
por Santana Castilho* - no Público
Ponto prévio: estamos melhor ou pior do que estávamos
em 2015? Genericamente melhor. Mas seria admissível outro cenário, depois de um
governo PS ter levado o país à falência e um governo PSD/CDS ter infligido aos
cidadãos sacrifícios e perdas nunca vistas?
O meu ponto é que a avaliação certa é a que resulta,
não da comparação do que tínhamos com o que temos, mas do que temos com o que
poderíamos ter, se as opções tivessem sido outras.
O programa com que o PS se apresentará às eleições
legislativas de 6 de Outubro tem 141 páginas e muitas promessas (56% de aumento
do investimento público, menos impostos para a classe média, aumentos para os
funcionários públicos em 2021, vales para óculos e tratamentos dentários,
combate feroz à corrupção, reforma eleitoral e muitos comboios). Na
impossibilidade material de analisar o caudal de promessas em detalhe, no
espaço limitado desta crónica, cinjo-me a dois comentários, a saber:
1. O programa glosa os êxitos da governação de Costa e
alimenta-se em permanência da chama milagreira de Centeno. Mas importa moderar
a euforia, porque há outros ângulos de visão. Por exemplo, Mário Centeno e a
imprensa em geral festejaram recentemente os números revelados pelo Instituto
Nacional de Estatística: um excedente orçamental de 0,4% no fim do 1º trimestre
do ano em curso. O ministro das Finanças invocou então muitos indicadores de
sucesso e atribuiu o êxito à dinâmica da economia e do mercado de trabalho. Só
que a alegoria do copo meio cheio ou meio vazio convoca os mais atentos para a
outra realidade: o celebrado saldo orçamental consolidado das diferentes
administrações públicas (cerca de 318 milhões) foi obtido por via do aumento
(em cerca de 356 milhões) das dívidas ao sector privado! Por exemplo, no
martirizado Serviço Nacional de Saúde, a dívida aumentou no período em apreço
cerca de 150 milhões, cifrando-se na bonita soma redonda de mais de 650
milhões.
E de que dinâmica do mercado de trabalho fala Centeno?
Dados do INE, de Dezembro de 2018, mostram que o salário médio mensal líquido
dos trabalhadores do sector privado é de apenas 896€, 34,6% recebem entre 600€
e 899€, 21,9% ganham menos do que o salário mínimo nacional e cerca de 103 mil
recebem menos de 300€ líquidos mensais. Por outro lado, um inquérito recente
conduzido pelo INE mostrou que a taxa de risco de pobreza, mesmo depois de
considerados subsídios e pensões, subiu de 42% em 2015 para 45,7% em 2017.
É politicamente sério e intelectualmente honesto
omitir a divulgação destes dados, subtraindo ao juízo dos eleitores estas
realidades?
2. No que à Educação respeita, temos um dilúvio de
intenções palavrosas, na senda futurista do decantado século XXI, ficando sem
tratamento os grandes problemas que prejudicam o bom funcionamento das escolas
públicas. No meio de tanta promessa rosa, o mais importante e que maior impacto
terá na vida dos professores, disse-o de fininho António Costa, em modo do que
um padrasto reserva aos enteados que não suporta: António Costa e o PS querem
libertar-se da despesa inerente às progressões das carreiras especiais. Ou
seja, do mesmo passo que Costa já permitiu o aumento dos salários dos juízes e
procuradores, de modo a que um procurador do Ministério Público com apenas 2
anos de serviço passe a receber 4.336€ mensais, acrescidos de um subsídio de
compensação de 885€, pago 14 vezes ao ano e isento de IRS,
preparem-se os
professores para a revisão em baixa da carreira que Maria de Lurdes
Rodrigues começou a destruir. Aqui temos, por fim, o grande líder a assumir
o que ultimamente andava a ganhar corpo e teve professores, inocentemente (ou
talvez não), como primeiros lançadores de conveniente barro a convenientes
paredes. Se a riqueza gerada pelos magos de sucessos nunca vistos não chega
para acudir aos bancos todos, nem a blindagem dos contratos das rendas imorais
pagas aos senhores feudais das pontes, das autoestradas e das energias permitem
renegociá-los, rasgue-se sem problema o que foi assinado com os professores,
que 1.133,37 euros de salário líquido, depois de vinte anos de casa às costas,
é coisa de luxo.
*Professor do ensino superior


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