quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Do jornalismo ao jornalixo


por Pedro Correia - Delito de Opinião

As chamadas "redes sociais" são hoje a maior rede de amplificação de mentiras no quotidiano português. Qualquer aldrabice ali posta a circular ganha eco imediato, com opiniões definitivas cavadas em trincheiras, sem ninguém cuidar da verdade dos factos.
Nos últimos dias isto ficou bem evidente na absurda polémica dos caderninhos de apontamentos pré-escolares com capas a azul e cor-de-rosa, com centenas de pessoas a pronunciar-se sobre algo que nunca tinham visto nem faziam a menor ideia do que era. Bastaram uns bitaites no Twitter para logo a bola de neve engrossar. Da "rede social" a estória saltou para todos os media e destes para um obscuro organismo oficial pomposamente designado Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género, e daqui para o gabinete do ministro adjunto do primeiro-ministro, que fez um inédito apelo público à retirada desses cadernos do mercado - onde se encontravam, sem qualquer polémica, desde Julho de 2016!
Tudo isto em apenas 24 horas e sem que se estabelecesse uma versão contraditória: estava um curso um linchamento colectivo e ululante, passatempo favorito das "redes". Ninguém fez caso do que disse  Susana Baptista, responsável pelas publicações infanto-juvenis da Porto Editora, ninguém ouviu a autora ou as ilustradoras dos tais cadernos. Todas do "genero" feminino, todas profissionais respeitáveis, todas ignoradas. Como se estivesse em causa uma empresa de vão de escada e não a maior editora portuguesa, com uma reputação alicerçada em sete décadas nos domínios da pedagogia e da didáctica.
Foi preciso um humorista - neste caso Ricardo Araújo Pereira - repor a verdade dos factos para a polémica se esvaziar quase tão depressa como tinha começado. Sem carteira profissional de jornalista, ele fez o que qualquer bom jornalista deveria ter feito: apurar o que realmente se passava, sem emprenhar de ouvido.
Este episódio devia envergonhar os jornalistas portugueses. E ajuda a explicar por que motivo todos os títulos da imprensa continuam a cair a pique, como demonstram os calamitosos números referentes ao primeiro semestre de 2017 agora divulgados pela Associação Portuguesa para o Controlo de Tiragem e Circulação.
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Uma questão de Literatura Russa

  
Pedro Correia, proprietário do blogue http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/ , contactou-nos há dias para escrevermos artigo em rúbrica própria. Aproveitámos para lhe enviar súmula de ensaio sobre a Literatura Russa, que pode ser lida AQUI. Na qual nos vimos na obrigação de cortar uma quantidade de notas explicativas.
Publicado, deu origem a certos comentários, como é costume nestas publicações online.
Um dos comentadores, Luís Lavoura , estendeu-se em questões de forma, em vez de conteúdo, e em pormenores que mais respeita às atrocidades nazis do que às comunistas soviéticas.

A dado passo comenta: “Chernyshevski - Para leitores portugueses, dever-se-ia escrever "Tchernychevski". O mesmo se aplica, penso eu, a Chalamov e Chmeliov. O melhor é ver a ortografia russa dos nomes para tirar dúvidas”. E acrescenta: Evgueni Zamiatine - "Yevgueni Zamiatin" estaria mais de acordo com a forma de ler".

Para um texto de seis páginas, o que é que este comentário acrescenta ao conteúdo? Nada! Nem mesmo à ortografia; à nomenclatura russa.

Um comentador anónimo diria:Aproveito para esclarecer que a forma como se escrevem os nomes russos depende das edições”.

