segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Cântico ao AMOR de Manuela Morais

Texto de Júlia Serra - Professora e crítica literária
Publicado no Jornal "Poetas e Trovadores", 31 de Dezembro de 2015, página 10.


Esta obra evoca as várias dimensões do amor vivido pelo sujeito poético, num tempo em que, agora, se transformou em saudade metafísica.
Lembrando Camões e Florbela Espanca que ora cantaram o Amor de uma forma intensa e arrebatada ora, através de metáforas e de interrogações retóricas, questionavam os efeitos de tão profundo sentimento, a poetisa relembra o seu passado e presta homenagem aos dois eternos companheiros - Fernão de Magalhães Gonçalves e Espiga Pinto - com quem partilhou o "verdadeiro amor,/símbolo de continuidade e regeneração." (p.27).
Esse sentimento grandioso e sublime surge associado a expressões corporais - o olhar, os dedos, as mãos, o peito, o coração - para reforçar a entrega total de um ser ao outro: "As tuas mãos/ nas minhas mãos/ reflectem o sol." (p.26); "O teu corpo/ dentro do meu corpo/ vai semeando no caminho" (p.28). Esta fusão de sentimentos, contemplando, em nome do verdadeiro amor, a dor da separação dos amados, remete-nos para a súplica de Eros junto de Zeus, lutando pela paz no Olimpo. Assim, o sujeito lírico aspira, em vários poemas, a esse reencontro final com o "tu", desmistificando os mistérios do transcendente e do Além. A poetisa que se identificou com a lua, cedendo o luar para o masculino: "Eu sou a lua./ Tu és o luar,/ a harmonia/ do rio transbordante/ de vida." (p.30), revela-nos que prezava a tranquilidade neste percurso vivencial, mesmo na qualidade de sombra, de dependência perante o luar (o outro) que a encaminhava sempre para o desabrochar da vida.
A nomeação dos elementos da natureza, quer na sua forma líquida quer sólida - caso da água, mar, rio/terra, flores - contribuem para uma maior união das emoções vividas, sugerindo fusão, uma espécie de ponte para a outra margem, a de lá: "Conta-me esses mistérios/ de circundar a esfera celeste,/ deslizar na faixa brilhante,/ e os novos aromas/ que trazes para o nosso quarto,/ quando me vens acordar." (p.52), pois cá, através da memória e dos sentidos, sente o aroma que ficou e, agora, perfuma o quarto que ambos partilharam no "nosso quarto". A dialética temporal agudiza uma certa melancolia ínsita nestes poemas, resquícios de reminiscências que os espaços ajudaram a preservar e que, numa conjugação de categorias espaço-tempo, permitem eternizar o Amor. Há poemas que, pela evocação do circundar, de busca, sugerem um primeiro tempo de amor vivido; enquanto outros semantemas nos remetem para outro tempo. Neste "entre" o sujeito lírico confessa muito ter aprendido com o "tu" e reconhece que está mais completa com essas aprendizagens: "Estou mais completa/ muito de ti em mim,/ algo de mim em ti,/ para um dia me encontrares" (p.53). Uma espécie de preparação para o reencontro final, lembrando Saturno e Vénus; desprendida da corrente da vida; qual Vénus se entrega ao verdadeiro deus! Ela que sempre seduziu, espera, nesta atitude catártica, prepara-se para o caminho das estrelas, o mesmo céu que traçou o seu Destino: "O céu/ do teu destino/ marca/ o compasso do meu" (p.41) - ambos ficarão eternos pelo Amor, razão pela qual este sentimento aparece personificado na capa AMOR (em maiúsculas). O título é, assim, o resultado desta mundividência em que o real e o esoterismo se juntam, em jeito musical.
Nesta relação triádica, o feminino surge como equilíbrio artístico entre escrita e pintura, como aliás, o livro testemunha: na capa, um desenho de Espiga Pinto, no interior da obra, poemas de Fernão de Magalhães Gonçalves e, no ser total, a chancela da Tartaruga Editora. Ao terminar a obra, o sujeito poético, depois de tantas palavras efusivas sobre a recordação do Amor verdadeiro, mostra-se despojado de tudo e apenas aguarda o momento final: "Escrita/ pintura, nada interessa,/ (...) Digo-te, amor,/ para me vires buscar." (p.53).
O AMOR aqui "cantado" por Manuela Morais espelha o brilho musical dos instrumentos evocados nos lexemas "escrita" e "pintura" que se lhe cravaram na alma como o cheiro na pele; esse mesmo brilho há-de conduzi-la às estrelas, quando a noite vier.

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