segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Cântico ao AMOR - Poemas de Manuela Morais


Texto de Cláudio Lima - Poeta
Publicado no Jornal AS ARTES ENTRE AS LETRAS, 10  fevereiro 2016 - página 9
Regista a poesia portuguesa muitos cânticos de/ao amor. Em diversos ritmos e rimas, nos mais variados modos e níveis de o sentir e conceber. Poemas refletindo o embevecimento contemplativo da pessoa amada ou as vagas impetuosas da paixão, consoante a pulsão erótica de corpos e almas que lhes dão suporte e sentido.
Manuela Morais publicou recentemente, na editora Tartaruga, que criou e mantém ativa desde 1991, um livrinho a que deu o título de Cântico ao AMOR. São 33 poemas breves, de verso curto e fluído onde, com delicada sensibilidade, evoca os dois grandes amores de sua vida: primeiro Fernão de Magalhães Gonçalves, (1943/1988) o malogrado poeta e escritor subitamente falecido em Seul (Coreia do Sul) em cuja universidade se encontrava como leitor de língua e cultura portuguesas -; depois José Manuel Espiga Pinto (1940/2014), consagrado escultor, pintor, desenhista e medalhista, com quem partilhou muitos afetos, sonhos e cumplicidades entre Vila Viçosa e o Porto, em idas e voltas de trabalho, lazer e convívio. Começa por inserir dois poemas que o Fernão lhe dedicou, onde podemos ler: "nome feito à unha / tábua da cama / com um cristo na cruz por testemunha" ou "neste poema concreto vai / apenas um beijo o / desejo de / contigo correr entre os silvedos (...)". Depois, como epígrafes, os dois conhecidos sonetos "Amor é um fogo que arde sem se ver" (Camões) e "Eu quero amar, amar perdidamente" (Florbela). Segue-se um esboço biográfico (O Sinalagma do Amor) em que M. Verdelho recorda a menina e moça que em Murça se apaixona pelo jovem professor e assim inicia uma aventura que será intensa e extensa, "pelo mundo em pedaços repartida". Finalmente, num curto Prefácio, Pedro Teixeira da Mota simbolicamente alude à dança entre os irmãos Eros e Anteros "dança entre o amor irradiado e o amor correspondido".
Duas palavras sobre a poesia da autora. Muito segura e autêntica na expressão da felicidade plena,  conquanto efémera; na reconstituição de uma cartografia de vivências, partilhas e perdas nela aflorada recorrentemente. "Desenhaste no meu coração / lagoas luminosas, / uvas douradas pelo sol / nas raízes do amor / em / construção." (pág.23); "Ensina-me um coração alegre / e generoso / como o teu. // Ensina-me a semear abundantemente / o amor, / com júbilo, / no mais profundo do meu ser." (pág.37); "Mostra-me o tempo / de escutar a respiração / do teu corpo / sobre o meu / das tuas mãos vestido, (...)" (pág.42); "Não tenho mais palavras / gastei-as a chamar-te, / quase enlouquecida / de sentir-te / e não poder tocar-te. // Hoje o que sei dizer / faço-o em versos / para recordar-te." (pág.53)
Por estes pequenos excertos se pode constatar o quanto para a Autora a poesia funciona como instrumento catártico e apaziguador; espécie de escudo e refúgio contra o desespero e a revolta. Se o mundo é absurdo (Camus); se a vida nos surpreende negativamente, cerceando sonhos e ideais, sejamos fortes contra a adversidade, transferindo estados de alma negativos para estádios elevados de confiança numa força que nos supera e nos conduz, conscientes dessa "admirável harmonia do universo", com "nossos luminosos corpos / prodigiosamente atraídos / pelo divino construtor." (pág.49)
Apesar de algumas nuvens intercalares e tenebrosas, a poesia de Manuela Morais é luminosa.

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