É claro que Luís Lavoura botou a “faladura” de certos “eruditos”:
“a forma como se escrevem os nomes russos depende das edições - Não. Os nomes russos escrevem-se de uma só forma, no alfabeto cirílico. Quando se transcreve esses nomes para o alfabeto latino, podem-se usar diferentes convenções - a convenção de leitura alemã, a inglesa, a francesa, a portuguesa, etc.
Por exemplo, os franceses escrevem "Poutine" para o nome que nós escrevemos "Putin". Os alemães escrevem "Gorbatschow" para o nome que nós escrevemos "Gorbatchov". E assim por diante.
Se o Armando Palavras quer escrever este texto em bom português, então deve utilizar sistematicamente a transcrição fonética do português. Por exemplo, em português "ch" não se lê "tch" como em inglês.
Deve ter em atenção que alguns sons "e" se lêem "ie" em russo. Por exemplo, no nome Ievgueni. Isso é claro na escrita cirílica do nome”.

Peguemos neste primeiro ponto – na nomenclatura russa -, ao segundo já lá iremos.
É óbvio que “Os nomes russos escrevem-se de uma só forma, no alfabeto cirílico”. Como em qualquer alfabeto se escrevem todos os nomes! Mas Luís Lavoura sabe muito bem que tudo depende do tradutor (da convenção que cada um segue, como ele próprio diz). Os exemplos que poderíamos rebuscar não caberiam nesta página. Referimo-nos inclusivamente a nomes da Antiguidade! Ou a obras como a Vulgata, traduzida do Grego por São Jerónimo.
E como Luís Lavoura quer entrar nesta “conversa fiada”, sobre esta questão temos a dizer o seguinte: Evgueni Zamiatine foi traduzido, para português, por exemplo, por Manuel João Gomes, a partir da versão inglesa. E por Nina Guerra e Filipe Guerra. Ambas usam a mesma nomenclatura. A que nós usamos para o “ensaio”, porque foram essas traduções que lemos.
José Milhazes, por exemplo, escreve na sua tradução dos contos de Kolima (que Luís Lavoura não leu), o nome de Varlam Chalamov de forma diferente de outros tradutores que utilizam o “S”. Aliás, na tradução de Milhazes até acontece coisa interessante: na capa do livro, o nome do autor russo aparece escrito com "C" e no texto, com "S". É preciso não esquecer que Milhazes domina o russo. Viveu na Rússia vários anos. Qual será a transcrição (correcta) fonética do português? O douto Luís Lavoura saberá explicar?
Para outras transcrições da nomenclatura tivemos de nos servir dos ensaios  de George Steiner ou Marshall Berman, porque não existem obras vertidas desses autores para português. Por exemplo, "Le ciel de La Kolyma" de Evguénia S. Guinzbourg só conhecemos a versão francesa, publicada há mais de 30 anos! Já agora, como se escreverá Kolyma? Com "i" ou com "y"? Esperamos que Luís Lavoura nos elucide!
Mais, se Luís Lavoura conhecesse esta Literatura, verificaria que muitos termos russos são “quase iguais” a termos portugueses, como foi notado por Z. Consiglieri Pedrozo no século XIX (nota elucidativa a que não teve acesso, porque se encontra no ensaio original). E que, ao contrário do que diz, o “ch”, em regiões como Trás-os-Montes se lê “tch” (como no inglês). Basta que consulte uma obra recente de Jorge Lage – “Mirandela, outros falares”. Ou "Língua Charra" de A.M. Pires Cabral.
Mas nem é necessário recorrer ao erudito novecentista. Nós próprios que não temos formação académica nessa área linguística (mas com formação cultural considerável, dizem-nos) lhe arranjaremos uma dúzia de termos, em qualquer obra russa, iguaizinhos a termos portugueses. Muitos deles iguaizinhos a termos transmontanos! Termos e frases completas!

Quanto ao segundo ponto, o comentador diz em primeiro comentário: “a libertação dos campos de extermínio de Treblinka e Majdanek - Treblinka não foi libertado, já que tinha sido encerrado pelos nazis em finais de 1943. Os nazis tiveram aliás todo o cuidado em demolir e dissimular os restos do campo, pelo que, provavelmente, quando os soldados soviéticos por lá passaram nem viram nada de distintivo. Creio que, após a guerra, foi necessário fazer um trabalho não-trivial de pesquisa para se descobrir onde se situava o campo”.

