JORGE LAGE
Notas da minha agenda (28) - Notícias de Mirandela
1. Livro Novo –– É com o título «A Arte da Talha em Terras de
Penaguião – Século XVIII», que o Investigador e Professor, Armando Palavras,
nos oferece mais uma obra, fruto da sua investigação em Terras Transmontanas e
Alto-durienses. O livro saiu da chancela da editora «5 Livros» (info@5
livros.pt), vocacionada para pequenas quantidades de exemplares. A editora, 5
Livros, na nota técnica cita, «os livros são o espelho da alma», da escritora
Virgínia Woolf (1882-1941), londrina, de Kensington. O bairro de Kensington
era, nessa altura povoado, entre outros, de irlandeses miseráveis. Segundo
Enric González, jornalista do «El País», no seu livro «Histórias de Londres»,
naquele bairro, a esperança média de vida eram 13 anos, apesar de ser a capital
do maior império coevo. E ainda há quem se indigne com um Portugal pobre de há
um século para trás, esquecendo um mundo com imensa pobreza, mesmo nos países
mais ricos!... Voltando ao sulco do novo livro de Armando Palavras, que já vai
no seu oitavo publicado, tem na capa um rico e belo retábulo-mor, da Capela de
Nossa Senhora dos Remédios, de Santa Marta de Penaguião.
A capa e contracapa
têm um fundo em tom cor-de-vinho e, nesta última pode-se ler: «Dessa actividade
construtora, interessa para este trabalho, apenas a que directamente está
ligada à retabulística; à talha dourada. (…) o presente trabalho incide apenas
na produção - mestres e oficinas. Muitos artesãos desconhecidos renascem». Em
suma, o livro, de 200 páginas, «A arte da talha em terras de Penaguião – Séc.
XVIII», dá-nos um estudo interessante das «Origens medievais» e «Organização
Administrativa Local em Setecentos», das «Igrejas». Santa Marta de Penaguião
que na «Introdução» refere que esta vila e sede de concelho com a organização
das paróquias, poder religioso, a terem em paralelo ou grosso modo, aos
municípios ou concelhos, se chamava de lugar do Pousadouro. No capítulo
seguinte descreve as igrejas de Santa Marta de Penaguião das localidades que
constituíam as Terras de Penaguião, e hoje se dividem com os concelhos de Mesão
Frio e Peso da Régua: Sever, Medrões, Fontes, Lobrigos, Moura Morta, Sedielos,
Fornelos, Louredo, Alvações do Corgo, Cumieira e Sanhoane. No terceiro
capítulo, «Peso da Régua», trata da retabulística das igrejas de Peso da Régua,
Canelas, Galafura e Godim. No quarto capítulo dedica-se às «Capelas»: de
Medrões (Sr.ª dos Remédios), Medrões (S. Pedro), de Santa Marta de Penaguião
(Sta. Marta), Sanhoane (S. Pio Mártir), Peso da Régua (Senhor do Cruzeiro),
Vila Real (Capela da Timpeira). Tem oito páginas de bibliografia e «Referências
a volumes anteriores», com textos fac-similados de Jorge Lage, Barroso da Fonte
e Júlia Serra. Saúdo a grande melhoria e dimensionamento das muitas imagens
fotográficas, comparativamente a obras suas anteriores, o que representa uma
valorização e melhoria desta última obra. Mas é da retabulística, entalhamento
e douramento que trata o autor nesta obra, aparecendo sempre em destaque os
artífices. Por exemplo, para edificação de dois altares colaterais, na Igreja
de Santo Adrião, de Sever, em 1731, a 25 de Março é feita a escritura pública,
sendo o contrato assinado na presença do abade, Diogo Barbosa Machado, pelo
mestre imaginário, Domingos Martins Fagundes, natural de Vilar, freguesia de
Sampaio, concelho de Vieira do Minho e comarca de Guimarães (p. 17). E da parte
da Igreja pelo juiz da Igreja de Sever, Caetano Manuel de Miranda Furtado. Era
definido o orçamento e forma de pagamento faseado, bem como o material a empregar
e até os pequenos acabamentos. Qualquer intervenção em pedra, talha, pintura ou
douramento era sempre objecto de escritura pública feito pelo tabelião ou
notário. Toda esta minúcia é um manancial para hoje se conhecer melhor a arte
sacra de setecentos, dos mestres, dos párocos, dos juízes e dos materiais
empregues. Ora tudo isto é como se um pequeno filme de curta-metragem tivesse
sido gravado e arquivado e o ilustre autor Armando Palavras o exibisse na casa
de cada um de nós, para nosso deleite e gozo e proveito cultural. É ainda um
acto cultural promocional que nos enriquece a nós leitores, às localidades em
que se fizeram as obras de arte sacra e à memória de quantos protagonistas nela
tomaram parte: Abades, artistas e artífices, juízes, pintores e demais
intervenientes. Hoje, os actores partidários das diversas fases do poder local
deviam ser obrigados a prestar provas culturais, de organização e de estratégia
de desenvolvimento para poderem ser incluídos nas listas candidatas. Isto,
porque se assiste à tomada de poder por alguma gente que apenas quer o poder e
não o desenvolvimento das localidades e o bem dos eleitores. Os meus parabéns a
Armando Palavras por este aturado e rigoroso trabalho produtivo em prol de uma
rica região empobrecida, em geral, pela manifesta falta de cultura e
sensibilidade dos actores políticos de hoje.
Jorge Lage


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