domingo, 15 de maio de 2016

A Europa trocada

 
ANDRÉ MACEDO -
Jornal de NOTICIAS
Não há uma única cara nas notas de euro. Há pontes e fachadas e talvez outras coisas feitas por alguém, mas não há heróis e pessoas, não há homenagens a europeus que podiam ser distinguidos e lembrados - por exemplo, os que fizeram essas e outras obras - e que nos podiam talvez aproximar mais um pouco uns dos outros, recordando uma história comum que teve assassinos e monstros, mas que também viu nascer e cultivou génios e pessoas que lutaram a favor do bem contra o mal e que ficariam bem na face destas notas de 20 ou de 100 ou até nas de 5 euros. Os burocratas europeus quiseram fugir da polémica como hoje escapam das decisões mais difíceis que têm de tomar. Arrastam os pés. E então não há heróis nas notas. Ninguém reclamará que nas de 500 está um poeta deste e não daquele país, um cientista francês e não um alemão, o Pessoa ou o Cervantes, este ou aquele, o campeonato dos egos nacionais baniu, à cautela, as caras, os nomes e os apelidos, as origens que nos compõem e complementam. A memória europeia foi varrida para as moedas, porque pelos vistos é uma questão de trocos. O facto de as principais decisões financeiras serem tomadas no Eurogrupo, um órgão sem existência formal e sem atas - dois factos extraordinários aceites com passividade absoluta - que menoriza o que se discute no Parlamento Europeu (uma semifarsa em que só há aparência de poder), é outro dos símbolos desta Europa em perda - perda de legitimidade democrática, perda de identidade, perda de força. A história não tem de acabar mal. Mas a possível eleição de um governo de extrema-direita na Áustria, que tem 5% de desemprego, a subida da direita radical na Alemanha e na Polónia e a desgraça a que se assiste na Hungria, onde pontifica o perigoso Viktor Orbán, sem esquecer o ímpeto marxista do Podemos (o que quer mesmo?) e a balbúrdia do Syriza (desistiu da revolução?), tudo isso deveria obrigar os europeus a reagir e a juntar-se. A crise financeira, de que o brexit é sintoma, o drama dos refugiados e os Estados falhados que se amontoam e armam à volta da Europa, contra a Europa - tudo isso obriga a que haja finalmente uma reação política capaz de vencer a inércia. Os líderes atuais? Esses nem nas moedas merecem estar.


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