O comentador anónimo respondeu: “E sobre Treblinka é fundamental a leitura de um testemunho de Chil Rajchman: "Sou o Último Judeu".

Ora Luís Lavoura não foi de modas: “a libertação dos campos de extermínio de Treblinka e Majdanek - É difícil ter estado na libertação desses dois campos, dado que Treblinka (que, repito, já tinha sido destruído e camuflado quando as tropas soviéticas lá chegaram) fica no norte da Polónia, a uns 100 quilómetros a nordeste de Varsóvia, enquanto que Majdanek fica no sudeste da Polónia, mesmo ao pé de Lublin. Certamente que foram colunas distintas do Exército Vermelho que ocuparam os dois campos.
É provável que se queira referir às libertações dos campos de Majdanek e Auschwitz, esses sim situados no sudeste e sudoeste da Polónia, respetivamente, e que provavelmente terão sido libertados pela mesma coluna do Exército Vermelho (em datas distintas, claro)”.

Quanto a este segundo ponto, que nenhum interesse tem para o “ensaio”, porque trata da questão soviética, Luís Lavoura tem alguma razão, sobre o facto de Treblinka ter sido destruído pelos nazis. Até porque foram os próprios presos que se revoltaram dando origem a um levantamento. É bom, portanto, que leia o testemunho de Chil Rajchman, traduzido por Telma Costa: "Sou o Último Judeu".
Mas a questão da libertação é outra história. O autor do ensaio não afirma que foram libertados este ou aquele campo. Nem se refere concretamente a nenhum campo. O que o autor diz é que Vassili Grossman (veja lá se também aqui encontra alguma questão de albabeto cirílico!) reproduziu nas suas crónicas a libertação de Treblinka e Majdanek. E o seu artigo “O Inferno de Treblinka” servirá de prova nos julgamentos de Nuremberga”. Como se diz no “ensaio”. Não se diz mais nada do que isso.
Nós conhecemos o tipo de retórica (inquisitorial) utilizado por Luís Lavoura. É antigo. Por essa razão nos Evangelhos Jesus a uma pergunta, responde com outra! Mas nós não somos Jesus e a uma “aldrabice” procuramos responder com a “verdade”. Cícero também a usou, mas com virtude!
Quanto à localização dos vários campos de extermínio descrita pelo comentador, o mapa que apresentamos regista bem o seu desconhecimento geográfico polaco.

Em suma, Luís Lavoura nada acrescentou ao debate. Ao contrário de Pedro Correia, Maria Dulce Fernandes , ou De singularis alentejanus que, com prosa singela, disseram mais numa linha que Luís em vinte!

A retórica de Luís Lavoura é a mesma das (retóricas, não vá aqui arranjar alguma questão  de alfabeto cirílico) do costume – “sem tirar nem pôr”, como diz o vulgo.

Armando Palavras

NOTA: Não lhe respondemos no blogue de Pedro Correia, em comentário, porque não temos o direito de incomodar ninguém. Respondemos-lhe neste, que apenas nos incomodamos nós. Aqui, Luís Lavoura pode comentar à vontade, porque lhe responderemos à vontade. E, se quiser, tem direito de resposta. Porque a liberdade é, para nós, o valor mais sagrado. E o apuramento da verdade, o segundo.

Actualizado a 1 de Setembro de 2017

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Esboço de uma Literatura Russa

