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| Murillo - A Fuga para o Egipto |
José, esposo da Virgem e pai
alimentício de Jesus, é fugazmente mencionado em três dos Evangelhos canónicos.
Marcos ignora-o. Os evangelhos apócrifos, especialmente o Proto-Evangelho de Tiago e a História
de José, o Carpinteiro, escritos coptas do século IV, colmataram esta
lacuna com detalhes pitorescos, retirados de episódios do Antigo Testamento.
Mais tarde transcritos e acrescentados na Lenda
Dourada[1].
Nestas narrativas descobre-se a
estirpe davídica de Jesus que em nada se relaciona com a humilde vida de
carpinteiro de São José, fabricante de jugos, arados e ratoeiras. Apesar de
outra tradição menos difundida o assimilar a um ferreiro.
Teria mais de oitenta anos quando
se casou com a Virgem, com catorze[2]. A
natureza do seu matrimónio foi longamente debatida pelos teólogos medievais. Se
teria sido marido, se apenas protector da Virgem. Debate levado ao extremo
pelos Doutores da Igreja[3]. A
tradição, fundamentada nas narrativas apócrifas, atribuía-lhe numerosos filhos
da sua primeira esposa. Pelo contrário, Tomás de Aquino era de opinião que o
santo se havia mantido sempre casto.
Depois de acompanhar o Menino na
fuga para o Egipto, para o trazer, de novo, para Nazaré após a morte de
Herodes, desaparece de cena. Ignora-se a festa da sua morte. Contudo, uma
antiga lenda converteu-o num patriarca centenário. Supõe-se que terá morrido
antes da Paixão de Cristo, na medida
em que não está presente nas Bodas de
Caná e está ausente na Crucificação,
no Descimento da Cruz e no Sepultamento, concluído por José de
Arimateia.
Sobre São José não existem
relíquias pessoais. A figura de São José nem sempre foi bem amada. Na Idade
Média, ao mesmo tempo que se exaltava a Virgem, escarnecia-se de São José. Nos
autos sacramentais do teatro religioso, foi muito pouco respeitado. Chegou
mesmo a ser enxovalhado como um velho tonto[4].
Com o tempo converteu-se num dos
santos favoritos da devoção popular. Terá sido Jean Gerson, o conselheiro da
Universidade de Paris o seu maior promotor. Assim como a ordem das carmelitas
(servitas) e os pregadores populares. A sua festa foi introduzida entre 1471 –
1484, na liturgia da Igreja Romana pelo papa franciscano Sisto IV.
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| São José - Tecto da igreja de Gouvinhas - Alijó - Trás-os Montes e Alto Douro |
No século XVI, o dominicano
Isolano, popularizou em Pavia o relato apócrifo da Morte de José ao redigir um Sumário
dos dons de São José, a quem atribuiu os sete dons do Espírito Santo. A sua
popularidade expandiu-se após o concilio de Trento. Muito tarde. Embora se fale
em Belém de uma igreja, dedicada em sua honra, por Santa Helena no século IV e
se presuma que o seu culto nas igrejas orientais estivesse generalizado desde o
século IX. A sua festa foi introduzida no breviário romano no século XV por
Sisto IV, um século depois o grande impulso à devoção deste santo seria dada
por Santa Tersa de Jesus, por vários teólogos e imperadores, designadamente
Fernando III, Leopoldo I da casa de Habsburgo e pelo rei Carlos de Espanha. Em
1621, o papa Gregório XV instituiu a sua festa a 19 de Março, data em quem é
também celebrado o Dia do Pai.
As corporações que o
reivindicaram são as que estão associadas aos carpinteiros. Converteu-se no
patrono da boa-morte porque, como conta a tradição, Jesus havia-o assistido
durante a sua agonia e ter-lhe-ia enviado Gabriel e Miguel para recolher a sua
alma espreitada pelo demónio. Por isso era invocado pelos moribundos.
Na Idade Média, o casto esposo da
Virgem, era representado como um ancião de cabeça calva e barba branca. A
partir do século XVI foi rejuvenescido, aparentando a figura de um homem de
quarenta anos. Após a Contra reforma foi representado, ora como carpinteiro,
ora como pai alimentício de Jesus. No primeiro caso tem como atributos os
utensílios do seu ofício: uma serra, um esquadro, um machado e uma plaina. No
segundo caso é reconhecido pela vara florida que alude à sua vitória sobre os
pretendentes da Virgem, transformada em caule de lírio, símbolo do seu
matrimónio virginal.[5]
Juntamente com a Virgem da Imaculada Conceição, é o tema preferido de Murillo.
Armando
Palavras
Costa Pereira
Aconselha-se a leitura deste site
E, já agora, um poema de António Passos Coelho (Materrial Humano, ed. Grémio Literário, Vila Real), outro de Miguel Torga ( Diário I ( 1941) ), ainda outro de Silvio Teixeira e um extracto da Ilíada, de Homero.
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| Miguel Torga |
Bucólica
A vida é feita de nadas:
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De grandes serras paradas
À espera de movimento;
De searas onduldas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora havia
Nos beirais
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma videira
Como uma mãe que faz a trança à filha.
Miguel Torga, Diário I ( 1941)
Com São José, o Pai é lembrado,
Pelo menos uma vez por ano,
Por seus filhos sempre adorado,
Da família é o decano.
O nosso pai devemos respeitar,
Por ser bem o nosso progenitor,
Neste dia há que manifestar,
O maior e mais profundo amor.
Saber o nosso pai honrar,
Dever de consciência,
Todos os dias saudar,
Com grande permanência!
Ave Pai,
Eu te adoro tanto!
Sílvio Teixeira
VILA REAL - PORTUGAL
[1]
VORÁGINE, Santiago, op. cit., pp.
962-963.
[2]
Segundo Epifânio teria 89 anos. Alguns dos seus defensores como Jean Gerson,
opinavam que no seu casamento com a Virgem teria cinquenta anos.
[3]RÉAU, Louis, Iconografia
del arte Cristiano (Iconografia de los santos), Tomo 2, Vol 4, p. 163.
[4] Cf. Réau, Tomo 2, Vol 4,
p. 164-165.
[5] A
vara florida é também o atributo de Aarão, com quem José é muitas vezes
confundido.





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