Por MARIA da GRAÇA
A Evolução e a Migração das Imagens - Maiestas Domini
Esta representação está disseminada por todo o
Oriente. Podem dar-se exemplos vários como a deesis da igreja de Hagia Sofia,
ou a do Mosteiro de Santa Catarina no Sinai. Espalhou-se por países como o
Chipre, Bulgária, etc.
Da Capadócia, essa iconografia migrou para a Rússia nos
séculos XII e XIII. O Pantocrator oriental evoluiu, no Ocidente, para o Cristo
em Majestade.
Alguma historiografia ainda assume as características
formais do Cristo Pantocrator, no Cristo Majestade, também Cristo no Trono ou
Cristo em Glória. O Românico foi o responsável pela migração do Oriente para
Ocidente destes tipos de Cristos, que passaram a ser representados tanto nas
absides (sobretudo na pintura), como nos tímpanos dos portais dos templos (na escultura).
"Cristo em Majestade", "Cristo em
Glória", ou "Cristo no Trono" são as atribuições que, no
Ocidente, se coadunam mais com as passagens de Isaías (VI,1-4), Ezequiel (I,
1-28), Apocalipse (IV, 1-9), ou mesmo com o Pseudo Denys, o Aeropagita, n`A Hierarquia
Celeste. Porque em termos formais apresentam características bastante
diferenciadas do Cristo Pantocrator :
a) - Cristo é representado a corpo inteiro;
b) - Cristo é representado como rei e juiz, sentado no
trono com os pés sobre um escabelo, segundo a profecia de Isaías:
1."O céu é o meu trono, e a terra escabelo dos Meus
pés." (Is 66, 1).
c) - Normalmente, Maiestas Domini insere-se numa
mandorla, configurando a glória do céu num espaço reservado a Deus ou aos seus
símbolos.
d) - A mandorla, também denominada "amêndoa
mista", onde está incrustado Cristo em Majestade, está, a maioria das
vezes, rodeada pelos símbolos dos quatro evangelistas o que corresponde à
descrição do Paraíso no Apocalipse:
"Vi um trono no Céu no qual Alguém estava
sentado. O que estava sentado era, na aparência , semelhante à pedra de jaspe e
de sardónio; e um arco-íris rodeava o trono, semelhante à esmeralda. (...) no
meio do trono e em redor do trono, quatro viventes cheios de olhos por
diante e por detrás. O primeiro era semelhante a um leão; o segundo, a um
touro; o terceiro tinha um rosto como que de um homem, e o quarto era
semelhante a uma águia em pleno voo." (Ap 4, 2-3 e 6-7);
e) - Por vezes , Cristo no trono encontra-se rodeado
pelas hierarquias celestes, profetas, santos e mártires.
...(...)
ARMANDO PALAVRAS
In REVISTA DA LUSOFONIA
O Românico Rural Português
O período em que se desenvolveu o românico rural em
Portugal, coincide com o período condal e com Afonso Henriques em pujança, já à
frente dos destinos do futuro país: Portugal.
Dom Henrique, conde da Borgonha, foi um dos muitos
estrangeiros que integraram os exércitos de Afonso VI, rei de Leão, Castela e
Galiza, envolvidos na luta da Reconquista. A Dom Henrique que vem a casar com
Dona Teresa, filha do monarca, foi-lhe concedido o governo de um território
situado entre o Rio Minho e o Vouga que, a partir de 1096, se estenderia entre
os rios Minho e o Tejo: o Condado Portucalense.
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| https://www.calameo.com/read/00587320296 160a7883ed |
No contexto do românico rural português, com as suas
especificidades sociopolíticas e económicas regionais, bem como as suas
limitações técnicas, as representações incluem-se, nas últimas três atribuições.
Ou seja, em torno do tema dominante da Maiestas Domini, na forma de Cristo
entronizado em glória, obedecendo ao mesmo esquema simplificado, apesar de
apresentar algumas variantes compositivas.
Em Portugal, registam-se cinco tímpanos axiais com representação de Cristo em majestade. Um no centro do país e quatro no Norte, acima do Rio Douro: Em São Salvador de Bravães (Ponte da Barca); São Pedro de Rates (Póvoa do Varzim); São Pedro em Rubiães (Paredes de Coura) ; São Salvador do Mundo (Carrazeda de Ansiães) ; e um outro que se encontra deslocado, atualmente, na capela-mor da igreja paroquial de Sepins (Cantanhede, Coimbra), adossado à parede do lado da Epístola.
(...)...
Armando Palavras
SÃO SALVADOR DE BRAVÃES (PONTE DA BARCA)
Foi fundada por Dom Vasco Nunes, rico-homem da entourage
de Dom Afonso VI de Leão e Castela. Ali se terão instalado, no início, os
monges beneditinos, aí colocados por Afonso Henriques, sob a protecção directa
da Ordem do Templo. Já no século XIII seriam substituídos (por problemas de
renda) pelos prósperos monges de Santo Agostinho. A igreja que ali se encontra
teria sido fundada em 1125. Contudo, boa parte da sua estrutura e ornamentação
teria sido concluída a partir de 1187, já sob iniciativa do prior Egas
Menendiz. A sua conclusão teria andado pelo ano de 1220, por mestres
desconhecidos. Embora contenha um dos programas iconográficos mais ricos das
igrejas românicas de Entre Douro e Minho, o interesse deste ensaio prende-se
apenas com a iconografia do portal principal.
Como nos diz Paulo Pereira, o tímpano principal, é
preenchido pela representação do Cristo em Majestade, sentado no trono,
incrustado numa mandorla deformada, amparada por duas personagens sem auréola
(Fig. 11). E, como Jorge Rodrigues, aponta para esses "acólitos", os
nomes de São Paulo e de São Pedro, os pilares da Igreja.
Na verdade Maiestas Domini está inserido num portal reentrante de arco pleno. E se os mestres românicos se caracterizavam pela sua liberdade, também estavam sujeitos aos programas iconográficos dos encomendadores e às fontes que lhes eram apresentadas. Cluny desenvolveu programas que exportou e repetiu os seus modelos ao longo dessa grande via de intercâmbio de gentes e ideias que foi o Caminho de Santiago.
As duas personagens que seguram a mandorla do tímpano de Bravães são dois anjos. A falta de erudição dos mestres contribuiu para que os não identificassem devidamente. O desgaste do tempo teve, neste caso, consequências. As fontes existem. Compare-se o tímpano de Bravães com o lintel marmóreo de Saint- Genis - De -Fontains nos Pirenéus franceses, datado entre 1020 e 1021[1]. Evoca as iluminuras dos primeiros manuscritos medievais, pelo recurso às linhas simples do desenho do rosto, nas pregas dos panejamentos e na decoração ornamental, num estilo que recua ao período hiberno-saxónico. ...
(...) Armando Palavras
[1]
Onde é percetível a “mandorla deformada”, que é tão só a junção de dois
círculos com raios diferenciados – um maior que o outro.



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