07.05.2019
A contagem do tempo de
serviço dos professores agitou o país nos últimos dias graças a um notável e
hipócrita número de teatro de António Costa que contou com o preconceito
generalizado em relação aos professores, a má imagem de Mário Nogueira, muita
falta de informação e, diga-se a verdade, muito jornalismo e
“comentarismo” mais focado no que parece e não no que realmente é.
A verdade é que ao
longo dos últimos dias temos ouvido todo o tipo de disparates sobre as
carreiras dos professores, tal como sobre o processo legislativo em curso, as
propostas dos partidos e muito pouco sobre as mentiras do governo e os
verdadeiros impactos da contagem do tempo de serviço.
Importa por isso
colocar os pontos nos “i´s” e desfazer alguns mitos pois sem isso é impossível partir
para uma discussão séria do problema:
António
Costa e Mariana Vieira da Silva mentiram na televisão
quando afirmaram que o Governo/PS nunca criou a expectativa de
reconhecer 9 anos. Fizeram-no sim e em pelo menos quatro momentos:
Declaração
de compromisso assinada com sindicatos da educação
no dia 18 de novembro de 2017.
Norma
incluída no OE2017 por iniciativa do PS.
Pela voz
da Secretária de Estado Alexandra Leitão no debate (15nov2017) sobre o
OE2018 na Educação.
A
versão do diploma aprovado na Comissão da Educação apenas garante aos
professores o reconhecimento dos 9 anosde tempo de serviço, e
deixa ao Governo o mandato para definir o modo, o
calendário e custos de como será feito.
Foram
os Deputados socialistas que nessa reunião da 7.ª
Comissão chumbaram os “travões” propostos pelo PSD e CDS
já depois de aprovados os 9 anos (no guião de votações estavam em
primeiro lugar). Se por essa razão o PSD tivesse chumbado o texto este
nunca subiria a plenário e “morreria” na especialidade. A votação em
comissão é feita artigo a artigo por todos os partidos e a votação do texto
final é sempre feita em Plenário. Desde esse momento que a intenção do PSD foi
sempre avocar esses “travões” na votação em plenário (fiz
vários tweets nesse sentido desde essa quinta-feira) esperando contar com a
responsabilidade do PS ou com a coerência do BE e PCP que aprovaram 4
Orçamentos limitados pelas metas do PEC e prometeram os 9 anos aos professores.
Foi com
os votos dos Deputados do PSD e do CDS que no mesmo diploma se chumbaram
os calendários propostos por PCP e BE em que o Estado assumia de imediato
prazos e custos sem limitações para recuperar os 9 anos;
Quanto
aos custos da reposição já aprovada de 2 anos, 9 meses e 18 dias importa
esclarecer que Mário Centeno anunciou esse descongelamento para 2019, disse
incluir essa verba no OE2019 mas, ao contrário do prometido, o Governo legislou
esse descongelamento adiando-o ao longo dos próximos 6 anos. A Comissão de
Educação encolheu essa progressão para 3 anos e cumpriu a promessa que Centeno
violou. Esse é o único compromisso orçamental que resulta desta votação.
Quanto
aos custos dos restantes 6 anos, já ouvimos várias versões de
Centeno: 600 milhões, depois 850 milhões e o último número foi superior a 1000
milhões a mais em cada ano, para sempre. Nada mais falso. Estas
contas estão falseadas e pressupõem que todos progridem, que não há
reformas, que não há redução de professores e de alunos. Por outro lado,
cria a ideia que, seja qual o for o número verdadeiro, que esta é uma despesa
fixa que fica para sempre, mas não, os 600 milhões é o acumulado ao fim dos 7
de anos em velocidade cruzeiro no orçamento da educação. Vejamos o racional dos
custos mais em detalhe com base num cálculo interno do Ministério feito
há praticamente dois anos e que desmente as próprias contas “oficiosas” para os
7 anos (o governo de António Costa não considera os 9):
200€ x 2,1 x 14 x 100.000 = 588M€ +
encargos sociais (seg social/CGA 23,75%=727M€, onde 200 = valor do salto médio
no decurso dos 7 anos, 2,1= número de saltos médios nos escalões durante o
período em causa, 14 – nº de sálario/ ano, 100.000 – nº de docentes total no
sistema Educativo à data do cálculo.
Apesar de serem a maior parte dos docentes
a progredir, nunca serão os 100.000 docentes do Quadro que o governo
contabiliza. Vejamos os números:
Este
cálculo tem 2 anos, o que significa que muitos docentes, entretanto se
aposentaram e que outros o irão fazer até a solução final estar implementada (o
sistema educativo tem cerca de 1000 aposentações/ano). Isto significa duas
coisas, que por um lado o nº de docentes é mais baixo fruto das aposentações
anuais e que neste momento há menos 2.500 docentes no Sistema
do que há 2 anos. Por outro lado, há um conjunto de professores que não irão
progredir mais pois já estão no último escalão (estima-se que sejam cerca de 5
mil). Só nestes cálculos temos menos 7.500 docentes que devem ser
retirados às contas de Governo.
O custo
dos 600M€ comunicado pelo Governo será um custo em velocidade cruzeiro, isto é, valor
acumulado depois de pago todo o tempo a recuperar. Exemplo mais simples e
pragmático: admitimos 10 anos como o período de faseamento a pagar a
recuperação do tempo congelado. Ora, tendo em conta o custo total de 600M€,
teríamos em média uma despesa de 60M€/ano como despesa adicional ao Orçamento
de Estado da Educação. Atente-se que à data de hoje (OE2019) o governo admite
50M€ de despesa adicional para pagamento das recuperações. Logo teríamos: 2020
- 60M€; 2021-60M€; 2022- 60M€…..2029 - 60M€, valor acumulado de 600M€. Nunca
seriam 600 milhões ao ano como o Governo quer fazer crer, mas sim no total dos
anos desta operação (10 anos). Importa ainda lembrar que as despesas com
pessoal na educação baixaram quase 190 milhões no último ano graças à saída de
professores.
