segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A Júlia de Chaves e a solidariedade do António - Jorge Lage


Jorge Lage
1- A Júlia de Chaves e a solidariedade do António – é uma história de vida a que não sei o princípio nem o fim. Para mim, tudo começou um dia, em Braga, na Avenida Central, próximo da Igreja dos Congregados, mais exactamente junto á unidade hoteleira, Albergaria Bracara Augusta. Esta Albergaria, do simpático e atencioso barrosão, António Costa, nasceu em edifício renascentista (?) muito bem restaurado e está situada no caso velho da cidade, tendo acoplado o Restaurante Centurium, um dos melhores de Braga. Mas, iniciei esta embelga de letras, a falar duma história de vida. Então, vamos ao princípio daquela em que tomei parte. Há uns dois ou mais anos, à hora de almoço a minha mulher aparece-me em casa desolada: «- Junto à Albergaria Bracara Augusta estava uma velhinha a pedir dinheiro para ir na camioneta para Chaves! Até venho incomodada porque era tão velhinha, tão boa e como está a chover estava molhadinha, com as sapatilhas encharcadas. Deu-me tanta pena!... Pediu-me ajuda para o bilhete da carreira para ir para Chaves. Só tinha no porta-moedas seis euros e dei-lhos. Mas se mais tivesse mais lhe dava.» Pareceu-me que estava a exagerar e talvez fosse mais uma das pedintes capaz de comover as pedras, para sacar uns cêntimos ou euros. Nas minhas idas ao centro do centro da cidade deparei-me, também, a uma sexta-feira, junto à Albergaria, com a «velhinha» que a minha mulher falava. Primeiro pensei que teria pouso na cidade de Braga, mas á medida que fomos travando confiança, fiquei sem dúvidas de que era de Chaves. Conhecia bem Águas Frias, Valdanta ou as «Casas dos Montes». E ao falar-lhe nestas nossas terras mudava de tom, mais familiar: « - conhece? Também é de lá?». Sempre que a questionava como tinha chegado ali, dizia-me sempre: «- venho do Porto, do Hospital, e estou a pedir para ajuda do bilhete da camionete de Braga para Chaves». Aparecia sempre à sexta-feira e o António proprietário da Albergaria, dava-lhe atenção e comida e deixava-lhe guardar a sacola dos pertences na sua luxuosa casa hoteleira. Quando a mãe do António foi internada no Hospital de Chaves prontificou-se para a ir visitar. A simpática e encantadora octogenária informou-o que residia no Campo da Feira, em Chaves, deu-lhe referências da sua casinha e até da porta. A forma feliz como o António se referia à Luísa era sempre de carinho e ternura e apenas a conheceu por pedir junto à sua bela Albergaria. Nos seus olhos aparecia sempre a felicidade de ajudar uma das nossas conterrâneas. Ele deve ter tido um bom berço e sabe bem quanto custa subir a pulso a corda da vida, já que foi emigrante em Londres, batendo a cidade em quatro rodas. Conversei algumas vezes com a Luísa, dava-lhe um euro, por vezes, e quando lhe perguntei, há um ano, se as castanhas já pingavam em Chaves, iluminou-se-lhe o rosto e disse-me: «- hei-de lhe trazer castanhas quando as houver!» Recebeu um sorriso meu e um abraço pela sua bondade simplória. É claro que não trouxe e eu continuei a encontrá-la e até lhe pedi para me deixar tirar uma foto para o jornal, a que ela acedeu. Agora, quando passo junto à Albergaria Bracara Augusta, sinto saudades da nossa velhinha Luísa. Que bom seria vê-la na Feira dos Santos em Chaves, onde já marquei pousada, no Hotel Forte S. Francisco. Assim, em memória da Luísa e de todas as nossas «velhinhas Luísas», deixo anexo ao texto uma foto sua, junto à Albergaria Bracara Augusta. Faz-me falta continuar a ver a Luísa!

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