quinta-feira, 6 de abril de 2023

A Última Ceia

                                 Pintura da nave da igreja matriz de Tabuaço - Douro


O relato da Paixão de Cristo é, nos evangelhos sinópticos, comprimido numa semana. Hoje, Quinta Feira, deu lugar à Última Ceia de Jesus com os doze.

A ceia é um dos momentos mais importantes da narrativa evangélica. É ela que institui um dos principais sacramentos da liturgia cristã: a Eucaristia[1].

Como era costume entre os judeus, Jesus e os seus discípulos dirigiram-se a Jerusalém para celebrarem a Páscoa[2].

Peter Paul Rubens, 1631
Nos relatos evangélicos (Math. XXVI, 20-29; Marc. XIV, 10-25; Luc. XXII, 14-23; Joh. XIII, 21-38) estão bem patentes três grandes questões: o anúncio da traição[3]; a instituição mística da Eucaristia, repetida no rito da missa católica e o adeus aos apóstolos, descrito por João (Joh. XIII, 31-38); aos onze que restam depois de Judas sair para cumprir a sua traição. O número de comensais não é preciso, depreendendo-se que apenas tenha sido realizada por Cristo e pelos doze apóstolos.

O episódio, segundo Louis Réau, deu origem a dois temas iconográficos distintos que classificou de “Ceia histórica ou narrativa” e “Ceia simbólica”, conforme os artistas privilegiaram a narração da traição de Judas, ou a instituição do sacramento da comunhão eucarística[4].

A arte bizantina ao representar a comunhão dos apóstolos reteve como aspectos fundamentais o simbólico e o litúrgico. A arte ocidental, pelo menos até à Contra-reforma, privilegiou o aspecto histórico do relato.

O número de apóstolos, a disposição dos comensais, o lugar ocupado por Judas, ou por Jesus, os atributos de Judas para o assinalarem com as piores qualidades humanas, variaram com o tempo.

Uma característica, porém, manteve-se. Além de Judas, o outro apóstolo destacado foi sempre João, normalmente representado junto ao peito do Mestre. Atitude apenas mencionada no Evangelho de João (XIII, 23) e imposta pela tradição, também confirmada na literatura apócrifa[5].

Armando Palavras



[1] O momento em que Jesus, simbolicamente através do pão e do vinho, oferece o seu corpo e o seu sangue aos apóstolos (Math. XXVI, 26-29; Marc. XIV, 22-25; Luc. XXII, 19-20). João, o mais simbólico dos evangelistas, é omisso quanto à Santa Ceia Sacramental.

[2]Em rigor, havia duas festas distintas: a Páscoa, que só durava um dia, e a Festa dos Pães Ázimos, que durava os sete dias seguintes.

[3]O relato de João, em certos detalhes, não coincide com os relatos sinópticos. Para Mateus, o traidor é o que mete a mão no prato. De acordo com Lucas é o que tem a mão sobre a mesa.

[4] RÉAU, Louis, Iconografia da arte cristã, Vol 5,  p. 409.

[5] No Livro do Descanso (42-45), Maria já próxima da morte, dirigindo-se a João o primeiro apóstolo a chegar, lembrou-lhe que Jesus o amara mais do que aos outros. Mais recentemente James D. Tabor, em A Dinastia de Jesus (A Esfera dos Livros, Lisboa, 2006, p. 301), refere outras tradições sobre Tiago, o Justo, conhecido na comunidade primitiva cristã como o irmão do Senhor, sustentadas pelo Evangelho de Tomé e pelo Evangelho dos Hebreus.


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