                              
Em rúbrica própria, Pedro Correia, jornalista de carreira, publicou no seu Delito de Opiniãotexto por nós lavrado sobre a Literatura Russa, sobretudo do período Soviético.
Um esboço de ensaio futuro sobre a “literatura de resistência ao totalitarismo soviético”, como Pedro Correia assinalou e bem em missiva online que nos dirigiu. Pode ser lido AQUI.
A divulgação do mesmo vem a calhar porque em Outubro / Novembro próximos, se comemora o centenário da Revolução Russa (melhor dizendo, Revolução Soviética). E o Partido Comunista Português (que apesar de tudo, nas origens, se distanciou de algumas nuances do Partido Soviético), prepara-se para comemorar a data com pompa e circunstância, patrocinando a publicação de 10 Dias que Abalaram o Mundo, do mítico John Reed. Edição que procuraremos adquirir para a nossa biblioteca pessoal, embora já possuindo três edições diferentes – a primeira edição das publicações Avante com mais de 30 anos, e duas publicações recentes (2017).
É lá com eles. A obra de Reed é lendária. Faz o filme ao pormenor desses dez dias alucinantes que depois originaram a tirania que todos conhecemos. Mas nessa altura já Reed havia sido sepultado no Kremlin com 33 anos!
Mais completa que a obra de Reed é a História da Revolução Russa de Trotsky. Mas essa só se for patrocinada pela Caty (perdão, pela Catarina), pelas manas Mortágua e pelo "beatificado" Louçã!
Ao Pedro, os nossos agradecimentos por divulgar um tema que ainda é (incompreensivelmente) “tabu” em Portugal.                       

terça-feira, 29 de agosto de 2017

FEIRA DO LIVRO DO PORTO

Este ano, pela segunda vez consecutiva, a Lema d’Origem Editora estará presente de forma ativa, na Feira do Livro do Porto. Além do stand individual, n.º 73, promoverá as atividades a seguir indicadas.

1.      Eventos
·       8 de setembro, 18H30
Apresentação da obra: Dois Tempos, duas escolas, o mesmo olhar, de António Guilherme Sá de Moraes Machado
·       10 de setembro, 18H30
Tertúlia: LIBERALISMO - de ontem e de hoje
Tendo por base a apresentação da obra José Liberato Freire de Carvalho – Sua vida e pensamento, de Mário Simões Dias, pretendemos discutir o liberalismo português e a sua influência na sociedade portuguesa da época
2.      Sessões de autógrafos
·       2 de setembro, 17H00
Norberto Francisco Machado da Veiga - Escritas do Nordeste Ensaios e Recensões sobre Autores Transmontanos;
·       3 de setembro, 17H00
Paulo Cordeiro Salgado – Guiné: Crónicas de Guerra e Amor

3.      Livros do dia
·       2 de setembro  O Hominídeo Humanizado, de António Sá Gué
·       3 de setembro  Rostos Transmontanos, de Paulo Patoleia
·       4 de setembro  O Messias, de Carlos Carvalheira
·       5 de setembro  Em Nome da Fé, Pedro Silva
·       6 de setembro – Efémera Glória d’El Rey sem Trono – A História Atribulada do Tratado de Babe, de António Afonso
·       7 de setembro  Consuelo – O Amor Proibido, de Bernardino Henriques
·       8 de setembro  Cérebro e Leitura - Fundamentos neurocognitivos para a compreensão do comportamento leitor no processo educativo, de Teresa Silveira
·       9 de setembro  Apurriar (2007-2017), de Luís Vale
·       10 de setembro  O Concelho de Murça na Grande Guerra, de Dinis Serôdio Lopes da Costa
·       11 de setembro  Trabalhar o Boneco, de Carlos Sambade
·       12 de setembro  Elementais, de Álvaro Leonardo Teixeira
·       13 de setembro  Trás-os-Tempos, de Francisco Manuel R. Alves
·       14 de setembro  O Meu Moledo - Crónicas de João de Araújo Correia, João de Araújo Correia
·       15 de setembro  Versos Vagabundos - Fragmentos de Mármore, Lucília Verdelho da Costa
·       16 de setembro  Galateia - Segredos de Família, Fernando Mascarenhas
·       17 de setembro  Percursos, Francisco José Lopes

