quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Uma poupa no meu quintal



Por : Costa Pereira -
Portugal, minha terra. 


 A vida citadina por norma oferece-se aos seus habitantes condições sociais que os residentes da aldeia não desfrutam. Mas em contrapartida os aldeões gozam de privilégios que só as zonas rurais têm para oferecer. A flora e a fauna são parte desses privilégios, que com o tradicional património sócio-económico, cultural e humano, faz da aldeia um paraíso terreal. Lembro-me dos primeiros anos de adolescência passados na minha aldeia e da aprendizagem adquirida acerca dos utensílios agrícolas, dos nomes das plantas e dos animais domésticos e selvagens. Assim como da perda desse conhecimento que um prolongado afastamento desse meio ambiente acaba por gerar em nós. Com uns sete ou oito anos não havia pássaro, nem ninho que não soubesse identificar, desde a águia do Marão ao pica-peixe do Cabril.
Mas a troca das margens do Tâmega pelas do Tejo resultou no perder de vista o voo da rainha das aves para me acostumar ao das citadinas gaivotas. Daí que sempre que posso saio da cidade e vou até à capital do barro leiriense, onde procuro gozar um pouco da liberdade que a vida do campo nos oferece, e observar o que embora raro ainda por vezes se vê. Foi ontem, dia 23, que dei com um pássaro no meu quintal  que há muitos anos não via: uma poupa. É ave que dantes gostava de ver, mas não de mexer porque tinha fama de fazer o ninho com detritos mal cheirosos de animais. Só mais tarde vim a saber tratar-se de uma calunia como todas as que levantaram contra as corujas e os mochos, de que dizem iam de noite ás igrejas beber o azeite das lamparinas, quando na verdade iam era lá caçar insectos. Também a poupa (Upupa sp.) que em Portugal pode ser observada em todo o território continental e no arquipélago da Madeira recebeu por ignorância do povo um rótulo que como podem ver não lhe assenta bem: “A principal característica dos ninhos das poupas, construídos em cavidades de árvore, é talvez o seu cheiro fétido, extremamente desagradável. O mau cheiro não se deve a falta de higiene no ninho, pois é sabido que a fêmea o limpa cuidadosamente de todos os detritos, mas representa uma estratégia contra predadores. A fêmea e os juvenis desta espécie possuem uma glândula uropigial, capaz de segregar o líquido responsável pelo mau cheiro, que é expelido em caso de ameaça”. Fica uma resenha desta ave que dizem os entendidos: “algumas populações são nómadas, porem o seu estatuto de ave residente ou migratória é ainda indefinido”.

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