem-se com ele. Pelo menos servir-lhes-ia de menos embaraço.
Ser emigrante é tudo o
que vos falei e mais ainda.
É ter sempre um enorme
receio de atender o telefone quando a chamada vem de Portugal. É ter medo de
notícias que desejaríamos nunca ouvir. Como aquela que recebi numa manhã de
segunda feira quando do outro lado da linha a voz sentida e triste da minha cunhada
me disse, “O teu pai foi-se embora”.
E já lá vão mais de dez
anos e eu continuo a ser incapaz de me referir ao assunto sem que as lágrimas
me invadam os olhos, e esta mesma pontada no peito continua a ser sentida tal
como nesse dia.
“E foi-se embora para
onde, senhor António? Por onde anda você?”
Foi tão dolorosa a
notícia e, no entanto, eu no fundo sabia que ela viria a qualquer momento, só
não estava, como nunca estive, preparado para essa cruel realidade.
“O teu pai foi-se
embora…”
E o que eu chorei desde a
estacão de Byfleet até Woking, e de lá até ao aeroporto de Heathrow.
Como foram longas as
horas que eu tive de esperar até apanhar o avião para Portugal.
Sempre de cabeça baixa
para que não me vissem as lágrimas que eu não conseguia de maneira nenhuma
conter, e em certos momentos a não conseguir controlar um sufoco , uma saudade
de não poder nunca mais falar com o meu pai, eu que tinha ainda tanta coisa
para lhe dizer.
A minha amiga Milita
enviou-me uma mensagem para o telemóvel, desde Sheffield. “Força amigo, os
nossos pensamentos estão contigo neste momento difícil.”
E eu que parecia uma
criança vulnerável a tanto sofrimento, a tanta dor provocada por perda e
saudade, a chorar por vezes em desespero, pela crua realidade do acontecimento.
Também isto é ser
emigrante.
Nos meus princípios em
Inglaterra foi uma luta para me adaptar a esta nova realidade tão diferente da
que eu estava acostumado. A barreira da língua era um desafio que eu sabia que
tinha por todos os meios de vencer.
Os inícios são sempre
difíceis, especialmente para quem começa quase a partir do ponto zero, por
isso, nem havia tempo nem condições para frequentar um colégio onde pudesse
aprender a falar inglês, na minha opinião, uma das condições primordiais de
qualquer emigrante que assenta vida no país para onde se deslocou. É muito
importante saber comunicar com as pessoas, e não menos importante ainda é estar
preparado para que elas comuniquem connosco também. Por isso, a minha
estratégia foi forçar a conversa com colegas de trabalho, ver e estar atento à
televisão, em especial as notícias da BBC, fazer um esforço no sentido de ler
jornais, revistas ou livros, e aos poucos a escola da vida foi-me preparando
para aquilo que eram as minhas intenções. No entanto, muitas vezes, de maneira
natural, por vezes misturo algumas palavras numa conversa em português,
inglesas. Não o faço para me exibir, muito embora, tente sempre evitar esse
facto. Mas para quem se esforçou tanto para aprender do nada um novo idioma,
para quem agora passa mais horas a comunicar em inglês do que em português, não
vejo onde esteja a dificuldade de se aceitar com normalidade que, em
Inglaterra, na França, na Suíça, na Alemanha, ou qualquer outro país de onde
venha o português que emigrou, incomode assim tanto o tal sotaque vagabundo.
As palavras, escritas ou
faladas, tem um poder muitíssimo mais forte do que muita gente disso tenha
noção. Quem as utiliza, especialmente quem as utiliza publicamente, deveria ter
um cuidado redobrado ao pronunciá-las ou ao escrevê-las.
De qualquer maneira,
todos nós temos num ou outro momento da nossa vida, atitudes que mais tarde nos
poderão provocar um certo embaraço. Depois do mal feito nada adianta chorar sob
o leite derramado, e como se diz em inglês...” Let’s just move on…”
Um forte abraço a todos
os emigrantes.

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