sábado, 13 de agosto de 2016

Política de WC




Alberto Gonçalves - revista Sábado

 Amigos dizem-me que vão para o Algarve e encolho os ombros. Conhecidos dizem-me que vão para a Sardenha e adormeço a meio da conversa. Desconhecidos dizem-me que vão para as Maldivas e pergunto-lhes a que propósito falam comigo. Tudo somado, o único destino turístico que me suscita inveja é o lugar onde se realiza o acampamento de jovens do Bloco de Esquerda.
O acampamento, cito artigo do Público (título: "A ideia de que o mundo pode ser melhor cabe numa tenda"), realiza-se há 13 anos e, pasme-se, "tem uma filosofia". Os acampamentos que frequentei na adolescência mal tinham água quente. Para cúmulo, chama-se Liberdade, nome lindo e revelador de "uma realidade alternativa, livre de opressões". Presumivelmente, o nome é também irónico, visto que aquele espaço sem proibições proíbe uma data de coisas: "sexismo, machismo, homofobia, transfobia, racismo, xenofobia", diz ao Público a militante Ana Rosa, "de voz serena mas segura, e uns olhos castanhos rasgados".
Outra coisa que o Liberdade proíbe é confusões na casa de banho. Embora admitindo que "a política também passa pelo WC", trajecto que sempre me pareceu evidente, o acampamento abandonou a experiência de balneários mistos. Razão? Uma rapariga não gostou que os rapazes, quiçá heterossexuais infiltrados, olhassem para ela. O infortúnio não impede o BE de sonhar com a mistura, dado que – continuo e continuarei a citar o Público até que os dedos me doam – o objectivo é "desafiar os papéis de género e os pudores". Ou, nas palavras de Ana Rosa, a dos olhos rasgados, "não faz sentido ter casas de banho binárias. A separação homem/mulher é extremamente redutora".
Se calhar é por isso que o BE separa a espécie em inúmeras fracções, resumidas na breve sigla LGBTQIA+ (o "+" é para o que calhar). Caso o próprio Liberdade levasse isto a sério, precisaria de 30 bonequinhos diferentes só para as portas dos lavabos. Felizmente, as questões LGBTQIDPVWNA+ ficam limitadas às festas e às DJs, exclusivamente "mulheres ou mulheres trans género" ("músicas com letras machistas" serão censuradas). E aos estimulantes debates, que cobrem ainda temas como: praxe (todos contra), precariedade (todos contra), tratados europeus (todos contra), Descobrimentos (todos contra) e drogas (todos a favor).
Porém, o melhor do Liberdade são sem dúvida os jogos. "Há um em que duas pessoas do mesmo género (binário ou não) trocam uma laranja com o pescoço – ‘Normalmente cai. É um desastre sempre, mas é divertido.’" Divertido é favor. E há o "comboio de massagens", "gestos muitas vezes sexualizados" que conseguem, "de forma pacífica e sem obrigar ninguém a nada, desconstruir algumas ideias". Prevejo que, de desconstrução em desconstrução, o Liberdade tenha um final feliz.
A palavra a Ana Rosa, os olhos já fora das órbitas: "No acampamento construímos um pouco a realidade que queremos", e que, com a ajuda do dr. Costa, tentam impor às massas a benefício destas. Resta informar que este Verão o Liberdade decorre em Oliveira do Hospital, decerto psiquiátrico. Não imaginam a pena que tenho em não ser jovem. Nem doido varrido.

O BOM
Incentivos
Desculpem o paroquialismo, mas em Matosinhos, onde vivo, a autarquia decidiu fazer uma "ciclovia" que percorre cada rua e beco do município. A ideia é feliz (incentivo ao exercício). As vantagens adicionais são o caos no trânsito (incentivo à ecologia), a abolição do estacionamento (incentivo à mobilidade), os passeios para peões com 20 cm de largura (incentivo à dieta), a falência do escasso comércio (incentivo à poupança) e a confirmação de que o poder local rivaliza com o central em prepotência e idiotia (incentivo à emigração).


O MAU
O gato de Barcelos
Lembram-se da criancinha portuguesa que, simbólica e pura, confortou um francês na final do Euro? Lembro-me também da comoção colectiva que o episódio decretou, embora fosse evidente que havia ali encenação ou, no mínimo, gato. Entretanto, o adepto em causa ganhou umas férias em Portugal pagas pelo contribuinte e a família da criancinha exige 50 mil euros para perpetuar a brincadeira. É um golpe no amor-próprio de todos nós, convencidos de que, mesmo falsa, a inocência do "pequeno Mathis" também nos contagiava.


O VILÃO
Direito ao silêncio
Na televisão, um psicólogo produz afirmações genéricas sobre os ciganos, aliás próximas da vox populi. Resultado? Catorze associações chamam-lhe perigoso racista. Tudo estaria bem se a coisa se ficasse pela discórdia e pelo insulto. Mas não fica: a ideia é acusar o homem de um crime e, claro, expulsá-lo do programa em que participa. Sempre que o "argumento" de um dos lados se resume ao esforço para calar o adversário, não custa perceber quem venceu o "debate". E que o perigo real são os defensores dos direitos que não toleram nenhum.

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