Em 1990, a editora Relógio D’Água (colecção
autores do Leste) teve a “ousadia” de publicar um pequeno volume de 120 páginas
de Varlam Chalamov: Os “Contos de Kolimá”. Daí para cá, ou seja, já lá vão 29
anos e vergonhosamente nunca mais houve em Portugal uma reedição dessa
extraordinária narrativa que retrata a frio o Grande Terror Estalinista. Estes
contos são um testemunho brutal de Varlam sobre aquilo que se passou no Gulag.
A editora 34 de São Paulo, ao longo do ano de 2015, veio
colmatar essa lacuna publicando, na língua portuguesa (do Brasil) os contos
completos em seis volumes, cerca de 2000 páginas, cujo 1º volume é traduzido
por por Denise Sales e Elena Vasilevich.
Os livros da 34 agora publicados no Brasil foram traduzidos
com base na edição integral russa, organizada cuidadosamente pelo próprio
autor.
Filho de um padre ortodoxo, Varlam Chalámov viveu os seus
primeiros 22 anos em liberdade e os quase 20 seguintes como prisioneiro
político em Kolimá, uma imensa mina de ouro. A trassa era o caminho que os
prisioneiros percorriam para alcançar os diferentes campos dispersos pela taiga.
São desertos gelados atravessados pelo rio Kolimá. Dois milhões de quilómetros
quadrados a leste do Lena, para os quais foram deportados cerca de dois milhões
de prisioneiros entre 1932 e 1957. Tanto Anne Applebaum em “Gulag”, como
Evguenia Guinzbourg, em “Le ciel de La Kolyma” o testemunham.
A este lugar Varlam chama “o desembarcadouro do inferno”. Num
dos seus contos descreve minuciosamente técnicas para conduzir um carrinho de
mão, de forma a economizar esforço. Quando os pelotões fuzilavam sem descanso
Varlam diz-nos: “Durante meses, de dia como de noite, por ocasião das chamadas
da manhã e da noite, foram lidas inúmeras condenações à morte. Com um frio de
cinquenta graus negativos, os prisioneiros músicos – de delito comum – tocavam
uma marcha antes e depois da leitura de cada ordem. As tochas fumegantes não
conseguiam atravessar as trevas e concentravam centenas de olhares nas folhas
de papel fino cobertas de gelo em que estavam inscritas as horríveis
mensagens”. Nas caves realizavam-se fuzilamentos; espaços onde 50 pessoas
ocupavam o lugar de 20 com direito a 200 gramas de pão diárias.
Kolimá é lugar de maldição e o rio que ali passa foi também
enchido pelas lágrimas dos condenados como no Cócito de Dante. Varlam não tem
dúvidas quando se refere a este local: “Recordar primeiro o mal, e o bem
depois. Recordar o bem durante cem anos, e o mal durante duzentos anos”. Após 20 anos recluso de Kolimá, os outros vinte anos seguintes, passou-os a escrever estes contos.
O volume lançado a publico pela Relógio D’Água, foi traduzido
do russo e prefaciado por José Milhazes. São 11 pequenos contos.
Inicia com Leite condensado, onde o autor do
conto é assediado com duas latas de leite condensado para fugir do campo de
concentração. Era comum alguém, combinado com os guardas, a troco de
privilégios (pagos com o sangue dos companheiros), levar ao engodo um grupo de
prisioneiros, para, de seguida, serem capturados e fuzilados.
À Noite, dois prisioneiros, desenterram um companheiro para lhe
tirarem a roupa, que ajudava a ultrapassar os 60º negativos!
Havia três saídas da mina de ouro: A primeira, as valas comuns
junto à montanha; a segunda, para o hospital, e a terceira, para a brigada de
Chmeliov, onde costumavam juntar a escória humana.
Andreiev sentiu, n’A conspiração dos juristas, a
incerteza dos companheiros agrupados para o fuzilamento.
Platonov, como Encantador de serpentes, teve a
sorte de se tornar “romancista”, evitando, assim, ser sufocado com toalhas,
protegido por Fedia e os seus capangas.
Berdi Onje, tornou-se no prisioneiro fugitivo, detectado pelo tenente
Kurchakov, na estação de Novossibirsk.
No Epifácio, Chalamov recorda alguns
companheiros, aprisionados ao abrigo do artigo 58 (que dizia respeito a crimes de carácter politico), que haviam falecido. Gente
que deu o couro e o cabelo pela Revolução e pelo regime e, no entanto, através
de gente sem carácter, aplicando política rasteira e manhosa, foi bater com os
costados em Kolimá.
Seguem mais cinco pequenos contos: O Primeiro Tchekista, Marcel
Proust, O último combate do major
Pugatchov, O Cembro e A Sentença.
Armando Palavras
Sem comentários:
Enviar um comentário