quinta-feira, 6 de abril de 2023

A Evolução e a Migração das Imagens - Maiestas Domini

 

Por MARIA da GRAÇA

 

A  Evolução e a Migração das Imagens - Maiestas Domini

Na arte bizantina, como vimos, o Pantocrator era normalmente representado a meio corpo e sozinho (como aparece nas pinturas das igrejas da Capadócia e em todas as igrejas bizantinas). E era representado nos remates das cúpulas e das absides, onde estavam ainda representados os apóstolos, os evangelistas ou os profetas. O tema terá evoluído para a deesis, onde entronizado era acompanhado principalmente pela Virgem e S. João Baptista (fig.6).

 Esta representação está disseminada por todo o Oriente. Podem dar-se exemplos vários como a deesis da igreja de Hagia Sofia, ou a do Mosteiro de Santa Catarina no Sinai. Espalhou-se por países como o Chipre, Bulgária, etc.

Da Capadócia, essa iconografia migrou para a Rússia nos séculos XII e XIII. O Pantocrator oriental evoluiu, no Ocidente, para o Cristo em Majestade.

Alguma historiografia ainda assume as características formais do Cristo Pantocrator, no Cristo Majestade, também Cristo no Trono ou Cristo em Glória. O Românico foi o responsável pela migração do Oriente para Ocidente destes tipos de Cristos, que passaram a ser representados tanto nas absides (sobretudo na pintura), como nos tímpanos dos portais dos templos (na escultura).

"Cristo em Majestade", "Cristo em Glória", ou "Cristo no Trono" são as atribuições que, no Ocidente, se coadunam mais com as passagens de Isaías (VI,1-4), Ezequiel (I, 1-28), Apocalipse (IV, 1-9), ou mesmo com o Pseudo Denys, o Aeropagita, n`A Hierarquia Celeste. Porque em termos formais apresentam características bastante diferenciadas do Cristo Pantocrator :

a) - Cristo é representado a corpo inteiro;

b) - Cristo é representado como rei e juiz, sentado no trono com os pés sobre um escabelo, segundo a profecia de Isaías:

1."O céu é o meu trono, e a terra escabelo dos Meus pés." (Is 66, 1).

c) - Normalmente, Maiestas Domini insere-se numa mandorla, configurando a glória do céu num espaço reservado a Deus ou aos seus símbolos. 

d) - A mandorla, também denominada "amêndoa mista", onde está incrustado Cristo em Majestade, está, a maioria das vezes, rodeada pelos símbolos dos quatro evangelistas o que corresponde à descrição do Paraíso no Apocalipse:

"Vi um  trono no Céu no qual Alguém estava sentado. O que estava sentado era, na aparência , semelhante à pedra de jaspe e de sardónio; e um arco-íris rodeava o trono, semelhante à esmeralda. (...) no meio do trono e em redor do trono, quatro viventes cheios de olhos por diante  e por detrás. O primeiro era semelhante a um leão; o segundo, a um touro;  o terceiro tinha um rosto como que de um homem, e o quarto era semelhante a uma águia em pleno voo." (Ap 4, 2-3 e 6-7);

e) - Por vezes , Cristo no trono encontra-se rodeado pelas hierarquias celestes, profetas, santos e mártires.

...(...) 

ARMANDO PALAVRAS

In  REVISTA  DA LUSOFONIA


O Românico Rural Português

 

Nos princípios do século XII, na Península Ibérica existiam três reinos cristãos (Galiza, Leão e Castela, Aragão e Navarra) e os condados catalães e o Portucalense. O resto do território estava sob o domínio dos Almorávidas. Grande parte da Península Ibérica continuava, portanto, dominada pelos Mouros, numa fronteira que alinhava por Santarém, seguia até Uclés, subia à fronteira do reino de Navarra e Aragão, descendo para a linha de fronteira dos condados catalães.

O período em que se desenvolveu o românico rural em Portugal, coincide com o período condal e com Afonso Henriques em pujança, já à frente dos destinos do futuro país: Portugal.

