quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O informal presidente da CGD já entra diminuído


Ana Paula Azevedo - jornal Sol
paula.azevedo@sol.pt

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Ainda se lembram de Diogo Lacerda Machado, o jurista reputado e «melhor amigo» do primeiro-ministro que, no início do ano, se soube estar a intervir em representação do Estado, pro bono e sem qualquer mandato contratual, nas negociações com os lesados do BES e com o consórcio privado que comprou a TAP? Pouco tempo depois, perante a pressão da opinião pública que criticava a falta de transparência da situação, pois em assuntos públicos há formalidades que não se podem dispensar, António Costa, embora fazendo um ar enfadado, viu-se obrigado a mandar o seu gabinete fazer um contrato com Lacerda Machado.
A nomeação do futuro presidente da CGD, António Domingues, é mais um assunto de Estado tratado no plano da informalidade e com consequências lamentáveis.
Sabe-se agora que, pela mesma altura do caso Lacerda Machado, o Ministério das Finanças também andava a tratar de forma informal a questão da recapitalização do banco público e da nomeação do novo conselho de administração.
Em vez de desencadear as necessárias diligências formais para isso, o ministro Mário Centeno assumiu informalmente o compromisso com António Domingues de o nomear e deu-lhe carta branca para escolher a sua equipa e trabalhar num plano de futuro para a CGD – informalmente, claro. Enquanto isso, a administração de José de Matos era deixada a ‘marinar’ em gestão corrente e em março até enviou um plano ao BCE.
Formalmente, Domingues só se desvincularia do quadro do BPI a 31 de maio – quando completou o tempo necessário para se reformar, segundo veio a público e nunca foi desmentido. O que colocou logo o Governo numa situação insólita: ficou refém dos interesses particulares de um gestor, quando o mandato que tem do eleitorado é de pôr o  interesse público acima de tudo. E, segundo todos asseguram, a situação da Caixa urge.
Apesar de só se ter desvinculado do BPI no final de maio, Domingues, entretanto, já estava a trabalhar e a receber pessoas em nome da CGD. E, como o SOL noticiou há duas semanas, até contratou a consultora McKinsey para o ajudar a desenhar o plano de recapitalização da Caixa. Informalmente, claro, pois não fora ainda nomeado. Como é que a consultora aceitou e será paga? Não se sabe (aliás, ao que consta, essa mesma consultora tinha sido dispensada pela atual administração da Caixa…). E como é que o BPI aceita que um seu ainda gestor trabalhe para a concorrência? «Muito bem», disse esta semana o seu presidente, Fernando Ulrich – que lá terá as suas razões. O facto é que estão abertas as portas a todo o tipo de especulações.
Ora, o plano de António Domingues foi entretanto formalmente submetido ao BCE pelo Ministério das Finanças. Mas, segundo noticiou agora o Expresso, Frankfurt enviou uma duríssima resposta, a 30 de junho, que nos devia fazer corar de vergonha. Nomeadamente, disse que a injeção de 5,1 mil milhões é exagerada e que o plano de reestruturação e recapitalização feito pela McKinsey não passa de um power point com informação pública (pois, pudera…), sendo precisos mais dados internos da Caixa.
Em conclusão, o BCE disse que o plano gizado pelo «informally nominated candidate for CEO, António Domingues» («candidato informalmente nomeado para presidente executivo») é «irrealista» e «não credível».
Isto além de, como o SOL também noticiou, questionar a falta de currículo na banca e o potencial conflito de interesses que suscitavam alguns dos nomes da equipa escolhida por Domingues e que foram avançados aos jornais. Confrontado pelo Expresso com essa apreciação do BCE, António Domingues respondeu que desconhece o documento… Um mero jogo de palavras de quem é, já lá vão quase seis meses, o presidente informal da Caixa.
António Domingues terá grandes qualidades e experiência como gestor, mas aceitou sujeitar-se a este papel e colocar-se nesta situação. Por isso, quando finalmente tomar posse, já entrará na CGD diminuído por este rol inacreditável de informalidades. Perante tudo o que já se passou, fica desde já a dúvida, pelo menos, se será mesmo capaz de dizer não ao poder que estiver no momento no Governo. Entretanto, valha-nos o BCE.


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