17/11/2015 - in: JORNAL PÚBLICO
O apelo ao argumento patriótico é
incendiário, mas não deixa de ser uma marca indelével de fragilidade e
fraqueza.
1. De há muito que me preocupa
uma profunda incompreensão da natureza e do lugar da política europeia por
parte de muitos sectores da “classe” política. De cada vez que se fala da
política portuguesa em Bruxelas ou noutros areópagos europeus e internacionais,
logo emerge um punhado de políticos a rasgar as vestes e a bramir contra a
falta de patriotismo de quem se atreveu a tratar de assuntos “nacionais” diante
de instâncias externas. Na semana passada, quando, a propósito do semestre
europeu, exprimi no Parlamento Europeu preocupação com o roteiro despesista da
“pseudo-coligação” PS/extrema-esquerda, logo choveu um coro de críticas e a
acusação de antipatriotismo. Não faltou quem dissesse que estava a fazer
“queixinhas” de Portugal à burocracia europeia e, qual delator, estava a fazer
denúncias para ver se a União “castigava” Portugal e os mercados derrapavam e
“puniam” o nosso país e o nosso povo. Não faltam – com efeito, abundam –
episódios como este, em que uma espécie de guarda dos “bons costumes” do
“nacionalismo” e do “patriotismo” vigia com zelo e com deleite os políticos que
ousam falar “lá fora” de assuntos “cá de dentro”.
2. A questão é especialmente
grave porque ela procura desqualificar certos políticos bem como alguns
comentadores, colando-lhes o labéu de deslealdade para com a pátria, de
corrupção e corrosão dos valores de fidelidade à pátria. Do que se trata é, não
propriamente de contrariar os argumentos usados, mas de desmoralizar e
depreciar pessoalmente o autor da argumentação. E esta acusação, cada vez mais
recorrente, reveste maior gravidade ultimamente, porque a facilidade com que se
fala na dicotomia patriotas/antipatriotas está ao serviço da estratégia de
radicalização em curso. Basicamente quem, no plano europeu, tentar defender as
políticas que evitaram a entrada do país em bancarrota é tido como antipatriota
e com isso é arremessado para o limbo dos imprestáveis e intocáveis.
3. Esta linha dura de
identificação, quiçá “fichagem”, dos antipatriotas carece de senso, de siso e
de sentido e não tem aderência à realidade. Quando se acusa um ministro de
prejudicar o país, por tratar de assuntos nacionais num fórum europeu, faz-se
geralmente uma impostação sujeita a ricochete. Nos últimos anos, o núcleo
ungido dos patriotas fartou-se de criticar o Governo da coligação e as suas
políticas em todos os fóruns internacionais e nunca ouviram dos visados nenhuma
insinuação de antipatriotismo. Basta pensar na quantidade de vezes em que
muitos dos higiénicos patriotas proclamaram urbi et orbi que a dívida lusa é
impagável e no risco que essa proclamação poderia ter para o país, para logo
nos darmos conta de que o argumentário “patrioteiro” é um expediente retórico
de mera conveniência.
Esses tais, que se indignam com o
perigo de ingerência europeia nos assuntos internos e se escandalizam com as
declarações de políticos europeus sobre a política portuguesa, são rigorosa e
exactamente os mesmos que falam sem parar sobre a política alemã e Angela
Merkel, as vicissitudes húngaras e Viktor Orbán, as desditas gregas e Alexis
Tsypras. Eles podem opinar sobre a Frente Nacional, as eleições catalãs e as
posições de James Corbyn, mas os políticos europeus – especialmente se forem do
PPE (essa genuína fonte do mal, nos recentes escritos de Pacheco Pereira) – têm
de permanecer hirtos e silentes a respeito de toda e qualquer movimentação
política em solo lusitano.
Este novo eixo de
angelização/diabolização patriotas/antipatriotas resulta de um erro e de um
logro de palmatória, que é a perspectivação da política europeia como pura
política externa e das instâncias europeias como instâncias estranhas,
exteriores ou alienígenas. Ora, ao invés do que pretendem os higienistas da
pátria, a política europeia é política nacional, política interna ou, no pior
dos cenários, um híbrido de política interna e de política externa. O grau de integração
e de imbricação das plataformas políticas nacionais entre si e com o nível
europeu é tal, que é impossível – e acrescento indesejável – conceber esses
níveis ou plataformas como compartimentos estanques e apartados. Eis pelo que o
tratamento de matérias nacionais pertinentes na esfera europeia ou vice-versa
nada tem de anómalo ou de mefistofélico, antes é uma decorrência natural e até
imperativa da ordem política hodierna. E, por isso, o recurso canhestro à
segregação entre patriotas e não patriotas, consoante se cala ou se fala no
espaço exterior, não passa de um truque retórico maquiavélico e perigoso ou,
mais benignamente, de uma atávica manifestação de paroquialismo ou
provincianismo.
4. Mesmo antes, já havia na
política portuguesa laivos de um “moralismo patriótico”. Na verdade, havia
políticos que se consideravam os “donos da pátria toda” e que se julgavam mais
patriotas que os restantes: é o caso bem conhecido de Manuel Alegre. E, por
isso, de há muito que designo este fenómeno de “nacional-alegrismo”. Mas agora,
no quadro do agudizar da bipolarização política, a situação agravou-se. Não por
acaso, o PCP refere-se sempre a uma “política patriótica e de esquerda” como se
toda a restante fosse contrária ao interesse nacional. E, com mestria, mais
subtil e perigosamente, Pacheco Pereira já chegou a identificar os europeístas
com os adeptos da dissolução filipina em Espanha. Mais recentemente, elege,
aliás, o PPE como uma espécie de irradiador da submissão e da dependência. Tudo
redunda naquele dualismo patriotas/antipatriotas que, para além de falso,
radicaliza as posições políticas e contamina o debate público são e
esclarecido. O apelo ao argumento patriótico é incendiário, mas não deixa de
ser uma marca indelével de fragilidade e fraqueza.
P.S.: São muitos os que têm dito
que se o Presidente houvesse antecipado eleições, não teria perdido a arma da
dissolução. Enganam-se. Nunca poderia haver dissolução nos primeiros seis meses
da nova Assembleia e estes colar-se-iam aos últimos seis meses do mandato.


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