terça-feira, 20 de junho de 2017

Em nome da verdade e da justiça


José António Saraiva – jornal Sol

NÃO COMENTEI na semana passada a entrevista de António Costa a José Gomes Ferreira porque não a vi na altura.

Entretanto, em nome da verdade e da justiça, acho que vale a pena falar de dois temas que lá foram tratados.
Primeiro: António Costa disse que, quando tomou posse, em fins de Novembro de 2015, o PIB estava a cair.
Assim, o mérito de pôr a economia de novo a crescer pertenceu por inteiro ao seu Governo e não ao anterior.
Ora, Costa sabe muito bem o seguinte: a economia já estava a crescer com Passos Coelho, e só desceu no 2.º semestre de 2015 por causa das eleições (em princípios de Outubro) e por causa da ‘geringonça’.
De facto, em vésperas de eleições ninguém investe: todos ficam à espera para ver em que param as modas.
E depois, com o chumbo do Governo PSD/CDS e a agitação política causada pela formação da ‘geringonça’, o investimento caiu a pique.
Assim, a economia só retomou o seu ritmo normal no 2.º semestre de 2016.
Mas a inversão do PIB (de negativo para positivo) deu-se de facto em 2013, continuou em 2014 e na primeira metade de 2015 – só caindo no fim desse ano em consequência da turbulência referida.
António Costa sabe isto muito bem, e não devia ter fingido o contrário, arrogando-se méritos que pertencem na verdade ao seu antecessor.
O SEGUNDO tema sobre o qual quero falar diz respeito à afirmação feita pelo primeiro-ministro de que a sua política é muito diferente da de Passos Coelho.
Segundo António Costa, os resultados que têm sido obtidos provam essa verdade.
E em jeito de síntese, adiantou que, enquanto Passos cortava rendimentos, ele devolve-os.
Ora, a comparação entre as duas políticas tem de fazer-se em dois planos: a ‘estratégia’ e a ‘táctica’.
Quanto à estratégia, o Governo de Costa não se distingue (felizmente) do de Passos Coelho: aposta na redução do défice público para conquistar a confiança externa (e das agências de rating) e no crescimento económico assente sobretudo no aumento das exportações e não do consumo.
Aliás, é por causa desta semelhança estratégica com a direita que o PCP e o BE protestam.
A DIFERENÇA existe na táctica, isto é, no modo de alcançar estes objectivos.
No que toca às exportações, António Costa não teve de fazer nada para elas crescerem: os turistas encarregaram-se de lhe resolver o problema.
Quanto ao défice público, é que há uma diferença grande.
Enquanto Passos Coelho reduziu a despesa do Estado à custa (além de outras poupanças) dos cortes de ordenados e pensões, Centeno recorreu às cativações e ao corte no investimento público.
Claro que este caminho foi muitíssimo menos impopular.
Mas Centeno fez outra coisa: substituiu alguns impostos directos por impostos indirectos (como o dos combustíveis), que são psicologicamente menos penalizantes.
TUDO SOMADO, as coisas não estão muito diferentes.
Os funcionários públicos e alguns pensionistas estarão um pouco melhor do que estavam antes – o que se percebe, pois são os eleitores que a esquerda quer seduzir; mas outros grupos sociais estarão na mesma ou até perderam um pouco, por via dos tais impostos indirectos.
A ideia que ficou, porém, é que Passos Coelho cortou ordenados e pensões – ao passo que António Costa devolveu rendimentos aos portugueses.
Ora esta ideia, além de injusta, contém uma inquietante incógnita.
Que é esta: na economia, como na agricultura, há um tempo de semear e outro de colher.
António Costa está a colher o que Passos Coelho semeou.
Vamos ver se o que Costa está a semear hoje permitirá vivermos melhor amanhã.
Ainda é cedo para sabermos no que irá dar esta política malabarista de Costa e Centeno, assente em dar com uma mão e tirar com a outra.

P.S. – A imprensa tem referido a arte revelada pelo 1.º-ministro para não ser atingido pelas polémicas que têm envolvido o seu Governo. Desde o caso da CGD, que se arrastou por um ano e em que o presidente nomeado acabou por se demitir, passando por assessores que foram afastados por não terem as habilitações académicas que declararam, à história das offshores em que membros do Governo se contradisseram, à nomeação do secretário-geral do SIRP que acabou por renunciar antes de tomar posse e à escolha de um administrador da TAP que tem como principal cartão de visita ser seu amigo – por tudo isto António Costa tem passado sem se chamuscar. É certo que é preciso jeito para o conseguir. Mas também é preciso contar com a cumplicidade dos media. Ou seja, alguns que lhe elogiam a habilidade são os mesmos que não o confrontam com os problemas. Veja-se como Miguel Relvas foi perseguido implacavelmente durante meses até cair… E veja-se o desgaste a que Passos Coelho era sujeito.

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