quinta-feira, 9 de maio de 2019

O inferno de Kolimá



Em 1990, a editora Relógio D’Água (colecção autores do Leste) teve a “ousadia” de publicar um pequeno volume de 120 páginas de Varlam Chalamov: Os “Contos de Kolimá”. Daí para cá, ou seja, já lá vão 29 anos e vergonhosamente nunca mais houve em Portugal uma reedição dessa extraordinária narrativa que retrata a frio o Grande Terror Estalinista. Estes contos são um testemunho brutal de Varlam sobre aquilo que se passou no Gulag.
A editora 34 de São Paulo, ao longo do ano de 2015, veio colmatar essa lacuna publicando, na língua portuguesa (do Brasil) os contos completos em seis volumes, cerca de 2000 páginas, cujo 1º volume é traduzido por por Denise Sales e Elena Vasilevich.
Os livros da 34 agora publicados no Brasil foram traduzidos com base na edição integral russa, organizada cuidadosamente pelo próprio autor.
Filho de um padre ortodoxo, Varlam Chalámov viveu os seus primeiros 22 anos em liberdade e os quase 20 seguintes como prisioneiro político em Kolimá, uma imensa mina de ouro. A trassa era o caminho que os prisioneiros percorriam para alcançar os diferentes campos dispersos pela taiga. São desertos gelados atravessados pelo rio Kolimá. Dois milhões de quilómetros quadrados a leste do Lena, para os quais foram deportados cerca de dois milhões de prisioneiros entre 1932 e 1957. Tanto Anne Applebaum em “Gulag”, como Evguenia Guinzbourg, em “Le ciel de La Kolyma” o testemunham.
A este lugar Varlam chama “o desembarcadouro do inferno”. Num dos seus contos descreve minuciosamente técnicas para conduzir um carrinho de mão, de forma a economizar esforço. Quando os pelotões fuzilavam sem descanso Varlam diz-nos: “Durante meses, de dia como de noite, por ocasião das chamadas da manhã e da noite, foram lidas inúmeras condenações à morte. Com um frio de cinquenta graus negativos, os prisioneiros músicos – de delito comum – tocavam uma marcha antes e depois da leitura de cada ordem. As tochas fumegantes não conseguiam atravessar as trevas e concentravam centenas de olhares nas folhas de papel fino cobertas de gelo em que estavam inscritas as horríveis mensagens”. Nas caves realizavam-se fuzilamentos; espaços onde 50 pessoas ocupavam o lugar de 20 com direito a 200 gramas de pão diárias.
Kolimá é lugar de maldição e o rio que ali passa foi também enchido pelas lágrimas dos condenados como no Cócito de Dante. Varlam não tem dúvidas quando se refere a este local: “Recordar primeiro o mal, e o bem depois. Recordar o bem durante cem anos, e o mal durante duzentos anos”. 
Após 20 anos recluso de Kolimá, os outros vinte anos seguintes, passou-os a escrever estes contos.
O volume lançado a publico pela Relógio D’Água, foi traduzido do russo e prefaciado por José Milhazes. São 11 pequenos contos.
Inicia com Leite condensado, onde o autor do conto é assediado com duas latas de leite condensado para fugir do campo de concentração. Era comum alguém, combinado com os guardas, a troco de privilégios (pagos com o sangue dos companheiros), levar ao engodo um grupo de prisioneiros, para, de seguida, serem capturados e fuzilados.
À Noite, dois prisioneiros, desenterram um companheiro para lhe tirarem a roupa, que ajudava a ultrapassar os 60º negativos!
Havia três saídas da mina de ouro: A primeira, as valas comuns junto à montanha; a segunda, para o hospital, e a terceira, para a brigada de Chmeliov, onde costumavam juntar a escória humana.
Andreiev sentiu, n’A conspiração dos juristas, a incerteza dos companheiros agrupados para o fuzilamento.
Platonov, como Encantador de serpentes, teve a sorte de se tornar “romancista”, evitando, assim, ser sufocado com toalhas, protegido por Fedia e os seus capangas.
Berdi Onje, tornou-se no prisioneiro fugitivo, detectado pelo tenente Kurchakov, na estação de Novossibirsk.
No Epifácio, Chalamov recorda alguns companheiros, aprisionados ao abrigo do artigo 58 (que dizia respeito a crimes de carácter politico), que haviam falecido. Gente que deu o couro e o cabelo pela Revolução e pelo regime e, no entanto, através de gente sem carácter, aplicando política rasteira e manhosa, foi bater com os costados em Kolimá.
Seguem mais cinco pequenos contos: O Primeiro Tchekista, Marcel Proust, O último combate do major Pugatchov, O Cembro e A Sentença.

Armando Palavras

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