Contudo,
não poderemos nem deveremos ler este valor (60 milhões) como valor estanque e
acumulado a somar ao Orçamento de Estado da Educação anual,
visto que o sistema educativo se vai naturalmente refrescar, isto é, grande
parte destes docentes iria passar à aposentação, sendo substituídos por docentes
mais novos e com 22h /semana de componente letiva disponíveis
e não 8h ou 12h/semana dos mais velhos, querendo com isto dizer que os
docentes novos teriam:
mais
horas letivas que os docentes que se aposentariam o que significa dizer
que seriam necessários menos docentes para conseguir facultar
as mesmas ou mais horas letivas ao sistema educativo;
por
outro lado, os docentes quando entram no sistema têm um custo de 1/3 quando
comparados com o custo dos docentes do quadro de escalões mais elevados. É
esta operação que reduz brutalmente os encargos.
Logo, as contas não
podem pura e simplesmente ser apresentadas como um custo de 600M€, este é o
custo bruto acumulado da operação, contudo, não deverão ser descuradas as
questões acima descritas e que farão com que o custo acumulado líquido tenha
uma outra leitura e uma outra dimensão, muito mais baixa do que aquela
que é propalada por diversas vezes pelo Governo.
Ao
contrário dos mitos repetidos pelos “tudólogos” da nossa praça:
os
professores não progridem na carreira de forma automática, para
além de permanecerem um número mínimo de anos no escalão – por norma, 4
anos –, para a progressão têm de ser avaliados e obter um mínimo de Bom, ou
seja, mais de 6,5 numa escala de 10, o que inclui no acesso aos 3.º e 5.º
escalões, avaliação a aulas assistidas, obter aproveitamento em formação
contínua creditada, pelo menos metade dela na sua área específica, cerca de 50
horas por módulo de tempo de serviço. Além disso, na avaliação há quotas de 5%
para Excelente e 20% para Muito Bom em cada escola. Para os restantes, e ainda
no acesso aos 5.º e 7.º escalões a progressão é depois condicionado a vagas que
são definidas anualmente pelo Governo através de uma Portaria
(vide portaria 29/2018 de 23 de janeiro https://dre.pt/home/-/dre/114561702/details/maximized). Ou
seja, não só a progressão não é automática como uma parte significativa dos
professores nem preenche os critérios para subir de escalão já que
muitos deixaram de fazer formações a partir dos congelamentos e outros não
conseguem avaliação suficiente;
as
carreiras dos professores foram congeladas pelo Governo Sócrates e
não durante o período da troika. Há, no entanto, uma divergência entre
sindicatos e governo a propósito do real período do congelamento.
nenhum
sindicato nem nenhum partido pediu ou exigiu o pagamento de salários
retroativos aos anos de congelamento.
os
professores não são apenas funcionários públicos pois pertencem a uma carreira
especial e são um corpo altamente qualificado que constitui a variável
com maior impacto no sucesso e qualidade do sistema educativo.
Importa também
esclarecer que uma coisa é a defesa dos professores outra coisa é sujeição aos
sindicatos, e o PSD não mistura as duas coisas. Se há partido e governo
que cedeu aos sindicatos foi o PS que, ao invés de pensar e reformar o
sistema que tem problemas graves conhecidos, envelhecimento, carreiras,
concursos, formação inicial e profissionalização, optou sempre por gerir o
momento. Isso foi muito claro quando em 2017 recuou perante os sindicatos
para a reestruturação do Estatuto da Carreira Docente, como condição prévia ao
processo de recuperação do tempo de serviço e até do descongelamento da
carreira, quando recusou o reforço da avaliação defendido pelo PSD e reverteu
as reformas que tinham permitido a Portugal melhorar resultados e a qualidade
do sistema tal como ficou provado no último PISA.
Curiosamente, António
Costa não se preocupou tanto quando adicionou ao Orçamento de Estado dos
próximos anos várias rubricas que essas sim têm encargos fixos e que agravam os
orçamentos:
165
milhões todos os anos em manuais escolares gratuitos;
Passagem
de toda a função pública das 40 horas para 35h (com custos brutais para o
Orçamento e sobretudo para a qualidade dos serviços de saúde e educação)
Cerca
de 100 milhões de euros para pagar a redução dos passes de transporte
(sobretudo de Lisboa e Porto)
Reversão
concessão da Carris e dos STCP que passam todo o investimento nos autocarros da
Lisboa e do Porto para o sector público quando havia privados com obrigações
contratuais para o fazer;
Redução
do IVA da restauração por puro eleitoralismo já que o sector se encontrava em
crescimento exponencial graças ao boom do turismo;
Reversão
fantasma e ideológica da privatização da TAP que levou o Estado a assumir mais
custos sem ter qualquer influência na gestão.
Feitos estes
esclarecimentos é a partir daqui que poderá ser feita uma discussão sobre a
maior ou menor justiça desta reposição do tempo de serviço dos professores. A
divergência sobre a iniciativa é legítima, mas torna-se injusta quando feita a
partir de pressupostos errados. Discutir este tema sem ter em atenção estes
dados é falar do que não se sabe e ficar apenas na dimensão ideológica e
retórica do problema, o que até pode ter piada, mas não é justo.
P.S.
Onde andará o ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues?





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