Entrevista de Klaus Regling ao jornal Público. Recomenda-se.
Já foi dado como potencial sucessor a Jean-Claude Trichet na
presidência do BCE, embora a Alemanha não o queira perder da liderança do Fundo
Europeu de Estabilidade Financeira. Figura despercebida, homem da confiança da
chanceler alemã, Klaus Regling é, há pouco menos de um ano, o ‘tesoureiro dos
aflitos’.
Director do fundo de ajuda aos países em dificuldades na zona
euro desde Julho, este alemão de 60 anos que foi conselheiro de Angela Merkel
entre 2008 e 2009 é o rosto do veículo de ajuda que está a ser desenhado para
Portugal no âmbito do fundo de socorro aos países em dificuldade na zona euro
fundo (FEEF ou EFSF, na sigla convencionada internacionalmente).
Antes de Portugal pedir socorro, Regling dizia estar pronto para
o accionar. E voltou a repeti-lo agora com mais detalhe: dez dias depois de a
“troika” formada pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu (BCE) e Fundo
Monetário Internacional (FMI) definir finalmente o montante e as condições do
plano de ajuda, estará pronto para avançar com o programa.
Regling assumiu a liderança do FEEF como o seu primeiro director
quando muitas questões estavam em aberto sobre o futuro do fundo. A Grécia
tinha sido socorrida pela União Europeia em Maio, fora do quadro de ajuda do
FEEF, e cuja criação foi decidida nesse mesmo dia.
A The Economist elogiava-lhe na altura o currículo. Sobre ele
escreveu que o passado profissional recomendava um nome como o de Regling para
um programa essencial, dizia a revista britânica, para assegurar a assistência
financeira de emergência na zona euro num momento de crise.
Passou décadas entre Washington, Berlim e Bruxelas, a saltar
entre funções governativas na Alemanha e gabinetes do FMI e da Comissão
Europeia.
No ano em que termina o mestrado em Economia (1975), na
Universidade de Regensburg, já formado em Hamburgo, vai para Washington como
investigador e economista do FMI. Cinco anos mais tarde, regressa a Berlim e
por mais cinco aqui fica: primeiro, no departamento económico da associação de
bancos alemães (durante um ano) e, depois, como economista no Ministério alemão
das Finanças, onde voltará mais tarde, em 1991.
Pelo meio, regressa ao FMI, como responsável pela divisão
internacional de mercados de capitais – e, aqui, trabalha em Washington e em
Jacarta, quando está com o dossier dos países africanos e asiáticos.
A aproximação ao círculo de Bruxelas dá-se, precisamente, nos
oito anos em que passará por três departamentos do Ministério alemão das
Finanças: nos anos 1990, é uma peça fundamental na criação do Pacto de
Estabilidade e Crescimento (PEC) – uma exigência alemã para aderir ao euro.
O FEEF de Regling
Um interregno de dois anos em funções governativas, como
analista do Moore Capital Strategy Group, dá-lhe tempo para depois voltar aos
corredores da UE. Desta vez, já não como responsável da Alemanha, mas com
assento na Comissão Europeia. Regling passa a director-geral dos Assuntos
Económicos e Financeiros, assumindo a pasta durante oito anos, até passar a
consultor da chanceler alemã através de um comité de avaliação de políticas
financeiras.
É depois disso que fica com a direcção do fundo criado na União
Europeia. O modelo grego inspirou a ajuda que depois Regling coordenou à
Irlanda. E já depois disso, as incertezas quanto ao futuro de uma Europa a
lidar com os países periféricos a lutarem contra a crise da dívida soberana,
Regling viu adiadas para Junho deste ano medidas para flexibilizar o FEEF,
enquanto já se acerta o mecanismo que vai substituir o actual fundo de ajuda em
2013.
Ao mesmo tempo, tem sido colocado na lista dos potenciais
candidatos para presidir ao BCE, quando Jean-Claude Trichet terminar, em
Outubro, o mandato de oito anos. A favor teria o facto de ser alemão (depois de
Weber se afastar da corrida), mas Berlim quer assegurar o lugar no FEEF e
contra si joga também o facto de nunca ter sido governador de um banco central.
Reformas em troca de
assistência
“A estratégia adoptada para preservar a estabilidade financeira
na zona euro funciona. Isso não quer dizer que todos os problemas estejam
resolvidos. Mas o euro, enquanto tal, não está em questão”, dizia Regling numa
entrevista publicada no início da semana passada simultaneamente nos jornais
Irish Times (irlandês), La Tribune (francês) e Der Standard (austríaco).
A Irlanda foi socorrida já neste quadro de ajuda – em que a
assistência do fundo é negociada entre o país e a Comissão Europeia, o BCE e o
FMI – e Portugal terá o pacote de assistência definido antes de uma
flexibilização, previsivelmente em Junho, do actual fundo – visto entre os 17
do euro como a tábua de salvação dos países em dificuldades.
Em Março, os Estados-membros assumiram um acordo de princípio
que estabelece o reforço da capacidade efectiva de empréstimo do fundo de 220
mil milhões de euros para 440 mil milhões de euros.
Como a Grécia e a Irlanda, Portugal terá de assumir
compromissos, já que os programas de assistência financeira concedidos aos dois
países resgatados foram accionados para permitir o equilíbrio, a prazo, das
finanças públicas desses países. A contrapartida é o cumprimento de um plano de
austeridade negociado com os governantes. Planos “draconianos”, como corre na
imprensa internacional: descidas dos salários, redução das pensões, aumento da
carga fiscal e restrições às contratações e cortes na função pública.
Dizia há dias Regling, falando do “período particularmente
difícil” que a Europa atravessa na zona euro: “A Grécia fez grandes progressos,
mas tem ainda mais anos [em que vai precisar de aplicar medidas de
austeridade]. A mesma coisa na Irlanda. Portugal conhece uma batalha política
interna. Veremos se pede ou não assistência. Se o fizer, estaremos preparados
[para accionar o programa de emergência] ”.
Portugal pediu e o FEEF está pronto. O montante estimado por
Bruxelas ronda os 80 mil milhões de euros, e será Klaus Regling que os irá
reunir, quando o valor ficar finalmente definido, através de dotações dos
Estados-membros do euro e do FMI. Uma estratégia, como diz, que serve para
autonomizar as três economias tidas como as mais frágeis da moeda única e assim
evitar o contágio a outros países da zona euro.
Pode ainda ler em:
de_resgate_do_euro_ve_mais_2_a_3_anos_de_ajustamento_para_portugal.html
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