sábado, 1 de setembro de 2018

Centenário do “Terror Vermelho”: violência só pode gerar mais violência

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José MilhazesOBSERVADOR


Na Rússia, o ano de 1918, há 100 anos, ficou marcado por uma série de acções violentas contra qualquer tipo de oposição, contra qualquer greve ou manifestação anti-bolchevique.

No dia 2 de Setembro de 1918, o Comité Executivo Central dos Sovietes (CECS), órgão supremo da ditadura bolchevique imposta menos de um ano antes na Rússia, decretava oficialmente o “terror vermelho” como resposta ao “terror branco”. Porém, o terror comunista começara antes, precisamente no momento em que Vladimir Lenine e os seus comparsas tomaram o poder no país, menos de um ano antes.
Segundo Iakov Sverdlov, presidente do CECS, essa decisão foi uma resposta ao atentado armado contra Vladimir Lenine, que o feriu gravemente, e o assassinato de Moisei Urittzki, dirigente da TCHEKA (Comissão Extraordinária, polícia política soviética), de São Petersburgo. Os ataques foram obra de socialistas revolucionários que dessa forma protestavam contra as repressões bolcheviques.

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Embora os bolcheviques tenham suspenso a pena de morte no dia a seguir ao golpe de Estado de 25 de Outubro/7 de Novembro, essa decisão nunca foi respeitada, pois, segundo os novos senhores da Rússia, a revolução tinha de se saber defender. Por isso, já em Dezembro do mesmo ano, são criadas comissões extraordinárias de combate à contra-revolução, que passaram a ser dirigidas por Felix Dzerjinski.
Lev Trotski, cujos seguidores em Portugal se apresentam como defensores de todas e mais algumas liberdades, foi um dos principais teorizadores do “terror vermelho”. No mesmo mês de Dezembro, ele anunciava: “Devem saber que, dentro de menos de um mês, o terror adquirirá formas muito fortes seguindo o exemplo dos grandes revolucionários franceses. Não só a prisão, mas também as guilhotinas irão esperar os nossos inimigos”.
Em 1920, o mesmo Trotski publicava a sua obra Terrorismo e Comunismo, onde fundamenta a política do “terror vermelho”. É de assinalar que este foi o único escrito deste líder bolchevique que mereceu rasgados elogios do seu mais directo adversário no interior do Partido Comunista da Rússia (bolchevique): José Estaline. Muitos dos conselhos de Trotski foram depois utilizados nas purgas estalinistas, nomeadamente contra os trotskistas.
Para alguns historiadores, o primeiro acto do “terror vermelho” ocorreu muito antes da proclamação da nova “justiça proletária”, mais precisamente da noite de 6 para 7 de Janeiro de 1918, quando dois deputados do Partido Constitucional Democrático (cadetes) foram assassinados num hospital prisional de São Petersburgo, onde se encontravam internados com tuberculose.
A 21 de Fevereiro de 1918, o Conselho de Comissários do Povo da Rússia publica o decreto “A pátria socialista está em perigo!”, que ordena “o fuzilamento no local do crime dos agentes inimigos, especuladores, assaltantes, arruaceiros, agitadores contra-revolucionários e espiões alemães”.
Todo esse ano ficou marcado por uma série de acções violentas contra qualquer tipo de oposição, contra qualquer greve ou manifestação anti-bolchevique. Em Agosto de 1918, Vladimir Lenine, outro mentor da actual extrema-esquerda portuguesa, exigia perentoriamente: “Realizar terror em massa e implacável contra os kulakes [camponeses ricos], sacerdotes e guardas-brancos; os duvidosos devem ser fechados num campo de concentração fora da cidade”.
Logo a seguir, Felix Dzerjinski e Vladimir Lenine propõem fazer reféns entre a nobreza e a burguesia, justificando essa medida como forma de travar a “contra-revolução” e garantir o não emprego da força pelos adversários políticos.
Essas medidas eram de tal forma cruéis e ilegais que foram alvo de críticas de alguns dirigentes bolcheviques, mas Lenine tinha respostas para tudo e todos: “Raciocino de forma clara e categórica: é melhor mandar para a prisão algumas dezenas ou centenas de instigadores, culpados ou inocentes, conscientes ou inconscientes, ou perder milhares de soldados vermelhos e operários? O primeiro é melhor. E que me acusem de todos os pecados mortais e das violações da liberdade: eu reconhecerei ser culpado, mas os interesses dos trabalhadores vencerão”.
A onda de terror vermelho provocou uma resposta dos sectores anarquistas e socialistas revolucionários, que já tinham grande experiência terrorista na luta contra o czarismo. A socialista revolucionária Fanni Kaplan declarou, antes de ser fuzilada, que, ao disparar sobre Lenine, pretendia vingar a dissolução da Assembleia Constituinte pelos bolcheviques, acrescentando: “Disparei contra Lenine porque o considero um traidor. Por ele viver muito é que a chegada do socialismo será adiada várias décadas”.
Leonid Kanneguisser, membro do Partido Operário Popular-Socialista, justificou o assassinato de Uritzki para se vingar da morte de um camarada seu às mãos da TCHEKA.
Quanto ao número de vítimas do “terror vermelho”, é difícil calculá-lo. Alguns estudiosos falam em centenas de milhares, enquanto outros apontam vários milhões.
A máquina repressiva não parou, pelo contrário, continuou sem descanso. Depois dos “inimigos de classe”, chegaria a vez dos “fraccionistas”, “desviados”. Por isso, muitos dos carrascos do “terror vermelho” foram depois liquidados pelas purgas estalinistas.

P.S.: Alguns adeptos da teoria da conspiração e do anti-semitismo acusam os judeus de terem sido os autores principais do golpe de Estado comunista na Rússia, o que não passa de uma das muitas tentativas de caluniar esse povo. Apenas fica aqui um exemplo: eram também judeus os dois terroristas que atentaram contra a vida de Lenine e de Uritzki (o primeiro tinha alguns judeus entre os antepassados e o segundo era filho de pai e mãe judeus). Kanneguisser declarou: “Sou judeu. Eu assassinei um judeu-vampiro, que bebia, gota a gota, o sangue do povo russo. Eu tentei mostrar ao povo russo que Uritzki não é um judeu para nós. Ele é um traidor. Matei-o na esperança de restabelecer o bom nome dos judeus russos”.

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