domingo, 24 de julho de 2016

Os dominicanos em Angola

 
Frei Bento Domingues O.P.  – jornal Público

Os dominicanos angolanos são hoje a garantia de que a paixão evangelizadora de São Domingos e desses irmãos vão descobrindo e praticando caminhos de transformação da sociedade e da Igreja.

1. No Domingo passado, não tive condições para mandar, de Angola, a minha crónica para o PÚBLICO. A pedido do meu Provincial, vim a Luanda participar num conjunto de iniciativas de estudo organizadas pelos dominicanos angolanos. A perspectiva que me orienta, na realização do programa desenhado, é esta: outro mundo, outra Igreja e outra vida dominicana são possíveis. É uma questão de fidelidade à mensagem cristã. Jesus Cristo cresceu e foi educado nas tradições da religião de Israel. Quando hoje se fala de inculturação do Evangelho, algumas práticas pastorais julgam que se trata de adaptar o Evangelho a uma cultura. Se assim fosse, Jesus Cristo não tinha nada que fazer, pois já estava moldado pela sua herança judaica, cultural e religiosa. O que pode ser observado, tanto nos escritos de Paulo como nas narrativas dos Evangelhos, é que Jesus de Nazaré não se apresentou para perpetuar os costumes do seu tempo. Teve de discernir o que havia de mais vital na herança recebida e o que havia de opressor na religião mais recomendada, sob a invocação de Moisés: disseram-vos, mas Eu digo-vos!
Continuamos com certas orações que podem sugerir a consagração do conservadorismo: assim como era no princípio agora e sempre pelos séculos dos séculos, Ámen. Ora, no principio era a criatividade. A fé cristã está ligada a um Deus que não passou à reforma, mas que é criação contínua, suscitando criadores, não repetidores. Rezamos para que "pelos séculos dos séculos" não se extinga a criatividade dos que desejam ser fiéis ao Evangelho.
Musseques de Luanda
2. Não posso dizer que conheço Angola, embora noutros tempos tivesse trabalhado em várias províncias. Conhecer um "povo de povos" é um caminho sem fim. Eu só conheci Angola em guerra civil, nem antes nem depois. Seria estúpido fazer considerações e comparações entre um breve passado e a realidade actual. Não tenho vocação de repórter. Não sou sociólogo nem economista para epilogar acerca da nova Luanda, tão diferente daquela que conheci e que também não era um paraíso. Tenho a impressão que não foram os arquitectos paisagistas os mais consultados para desenhar a renovação desta cidade que já conta com 7 milhões de habitantes numa população nacional de 25 milhões. Duvido que sejam especialistas em sistemas de transportes que obrigam as pessoas a gastar mais tempo e energias a chegar aos seus empregos e a regressar a casa do que propriamente no trabalho. Não seria possível e mais eficaz cruzar a cidade de comboios e/ou de linhas de metro do que reduzir tudo a táxis e a transportes particulares? Parece que uma economia baseada sobretudo no preço do petróleo chegou a uma situação insustentável. Sobem os preços e baixa o poder de compra. A população mais carenciada é sempre a que mais sofre.
De um Estado marxista à privatização do Estado, o salto foi muito grande e a defesa dos direitos humanos pouco acautelada. Do ponto de vista humano e cristão, quando um Estado se coloca ao serviço de interesses privados, o bem comum é necessariamente sacrificado. Desse modo, não haverá interesse em ampliar e melhorar o ensino público, a todos os níveis, nem criar e desenvolver um Serviço Nacional de Saúde eficaz.
Quem desejar documentar-se e analisar estas questões, a nível local e nacional, poderá dirigir-se ao Mosaiko, Instituto para a Cidadania, fundado e assumido pelos Dominicanos em Angola, desde 1997. É um instituto angolano sem fins lucrativos, tendo sido a primeira instituição deste país a assumir explicitamente como missão: promover os Direitos Humanos em Angola [1].

D. Zacarias Kamwenho
3. Ao visitar os espaços da Paróquia do Carmo, entregue aos dominicanos, e onde vivi um ano como professor do Seminário de Luanda, fiquei comovido com a exposição das fotografias de frei João Domingos, frei José João e frei Luís de França que desapareceram do nosso convívio. São pessoas que fizeram suas as dificuldades de um povo vítima de guerras loucas e que não se resignaram a uma paz que recusa o abraço da justiça e a defesa dos direitos mais elementares. Os dominicanos angolanos são hoje a garantia de que a paixão evangelizadora de São Domingos e desses irmãos vão descobrindo e praticando caminhos de transformação da sociedade e da Igreja.
Tudo começou com frei João Domingos, frei Gil Filipe e frei José Nunes em 1982. Foi a mão generosa de D. Zacarias Kamwenho que os levou para Waku-Kungo (Diocese do Sumbe). Era então uma frente de guerra entre o MPLA e a UNITA.
Este bispo, mais tarde arcebispo do Lubango e prémio Sakharov, estava a realizar um grande plano de evangelização inculturada na sua diocese, servindo-se do modelo tradicional Ondjango [2] e pediu a colaboração destes missionários.
Reconhecendo o trabalho exemplar realizado em Waku-Kungo, os dominicanos foram convocados para uma presença mais alargada e diversificada em Angola da qual será preciso falar noutra crónica.


[2] Foi o tema da tese de doutoramento de frei José Nunes. Pequenas Comunidades Cristãs – O Ondjango e a Inculturação da fé em África-Angola. UCP,1991.    

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