01/11/2015
Não há dia em que não apareçam duas dúzias
de iluminados, dispostos a revelar os mistérios da nossa vida.
A televisão, o Komentariado, a internet e
os jornais não fazem outra coisa senão discutir o sentido do voto de 4 de
Outubro; um governo que aparentemente existe mas não governa; um governo que
não existe mas vai governar; o que o Presidente parece ter querido dizer; o que
o presidente de certeza não disse; o estado de espírito de António Costa; o que
verdadeiramente pensa, ou não pensa, Jerónimo de Sousa; um “pacto” que haverá
ou não haverá entre o PS, o Bloco e o PC; a exacta natureza e a “estabilidade” desse
pacto; o que por aqui e por ali declaram os “notáveis” partidários; as
tradições da democracia indígena; e a aflição da “classe média”. O mais curioso
sobre esta polémica apaixonada e febril é que ninguém sabe, nem quer saber,
rigorosamente nada sobre o que está a discutir.
Como se pode discutir sobre nada? Por um
processo semelhante ao que os romanos usavam
matando bois. Na falta de bois e só com galinhas congeladas, os peritos
de agora examinam a “crispação” ou a “descrispação” das personagens políticas,
e a frase ocasional que elas deixam escapar; as “manchetes” do Expresso (que
são oraculares) e a magreza ou o cansaço dos santinhos da história. A culpa não
é dos jornalistas, nem do Komentariado. A culpa é da etiqueta estabelecida para
mudar de governo, que não passaria pela cabeça de Luís XIV, e do gosto pelo
segredo das “figuras” do Estado e dos partidos, que medem a sua dignidade pelo
pouco que revelam ao povo sobre os negócios em que se meteram e nos meteram.
Não admira que enxames de portugueses desesperados repitam desesperadamente as
mesmas coisas, como se o mundo acabasse agora.
Mas tristezas não pagam dívidas, como
Bruxelas nos costuma advertir: e um pouco de ignorância anima a vida e permite
a qualquer estúpido perorar sobre o que lhe apetecer. Não há dia em que não
apareçam duas dúzias de iluminados, dispostos a revelar os mistérios da nossa
vida. É gente que gosta de barulho e não gosta de ideias e que também merece a
nossa consideração numa democracia moderna. Claro que o público fica tão
confundido como estava, mas também os portugueses tiveram 50 anos de treino de
ouvir e calar. A única diferença é que hoje ouvem e respondem e é como se não
ouvissem, nem respondessem. O espectáculo, até sem luzes, sempre consola mais.
E, no meio da confusão, a PIDE nem sequer lhes bate.


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