quinta-feira, 22 de agosto de 2019

LAGOAÇA, dos dois lados do rio...


António Vermelho do Corral
(Antropólogo)

Professor universitário
Lagoaça e o seu concelho e Mata de Lobos (a minha aldeia) e o meu concelho vivem separados apenas pelo rio Douro.
E pessoas de um e outro lado conhecem-se. E comunicam. E mesmo quando não existia a Ponte Sarmento Rodrigues, em Barca de Alva, as comunicações, quer a pé, de automóvel ou de camionetas carregadas de produtos os mais variados, principalmente agrícolas, atravessavam o rio numa jangada construída com dois barcos rabelos.
Nem o rio nos separou. Um casal de Lagoaça eram nossos (da minha família) vizinhos. Tinham uma loja onde comprávamos alguns produtos.
Mas ainda conheci alguma pessoas de lá quando illo tempore participava nos almoços anuais das festas de Agosto convidado pelo Presidente da C. M. de então.
Na sua essência as culturas de um e outro lado são próximas e têm muito de comum. O conteúdo do livro transportou-me à minha já distante juventude. Foi interessante.
O livro de José Veríssimo tem toda a oportunidade e pertinência na medida em que conseguiu, face à sua memória e escolha de informantes válidos, trazer a lume usos, práticas, costumes que enformaram a cultura das gentes do passado e que ele, recuperando-os, chegarão, de certo, ao conhecimento das gentes jovens. É evidente que a Cultura não é estática e sofre influências, as mais variadas, mas é imperioso que se não ignore a sua génese, evolução e as razões das transformações.
À medida que as páginas se sucediam, sentia-me recuar a um passado que vivenciei, com muita intensidade, e tristemente sou levado a pensar como se perdeu tanto da cultura popular que não conseguiu fixar-se para se transmitir.
Ora, o livro «Lagoaça, Loisas e Outras Coisas» goza do privilégio de reposicionar a cultura do seu tempo: os mais idosos rejuvenescem recuando nas  memórias do tempo; os jovens farão uma análise comparativa entre esse passado que não vivenciaram e  o mundo actual que os envolve.
Pelo menos, grande diferença notarão: a solidariedade de então e o egotismo de hoje.
Acresce que o Prefacio é a porta dourada da abertura do livro. Valorizando a enorme importância da oralidade longínqua e próxima, citando exemplos de particular relevância, conduz-nos pelo labirinto do livro, apontando os quadros   com que teremos de nos confrontar durante o percurso na sua leitura.
Esse Prefácio destaca-se sobremaneira por dois factos sublimes, nobres e sensitivos: abre com a referência científica à Apolo 8 e encerra com o nascimento de um ente querido – o seu irmão. Dois quadros maravilhosos: um de cariz cósmico humanizado pelos astronautas, o outro humanizado pelo renascer da vida.

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