Tive um fim de semana em beleza


Por: Costa Pereira   Portugal, minha terra

Tive um fim de semana em beleza, com familiares em casa, convívio no Sábado com um grupo de amigos nascidos em 1938, e no Domingo uma deslocação à Redinha (Pombal) com o Carlos Afonso que foi buscar irmão Raul  e juntos almoçamos na Isabel, dos 13.
A minha gente transmontana deixou-me logo pela manhã, e por pouco nem me despedia deles. Ficaram na cama, quando saí para ir à  missa dominical das 09h00. Só voltei por volta das 10h00, ao regressar , andavam eles à  mais de meia hora aflitos para se despedirem de mim, sem missa. Mal cheguei, um beijinho e aí vão eles direitos a Vila Real.Sei que por volta das 13h00 já tinham chegado ao seu destino, segundo informação da minha sobrinha Isabel Cristina, professora a lecionar na região de Paredes.
No decorrer do almoço com o Raul apareceu a Helena, mais a tia Saudade para tomarem o seu café da ordem; já almoçadas, mas fizeram jeito pois faltava quem me apanhasse...à mesa.
E pronto, o dia passou-se sem no entanto esquecer uma visita surpresa que fiz ao Lar onde soube ia encontrar um sacerdote meu amigo ali hospedado. Agradeço o favor ao meu sobrinho David por me ter conduzido até lá.
O Raul é figura muito estimada na sua terra e agora mais que nunca, os amigos quando sentem a sua presença na terra aproximam-se para falar com ele e saber do seu estado de saúde, até a Isabel, dona do Ka-Te-Kero se deixou fotografar a seu lado
Lisboa esperava por mim, e hoje pela manhã aí venho eu da Bajouca para Lisboa, com muita chuva no trajecto (A8), que nas proximidades do Bombarral caia a potes. Antes de sair fui à  igreja fazer uma visita, parando na sede de freguesia para cumprimentar a Catarina, uma funcionaria de cinco estrelas. Cheguei, e agora estou à  espera que o meu neto "Alvarito" apareça para com os avós maternos passar a tarde; antecipadamente os meus vizinhos, Sr. António e a D.Ilda ofereceram o cafezinho que faltava no fim  almoço. Rico fim e inicio de nova semana

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Ponham-se a pau, Eça e Camões


por Pedro Correia - Delito de Opinião

Era o que faltava à Porto Editora para se actualizar: após mais de sete décadas ao serviço da excelência do serviço público, passou a receber lições de pedagogia do poder político.
Pedagogia censória, passe o oxímoro, em nome de valores respeitáveis, como a igualdade e a liberdade. E com solene chancela oficial, que manda - utilizando o eufemismo "recomenda" - retirar duas publicações dos postos de venda. O fantasma do doutor Salazar deve emitir uns sopros irónicos lá entre os vetustos reposteiros de São Bento.
Com a diligente brigada dos bons costumes apostada em pôr multidões ordeiras e ululantes a entoar a novilíngua deste admirável mundo novo, condenando sem cuidar sequer do rigor dos factos, o vocabulário comum em democracia torna-se policiado como se vivêssemos em ditadura. E não tenhamos ilusões: esses patrulheiros não tardarão a exercer censura com carácter retrospectivo, pois só quem controla o passado é capaz de controlar o futuro. Atenção, misógino Pessoa. Toma cuidado, falocrático Eça - reles perpetuador de "estereótipos de género". Põe-te a pau, racista e islamófobo Camões.
Haja cuidadinho com as cores também. Os daltónicos, coitados, é que se tramam.

Rapsódia em Agosto: meninos, meninas, medricas e outras mariquices




Alberto Gonçalves - OBSERVADOR

Dantes um dos critérios do sucesso público era a eficácia com que se escondia a cama. Hoje é muito útil trazê-la para a rua e mudar os lençóis na cara dos transeuntes. A alteração é boa? Má? É o que é.

