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| Jorge Lage |
Advertidos pelo nosso Amigo Doutor Jorge Lage entendemos publicar este fragmento de Lagoaça- Loisas e outras Coisas, como está no manuscrito original, porque se apercebeu que as notas no volume tinham sido impressas erradamente.
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| José Veríssimo |
Muito semelhante à queima do velho, realizada no final de
cada ano, o entrudo era representado por um boneco que ganhava forma numas
roupas velhas, geralmente fardas militares descaraterizadas e cheias de palha.
A sua confeção começava nos dias antecedentes e as alanternas, a padiola, e
outras eram reaproveitamentos da celebração do enterro do Velho. Os figurantes
que transportavam o Entrudo iam mascarados com pinturas e normalmente
envergavam túnicas rústicas, feitas de sacos de serapilheira, roupas militares…
e pinturas. Também havia um texto pré elaborado e constava de uma retrospetiva
da vida picara do defunto, de quadras satíricas onde eram apontados os pontos
quentes da aldeia ou do país, bem como certos comportamentos menos felizes.
Exemplo:
Ó entrudo, ó entrudo,
de frio morreste teso,
com vinho afogaste as mágoas
e à crise escapaste ileso.
E já que agora é feriado
O governo assim o quis,
Hoje é o dia de finados
de um entrudo feliz.
E eu aqui de andarilho,
já farto de palmilhar,
casas e ruas a fio
sem moças para tiznar.
A pequenada voou,
rumou até à “terra do nunca”
e a escola que ficou,
agora é capela, defunta.
De ferrari ou de bengala,
de muletas ou de trotinete,
o Lar é a sala de aulas
p´ró brevet d`avionete.
...
Era grande a algazarra, toques de chocalhos, gritos de
“Entrudo, entrudo!”, bombas de carnaval, cinza, graxa, sei lá! Ah! E a
esporádica estocada na bota! Que não parava de circular. As paragens aconteciam
nos mesmos locais estratégicos onde, após breve alusão ao defunto, se iniciava
a leitura das quadras, com interrupções de gritos “Entrudo, entrudo!” e
chocalhadas após a leitura de cada uma. No final era uma nuvem de cinza para
todos os lados e continuava o cortejo. Na praça tinha lugar a tradicional
despedida e enquanto o entrudo ardia, soavam chocalhos, troavam bombas e gritos
ao Entrudo imolado. Durante o percurso do enterro costumava acompanhar os
figurantes um burro com umas alforjas carregadas de bolas de jornal, recheadas
de cinza e, alguns rapazes com pinturas e roupagens grotescas, tocavam
chocalhos e carregavam surrões[1]
improvisados também cheios de cinza (a farinha fazia falta para o pão) que era
atirada para os espetadores, estivessem na rua ou na janela, ao mesmo tempo que
gritavam em uníssono vivas ao entrudo. Algumas casas, onde havia moças
solteiras reunidas em grupo, eram simplesmente assaltadas. Aproveitando uma
janela, uma porta mal fechada, uma cumplicidade interna...Atingia-se o “harém”
e era um chinfrim de gritinhos num gato e rato à que mais se escondia para não
ser tisnada (Durante estas intervenções era utilizado o pó de arroz). Às vezes
chovia vassourada, arranhadelas... Mas eram os “ossos do ofício”. Durante a
semana seguinte eram o tema de conversa as recordações mais marcantes.
-... Bem certa é! “Aquele alma do diabo parcia que trazia o
diabo no corpo”, nad`ó detinha! Ai, mas levô que contar... Uma zpelina[2]
bem dada! - Na rua parcia que tinha parido a galega[3]!
E eu pus-me c`mum cipote[4]
c`uma bassoira detrás do postigo. Inda le dei ò da dianteira! - Aum ind`ó arrebunhei[5]
bem arrebunhado, mas tiznô-me toda!”.
Obs. Havia um certo estrato social que se mantinha à
distância. Não era de bom-tom.
[1]Saco de
tiracolo feito da pele de um cordeiro, tradicionalmente usado pelos pastores para
transporte da merenda.


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