domingo, 20 de novembro de 2016

Os serviçais públicos


Alberto Gonçalves- Diário de Noticias

Não é por conselho do meu médico de família, o qual aliás desconheço, que em geral não vejo "informação" política nas televisões. Nessa matéria, confesso automedicar-me para evitar fenómenos precoces de degeneração mental. No outro dia, furei o boicote e imprudentemente apanhei com cinco minutos de um "debate". Moderado por João Adelino Faria, incluía o deputado ou ex-deputado do PSD José Eduardo Martins, o grande historiador e grande ex-promessa do trotskismo Rui Tavares e um mocito chamado Adão não sei quê.
A certa altura, o moderador pede ao mocito que compare o famoso populismo do sr. Trump com o menos famoso populismo do Podemos, do Syriza e do Bloco de Esquerda. O mocito recusa compará--los, sob o argumento - cito de cor - de que, ao contrário dos partidos nomeados, o sr. Trump é anti-semita, e isso, principalmente isso, o mocito não admite. Aliás, o mocito adverte que desde a eleição americana, e só desde então, o anti-semitismo regressou em força à Terra.
Não sei se o mocito sofre de percepção limitada (é burro), pseudologia fantástica (é aldrabão) ou pratica uma modalidade alternativa de comédia (é génio). O facto é que, mesmo num meio em que a mentira descabelada é língua franca, não me lembro, nem sequer nas intervenções do dr. Louçã, de alguém se aliviar de tantos e tão desmesurados delírios em tão pouco tempo. É verdade que Adelino Faria e Eduardo Martins tentaram, sem demasiada convicção, desmentir a enxurrada de asneiras. O mocito permaneceu imperturbável. Os idiotas têm essa vantagem. Ou os charlatães encartados. Ou os génios.
Não adianta, pois, dizer ao mocito que o sr. Trump, que será imensas coisas desagradáveis e possivelmente perigosas, não é, que se saiba, anti-semita, apesar de ter sido apoiado por gente que o é (há uma diferença). Ou esclarecer o mocito de que a filha, o genro e alguns dos principais conselheiros do sr. Trump são judeus. Ou elucidar o mocito sobre a promessa do sr. Trump de mudar a embaixada americana para Jerusalém. Ou lembrar ao mocito o júbilo do primeiro-ministro israelita ao congratular o sr. Trump pela vitória.
E ainda que o sr. Trump fosse anti-semita, de que modo sairia desqualificado da comparação com o Syriza, que além de coligado com um partido neonazi possui dirigentes que acusam os judeus de incendiarem - metaforicamente, espero - a Grécia com os candelabros do Hanukkah? E da comparação com o Podemos, cujos sobas envergam lenços palestinianos, veneram o Hamas e, na melhor tradição de Goebbels, "desvendam" os "interesses" judaicos "ocultos" nos filmes da Disney? E da comparação com o BE, rival dos comparsas acima em matéria de "anti-sionismo", a versão "correcta" do anti-semitismo de sempre?
Como o mocito ignora ou finge ignorar isto, não vale a pena informá-lo de que o anti-semitismo não voltou ao Ocidente na semana passada: é há muito dominante nos votos da ONU, nos boicotes de universidades e nas estatísticas dos crimes de ódio. Também não vale a pena aguardar que o poder, qualquer poder, ganhe vergonha e feche uma RTP hoje quase totalmente ocupada por funcionários da propaganda oficial: o mocito é apenas um entre inúmeros moços de recados. Mas quando orgulhosa e descaradamente referem o célebre "serviço público", podiam explicitar o "público" que servem. Pensando melhor, não é preciso: já fazemos uma ideia.

Sexta-feira, 18 de Novembro
A criança na primeira fila

Não é costume divulgar-se as conversas privadas entre estadistas. O breve - e, por causa do embaraço, interminável - pedacinho conhecido do encontro do nosso presidente com a rainha da Inglaterra mostram porquê.
Despachado o protocolo ("É uma honra" e tal), o prof. Marcelo lembra as visitas de Isabel II a Portugal e desata logo a chamar velha à senhora, ao notar que aquando da primeira visita ele era uma criança. Pasmada com tamanha falta de tacto, a rainha adopta o sarcasmo que tenta manter até ao fim daquela espécie de diálogo: "Acredito..." O prof. Marcelo, porém, não apanha a indirecta e prossegue impávido, agora a descrever o cenário: "O Terreiro do Paço, aquela grande praça..." E a rainha, a fingir que em 59 anos não voltou a pisar outra praça nem a pensar noutra coisa: "Sim..." E o prof. Marcelo: "A carruagem..." E a rainha, divertida por alguém imaginar que ela recordaria uma carroça específica: "Sim..." E o prof. Marcelo: "Com o general Craveiro Lopes..." E a rainha, que inexplicavelmente não parece ter presente essa incontornável figura da história contemporânea, ameaça trocar o sarcasmo pelo receio: "Hm, hm." Em roda livre, o prof. Marcelo desce ao pormenor ("Eu estava lá, em criança, na primeira fila"), na esperança de que Isabel II o interrompesse: "O pequenito com suspensórios? Ai era você?" Mas a rainha, quase em pânico, lança um "A sério?" e, enquanto dá um passo atrás, pensa: "Ele tem de estar a brincar!" Nisto, o prof. Marcelo, que só brinca, salta para a visita de 1985, na qual, garante, foi convidado para jantar no Britannia porque liderava a oposição. Não liderava nada, provavelmente ninguém o convidou e, a julgar pelo fim abrupto do vídeo, de certeza que o encontro acabou aqui, com a monarca em fuga a gritar por auxílio ("Ó da guarda!", como diria Craveiro Lopes).
Moral da história? A pândega com Fidel mostrou que o prof. Marcelo devia visitar exclusivamente torcionários tropicais, onde os "afectos" não destoam. Vergonha por vergonha, pelo menos os ensaios do dr. Sampaio não passam a fronteira.
Sociólogo

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