| António Vermelho do Corral (Antropólogo) Professor universitário |
E pessoas de um e outro lado conhecem-se.
E comunicam. E mesmo quando não existia a Ponte Sarmento Rodrigues, em Barca de
Alva, as comunicações, quer a pé, de automóvel ou de camionetas carregadas de
produtos os mais variados, principalmente agrícolas, atravessavam o rio numa
jangada construída com dois barcos rabelos.
Nem o rio nos separou. Um casal de
Lagoaça eram nossos (da minha família) vizinhos. Tinham uma loja onde
comprávamos alguns produtos.
Mas ainda conheci alguma pessoas de lá
quando illo tempore participava nos almoços anuais das festas
de Agosto convidado pelo Presidente da C. M. de então.
Na sua essência as culturas de um e
outro lado são próximas e têm muito de comum. O conteúdo do livro
transportou-me à minha já distante juventude. Foi interessante.
O livro de José Veríssimo tem toda a
oportunidade e pertinência na medida em que conseguiu, face à sua memória e
escolha de informantes válidos, trazer a lume usos, práticas, costumes que
enformaram a cultura das gentes do passado e que ele, recuperando-os, chegarão,
de certo, ao conhecimento das gentes jovens. É evidente que a Cultura não é
estática e sofre influências, as mais variadas, mas é imperioso que se não
ignore a sua génese, evolução e as razões das transformações.
À medida que as páginas se sucediam,
sentia-me recuar a um passado que vivenciei, com muita intensidade, e
tristemente sou levado a pensar como se perdeu tanto da cultura popular que não
conseguiu fixar-se para se transmitir.
Ora, o livro «Lagoaça, Loisas e Outras
Coisas» goza do privilégio de reposicionar a cultura do seu tempo: os mais
idosos rejuvenescem recuando nas memórias do tempo; os jovens farão uma
análise comparativa entre esse passado que não vivenciaram e o mundo
actual que os envolve.
Pelo menos, grande diferença notarão: a
solidariedade de então e o egotismo de hoje.
Acresce que o Prefacio é a porta dourada
da abertura do livro. Valorizando a enorme importância da oralidade longínqua e
próxima, citando exemplos de particular relevância, conduz-nos pelo labirinto
do livro, apontando os quadros com que teremos de nos confrontar
durante o percurso na sua leitura.
Esse Prefácio destaca-se sobremaneira
por dois factos sublimes, nobres e sensitivos: abre com a referência científica
à Apolo 8 e encerra com o nascimento de um ente querido – o seu irmão. Dois
quadros maravilhosos: um de cariz cósmico humanizado pelos astronautas, o outro
humanizado pelo renascer da vida.

Sem comentários:
Enviar um comentário