A Júlia de Chaves e a solidariedade do António - Jorge Lage
Jorge Lage
1- A Júlia de Chaves e a solidariedade do
António – é uma história de vida a que não sei o princípio nem o fim. Para mim,
tudo começou um dia, em Braga, na Avenida Central, próximo da Igreja dos
Congregados, mais exactamente junto á unidade hoteleira, Albergaria Bracara
Augusta. Esta Albergaria, do simpático e atencioso barrosão, António Costa,
nasceu em edifício renascentista (?) muito bem restaurado e está situada no
caso velho da cidade, tendo acoplado o Restaurante Centurium, um dos melhores
de Braga. Mas, iniciei esta embelga de letras, a falar duma história de vida.
Então, vamos ao princípio daquela em que tomei parte. Há uns dois ou mais anos,
à hora de almoço a minha mulher aparece-me em casa desolada: «- Junto à
Albergaria Bracara Augusta estava uma velhinha a pedir dinheiro para ir na
camioneta para Chaves! Até venho incomodada porque era tão velhinha, tão boa e
como está a chover estava molhadinha, com as sapatilhas encharcadas. Deu-me
tanta pena!... Pediu-me ajuda para o bilhete da carreira para ir para Chaves.
Só tinha no porta-moedas seis euros e dei-lhos. Mas se mais tivesse mais lhe
dava.» Pareceu-me que estava a exagerar e talvez fosse mais uma das pedintes
capaz de comover as pedras, para sacar uns cêntimos ou euros. Nas minhas idas
ao centro do centro da cidade deparei-me, também, a uma sexta-feira, junto à
Albergaria, com a «velhinha» que a minha mulher falava. Primeiro pensei que
teria pouso na cidade de Braga, mas á medida que fomos travando confiança,
fiquei sem dúvidas de que era de Chaves. Conhecia bem Águas Frias, Valdanta ou
as «Casas dos Montes». E ao falar-lhe nestas nossas terras mudava de tom, mais
familiar: « - conhece? Também é de lá?». Sempre que a questionava como tinha
chegado ali, dizia-me sempre: «- venho do Porto, do Hospital, e estou a pedir
para ajuda do bilhete da camionete de Braga para Chaves». Aparecia sempre à
sexta-feira e o António proprietário da Albergaria, dava-lhe atenção e comida e
deixava-lhe guardar a sacola dos pertences na sua luxuosa casa hoteleira. Quando
a mãe do António foi internada no Hospital de Chaves prontificou-se para a ir
visitar. A simpática e encantadora octogenária informou-o que residia no Campo
da Feira, em Chaves, deu-lhe referências da sua casinha e até da porta. A forma
feliz como o António se referia à Luísa era sempre de carinho e ternura e
apenas a conheceu por pedir junto à sua bela Albergaria. Nos seus olhos
aparecia sempre a felicidade de ajudar uma das nossas conterrâneas. Ele deve
ter tido um bom berço e sabe bem quanto custa subir a pulso a corda da vida, já
que foi emigrante em Londres, batendo a cidade em quatro rodas. Conversei
algumas vezes com a Luísa, dava-lhe um euro, por vezes, e quando lhe perguntei,
há um ano, se as castanhas já pingavam em Chaves, iluminou-se-lhe o rosto e
disse-me: «- hei-de lhe trazer castanhas quando as houver!» Recebeu um sorriso
meu e um abraço pela sua bondade simplória. É claro que não trouxe e eu
continuei a encontrá-la e até lhe pedi para me deixar tirar uma foto para o
jornal, a que ela acedeu. Agora, quando passo junto à Albergaria Bracara
Augusta, sinto saudades da nossa velhinha Luísa. Que bom seria vê-la na Feira
dos Santos em Chaves, onde já marquei pousada, no Hotel Forte S. Francisco.
Assim, em memória da Luísa e de todas as nossas «velhinhas Luísas», deixo anexo
ao texto uma foto sua, junto à Albergaria Bracara Augusta. Faz-me falta
continuar a ver a Luísa!
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