1. Pela primeira vez, um político português “assumiu” a homossexualidade. Por azar, o político em causa é uma obscuríssima secretária de Estado, que permaneceria na obscuridade não fosse a entrevista encomendada ao “Diário de Notícias”. Na prática, a “revelação” não escandalizou vivalma, já que, descontados pervertidos terminais, os hábitos sexuais de anónimos deixaram de excitar as massas. Curiosamente, excitam os maluquinhos das “causas”, que vêem nestas trivialidades um acto de coragem sem precedentes.
Coragem? É um pouco excessivo. Coragem seria “assumir” que se é uma coisa abominada pela maioria das pessoas ou, sobretudo, pela maioria das pessoas que mandam aqui. Coragem seria, no Portugal de 2017, defender – defender de facto e não em língua de pau – a democracia, a liberdade, o Ocidente, os refrigerantes ou insignificâncias similares. Coragem seria tomar uma posição que colocasse a sra. secretária de Estado em risco de perder amigos, família, emprego ou pelo menos o sossego. Assim, o que no máximo perderá é a possibilidade de assistir à Festa do “Avante!”, nada permissível a esquisitices. No mínimo, ganhou a notoriedade de que não dispunha e a admiração de pasmados.
Do que conheço, sou incapaz de garantir que a sra. secretária de Estado tem coragem. Porém, a julgar pelo currículo profissional e não pelas preferências lúbricas, sei o que a sra. secretária de Estado não tem: vergonha. Muito mais revelador do que a “revelação” é o preâmbulo à entrevista ao DN, onde se nota que passou pelo centro de “estudos” do prof. Boaventura, pela Administração Interna do dr. Costa, pela autarquia do dr. Costa, pelo grupo parlamentar do dr. Costa e, enfim, pelo governo do dr. Costa. Se uma cidadã assume sem hesitação tamanha série de monstruosidades, “assumir” a homossexualidade, inclinação que não lhe trará sombra de problema, é canja.
O único ponto relevante na entrevista – na qual, de resto, entrevistadora e entrevistada trocam clichés com galhardia – é, como diriam os burgessos que discorrem nos programas de “cultura”, o sintoma de que o paradigma se alterou. Dantes, um dos critérios do sucesso público era a eficácia com que se escondia a cama. Hoje, é bastante útil trazê-la para a rua e mudar os lençóis na cara dos transeuntes. A alteração é boa? É má? É o que é: as regras de uma actividade desde sempre subordinada à demagogia. A nova heroína dos direitos “gay”, que vive assustadíssima com o sr. Trump e a extrema-direita, não gasta uma linha da entrevista a falar do islão.
Tudo espremido, sobra um golpe publicitário e, com jeito, uma ajudinha na espécie de carreira a que a sra. secretária de Estado se dedica. Ela própria confessa, mesmo que com outros propósitos: “Esta minha afirmação é completamente política”. Ninguém duvida.

2. Rita Ferro Rodrigues, filha do estadista com o mesmo nome (menos o “Rita”), indignou-se com uns livros de passatempos da Porto Editora. A sra. dona Rita, que deve ter imenso tempo livre e não se indigna com as figuras do pai ou com o tratamento que culturas exóticas dispensam à fêmea da espécie ou, sei lá, com um país a arder por incúria criminosa. Por sorte, lá reservou um pedacinho da agenda para achar indecente que os ditos livrinhos sejam orientados “para o menino” e “para a menina”.
De facto, é grave. Quase tão grave quanto, por exemplo, criar um site de opiniões e desabafos cometido exclusivamente por mulheres, onde se publicam textos acriançados sobre assuntos sérios e textos pedantes a propósito de patetices. Nas suas páginas virtuais, o primarismo do pensamento e o péssimo domínio da língua debatem-se para apurar quem leva a pior. Ambos saem vencedores por larga margem. O site “Maria Capaz” parece imaginado por um pervertido elemento do “heteropatriarcado”, a fim de tentar demonstrar que o cérebro feminino médio é vazio como os que se apresentam ali. O curioso é que foi imaginado pela sra. dona. Rita.
Entretanto, por contágio ou coincidência, o processo infantil pelo qual alguns querem reduzir o mundo às pastagens que lhes ocupam o crânio ganhou força. O zelo censório entrou em roda livre, os inquisidores das “redes sociais” exigiram fogueiras, a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género – coisa que rivaliza em utilidade com um Trabant avariado – “recomendou” a censura dos livrinhos e a Porto Editora obedeceu. No que toca ao fim da desigualdade de género, e enquanto não retiram do mercado 99,7% da literatura universal, a actualização gradual do Index Librorum Prohibitorum é um passo importante. Porém, insuficiente: se queremos legar um mundo sem discriminação aos nossos filhos, ainda falta a castração compulsiva destes. Mas já faltou muito mais.