Dom Henrique, conde da Borgonha, foi um dos muitos estrangeiros que integraram os exércitos de Afonso VI, rei de Leão, Castela e Galiza, envolvidos na luta da Reconquista. A Dom Henrique que vem a casar com Dona Teresa, filha do monarca, foi-lhe concedido o governo de um território situado entre o Rio Minho e o Vouga que, a partir de 1096, se estenderia entre os rios Minho e o Tejo: o Condado Portucalense.

https://www.calameo.com/read/00587320296
160a7883ed


Após a sua morte , Dona Teresa assume a regência, mas a sua aproximação a Fernão Peres de Trava, fidalgo galego, não agrada nem à nobreza nem ao povo por ameaçar a integridade do Condado. Coube a Dom Afonso Henriques encabeçar a revolta derrotando o exército de sua mãe, Dona Teresa, na célebre batalha de São Mamede em 1128 . (sobre estes primeiros tempos, da primeira tarde portuguesa, cf. José Mattoso e Barroso da Fonte).

No contexto do românico rural português, com as suas especificidades sociopolíticas e económicas regionais, bem como as suas limitações técnicas, as representações incluem-se, nas últimas três atribuições. Ou seja, em torno do tema dominante da Maiestas Domini, na forma de Cristo entronizado em glória, obedecendo ao mesmo esquema simplificado, apesar de apresentar algumas variantes compositivas.

Em Portugal, registam-se cinco tímpanos axiais com representação de Cristo em majestade. Um no centro do país e quatro no Norte, acima do Rio Douro: Em São Salvador de Bravães (Ponte da Barca); São Pedro de Rates (Póvoa do Varzim); São Pedro em Rubiães (Paredes de Coura) ; São Salvador do Mundo (Carrazeda de Ansiães) ;  e um outro que se encontra deslocado, atualmente, na capela-mor da igreja paroquial de Sepins (Cantanhede, Coimbra), adossado à parede do lado da Epístola.

(...)...

Armando Palavras


SÃO SALVADOR DE BRAVÃES (PONTE DA BARCA)

 

Um dos exemplos primaciais é o tímpano da igreja rural de São Salvador de Bravães, datado do século XII e que constitui um dos mais relevantes exemplos desta iconografia.

Foi fundada por Dom Vasco Nunes, rico-homem da entourage de Dom Afonso VI de Leão e Castela. Ali se terão instalado, no início, os monges beneditinos, aí colocados por Afonso Henriques, sob a protecção directa da Ordem do Templo. Já no século XIII seriam substituídos (por problemas de renda) pelos prósperos monges de Santo Agostinho. A igreja que ali se encontra teria sido fundada em 1125. Contudo, boa parte da sua estrutura e ornamentação teria sido concluída a partir de 1187, já sob iniciativa do prior Egas Menendiz. A sua conclusão teria andado pelo ano de 1220, por mestres desconhecidos. Embora contenha um dos programas iconográficos mais ricos das igrejas românicas de Entre Douro e Minho, o interesse deste ensaio prende-se apenas com a iconografia do portal principal.

Como nos diz Paulo Pereira, o tímpano principal, é preenchido pela representação do Cristo em Majestade, sentado no trono, incrustado numa mandorla deformada, amparada por duas personagens sem auréola (Fig. 11). E, como Jorge Rodrigues, aponta para esses "acólitos", os nomes de  São Paulo e de São Pedro, os pilares da Igreja.

Na verdade Maiestas Domini está inserido num portal reentrante de arco pleno. E se os mestres românicos se caracterizavam pela sua liberdade, também estavam sujeitos aos programas iconográficos dos encomendadores e às fontes que lhes eram apresentadas. Cluny desenvolveu programas que exportou e repetiu os seus modelos ao longo dessa grande via de intercâmbio de gentes e ideias que foi o Caminho de Santiago.

As duas personagens que seguram a mandorla do tímpano de Bravães são dois anjos. A falta de erudição dos mestres contribuiu para que os não  identificassem devidamente. O desgaste do tempo teve, neste caso, consequências. As fontes existem. Compare-se o tímpano de Bravães com o lintel marmóreo de Saint- Genis - De -Fontains nos Pirenéus franceses, datado entre   1020 e 1021[1]Evoca as iluminuras dos primeiros manuscritos medievais, pelo recurso às linhas simples do desenho do rosto, nas pregas dos panejamentos e na decoração ornamental, num estilo que recua ao período hiberno-saxónico. ...

(...)             Armando Palavras


[1] Onde é percetível a “mandorla deformada”, que é tão só a junção de dois círculos com raios diferenciados – um maior que o outro.


Sem comentários:

Enviar um comentário

A Linguagem Simbólica da Natureza - A flora e a fauna na pintura seiscentista portuguesa

«O ensaio de Sónia Talhé Azambuja […] constitui um dos pontos altos desta fase amadurecida de estudos sobre a Natureza Morta portuguesa do s...

Os mais lidos