segunda-feira, 7 de março de 2016

Sobre “Memórias e Divagações” de João de Deus Rodrigues


Por: Costa Pereira - Portugal, minha terra. 

O jornal Poetas & Trovadores, suspendeu a publicação no fim de 2015. No seu ultimo número, desabafava, em editorial, o seu proprietário e director: “Escrevo esta crónica nostálgica no dia de Natal de 2015. Talvez seja o editorial mais desolado de quase 63 anos de jornalismo. Iniciei-me em 24 de Janeiro de 1953. Raros foram os dias em que não escrevi, fosse o que fosse. Quase sempre para reivindicar justiça, solidariedade e paz social. De pouco me valeu, pela vida fora, este frémito que os poderosos usam e abusam para espezinhar, cada vez mais os indefesos, os inválidos e os famintos….”. À volta do acontecimento já escrevi a seu tempo, hoje o motivo, ainda que evoque  o nome jornal, é outro; tem a ver com uma mensagem pessoal que recebi ontem, dia 06, do meu amigo e ilustre confrade, João de Deus Rodrigues, onde desta forma se lamentava : “Boa noite caro amigo.
Acabei de receber o texto desta crítica literária, escrita para o Jornal Poetas e Trovadores, que o director dr. João Barroso da Fonte se esqueceu de publicar no último número do jornal, relacionada com o meu último livro de poesia. Desculpem-me a imodéstia, mas quero partilhá-la com alguns amigos por quem tenho especial consideração e amizade, e me têm acompanhado nas minhas escritas, ao longo dos anos. Com as minhas desculpas pelo incómodo, apresento os meus respeitosos cumprimentos”. Depois de ler e apreciar a critica feita pela distinta crítica literária, Professora Júlia Serra, decidi tomar a liberdade de divulgar o trabalho em post. Aí vai:

“João Rodrigues organiza o seu livro em “Memórias” e “Divagações”, contendo cada uma das partes trinta e um e trinta e três poemas, respetivamente. A conjunção coordenativa copulativa “e” desfaz a aparente dicotomia que os dois nomes abstratos poderiam, eventualmente, fazer pressupor. Na realidade, e tal como A. M. Pires Cabral explicou no prefácio, estas duas funções em epígrafe são complementares: “ As duas coisas acabam porém por não ser contraditórias, mas complementares” (p.5) . O poeta ao evocar a sua memória, na companhia de muitas testemunhas que podem conferir algumas dessas coordenadas de tempo e de lugar, está, por um lado, a desafiar a plenitude da sua vida e, por outro, a revelar a fidelidade às raízes que pretende incorporar nos poemas, como garante de identidade de um espaço e de um tempo. Esse tempo, hoje privilegiado para a criação poética e palco para as suas recriações no espaço real e metafísico trabalhado pelo imaginário.
Não se trata, portanto, de uma obra superficial, mas de poemas nascidos da profundidade emocional de um eu desperto para o mundo em que o pulsar das memórias contribui para reforçar laços familiares, como os poemas à filha ou à mãe:” Mãe, o teu colo era tão doce e acolhedor/Quando me sentavas nele,/”(p.13), relembrar os lugares da infância: Recordações da minha escola primária (p.69) e descrever o cenário da aldeia, em contraponto com o da cidade: “Gosto da minha cidade!/ Gosto da minha cidade, e por isso emprestei-me a ela/”(p.16) A cidade acolheu-o, mas a aldeia está nas suas veias, emociona-o e desperta-lhe as emoções primordiais: “Apetece-me o silêncio das pedras/O cheiro da terra/O brilho das estrelas/E o perfume das serras”(p.16).
            O poeta é, antes e sobretudo, “filho das fragas” (p.16. As origens e o passado cruzam-se com as mundividências do presente, assim como o espaço citadino é, por vezes, a alavanca intertextual do espaço rural. Cada poema tem uma história e são esses pedaços de vida que constroem a tessitura poética de memórias e divagações. Há uma unidade, aparentemente inconciliável, mas, de facto, bem entrosada, nestas duas partes constituintes da obra. São as memórias que despoletam as divagações e, por seu lado, estas desaguam sempre no mesmo cais memorial; por isso, em “Divagações” surgem: aves “o melro de pena branca na asa”, cânticos à terra e à gente transmontana “o berço de um néctar divinal”(p.106), orações aos  santos da sua devoção ”Oração à Senhora da Agonia(91), pobres que mendigavam o pão: “Chegavam e batiam às portas uma vez por ano./ Eram tão certos como as andorinhas na Primavera”/. (p.131),mas aparecem também locais citadinos do presente, evocando o Tejo, os pastéis de Belém ou até factos bem recentes, mais de índole política, referindo a chegada da Troika “A chegada de ‘’ET’’ modernos “(p.84).
Saliento, no entanto, os poemas “As palavras” e “o poema que não quero escrever” - os dois últimos textos do livro. O primeiro é um hino às palavras: “ É com palavras que se descreve/ Tudo aquilo que existe no mundo.” (p.134). São/foram essas mesmas palavras evocadas por Torga e Eugénio de Andrade. Em Mudez, Torga dizia:” E todo o santo dia me rasguei/À procura não sei/De que palavra, síntese ou imagem!”, Eugénio de Andrade referia-se à sua natureza: ”São como um cristal,/as palavras./ Algumas, um punhal,/um incêndio./Outras,/orvalho apenas.” Pelas palavras o poeta eterniza-se, grava-se, gravando-as em “papiros, mausoléus e catedrais”(p.134) mas são essas mesmas palavras que ferem e amam de uma forma mais direta ou metaforizada. O segundo poema “O poema que não quero escrever” acaba por ser escrito, e é muito esclarecedor, quando o sujeito poético diz: “Não sei. Eu não quero usar palavras/Sem carácter e sem mensagem e harmonia,/Para escrever um poema sem amor,/E sem beleza e fantasia…”(p.136).  Num passo mais adiante acrescenta: ” Porque um poema só é poema,/Quando é escrito com amor”/(p.136). Ora esta é a verdadeira chave da poesia de João Rodrigues - escrever com amor - se não sentir o pulsar da emoção e da harmonia, as palavras não saem perfeitas.
Trata-se de um livro de aparência e formato simples, com um interior duplamente rico, quer pelas mensagens poéticas, quer pelas ilustrações que acompanham alguns poemas. A tríade constituída por João Rodrigues, Pires Cabral e pelo ilustrador Luís Manuel Pereira contribuiu para que a obra encarnasse a simbologia do número três – um número que exprime uma ordem intelectual e espiritual.
O poeta aqui transcende o efémero, abrindo caminho para a inteligibilidade do real e do imaginário, trabalho esse que cabe ao leitor desvendar, através de múltiplas leituras.  - Júlia Serra”.


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