3. “Não temos medo”, gritaram milhares em Barcelona. O que significa isto? Que da próxima vez que um psicopata tentar atropelá-los eles correrão ao encontro da carrinha? Que não acham o terrorismo um perigo real? Que repetem o primeiro disparate que ouvirem? Que são imprudentes? Que são valentes? Que são estúpidos? Nada disso: apenas que são mentirosos. É claro que os catalães e os europeus têm medo, muito medo, tanto medo que recusam chamar pelo nome a ameaça que paira sobre eles – e que, com frequência, com crescente frequência, sobre eles literalmente avança. No fundo, esperam que a negação lhes compre a sobrevivência. Como se tem visto, é um bom plano.

Novas escutas na operação Marquês


domingo, 27 de agosto de 2017

Dos textos da Porto Editora à canção de Chico Buarque

O Grande Irmão - Filme 1984 (Geroge Orwell)


                              “Para que o mal triunfe, basta que os bons não façam nada.”
                                                                                                     Edmund Burke

Evgueni Zamiatine (1884-1937), escritor por vocação e engenheiro naval por profissão, é um dos primeiros vultos a tratar o homem comum da época soviética nos seus contos. No Ocidente tornou-se famoso com Nós (1924), a pioneira distopia que iria influenciar textos de género como 1984 de Geroge Orwell, Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, A Escavação de Andrei Platónov ou Fahrenheit de Ray Bradbury.
Têm em comum descreverem, por antecipação, a engenharia social que, apoiada no controlo do pensamento e na repressão da dissidência, garante a unanimidade totalitária.
Nós, denuncia as maluqueiras bolcheviques de 1917 (como o havia feito Walter Benjamin), ao intervirem na vida privada, acabando com a instituição família, transformando o espaço doméstico em espaço colectivo onde viviam várias famílias com dormitórios colectivos e salas próprias para o sexo! -  onde o individuo é abolido em favor da uniformidade dos seres. Aliás, como os Mencheviques  (ambos originários do socialismo revolucionário) também defendiam, mais coisa menos coisa. 
Os que leram a literatura que indicámos “sabem como o ideal de igualitarismo comunista resultou em tiranias brutais, que tentaram controlar todos os aspectos da vida quotidiana” [1]. Em suma, enumerando todas as patifarias, todas as experimentações e processos de anular tudo o que vinha de antes para criar o “homem novo”, os bolcheviques, com o comunismo, pretenderam fundar uma religião.


Ora o que se passou ultimamente com os cadernos de actividades da Porto Editora, ou com a canção de Chico Buarque é execrável. E não estamos longe de Nós, 1984, A Escavação ou Fahrenheit. 
Censurar, proibir a liberdade individual, uniformizar os seres, só pode levar uma sociedade ao abismo. 
Só um Estado CORRUPTO (publicitado por uma imprensa corrupta) consente esta javardice totalitária.
Censurar os cadernos da Porto Editora e a canção de Chico Buarque é obra de javardos nostálgicos do Estado  Único; das "Tábuas dos Mandamentos Horários que sincronizam actividades produtivas e relações sexuais, na transparência absoluta das casas de vidro", da obra de Zamiatine!
Actualizado a 28 de Agosto de 2017



[1]HARARI, Yuval Noah, Sapiens, de animais a deuses – História Breve da Humanidade, Elsinore, 2017, p. 199.

Ficámos hoje a saber que o Chega e o Doutor Ventura são esquerdóides...

 Comentário: Ficámos hoje a saber que o Chega e o Doutor Ventura são esquerdóides... E, portanto, para os esquerdóides, "tudo como dant...

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