sábado, 31 de agosto de 2019

A Lotaria - «Ventos de Guerra»

~~~ A Lotaria ~~~*
O medo é tão certo aqui
Como o calor no Verão.
E a morte, como já vi, 
Nunca perde a ocasião.
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Morrer aqui é tão certo
Como faminto ter fome,
Haver sol no do deserto,
E deserdados sem nome.
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Nesta terra de encantos
Onde o sol tem mais calor
Entre sorrisos e prantos
Bebem-se lágrimas de dor.
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Vamos ao sabor do vento,
Como folhas ressequidas,
Cientes que num momento
A dama nos rouba a vida.
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Vinda de leste, sul, norte,
Na bolanha, ou na picada,
Pode aparecer-nos a morte,
Com uma luxúria danada!
Uma subtileza de felino,
Olhos de um brilho tão forte
Que atraem os meninos
P’ra uma dança de morte.
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Eles meninos inocentes
Que nem rodopiar sabiam,
Viram-se, assim, de repente
Num baile onde morriam.
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Como um audaz ladrão
Agindo pela calada,
Aproveita a escuridão
Para deferir a ‘stocada.
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Numa mina escondida,
Camuflada na picada,
De uma bala perdida,
Ou estilhaços de granada.
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Por má sorte, ou só azar,
Ou qualquer outra razão
Noivas ficaram por casar,
Mil mães rezaram em vão.
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Fosse de noite ou de dia,
Na mata, ou por acidente,
Naquela maldita lotaria
A morte ganhava sempre.
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do Livro «Ventos de Guerra» Guiné 69/71

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