Se o dr. Cavaco
resolver dar posse a António Costa não dará posse com certeza a um governo
coerente, estável e duradouro.
Um acordo com uma dúzia de pontos, mesmo
multiplicado por três, nunca pode ser a garantia da actividade de um governo.
Governar, como toda a política, é um conflito permanente: entre membros de uma
coligação (se ela por acaso existe), entre ministros, entre quem manda e quem
deve obedecer mas não obedece. Ao fim de oito dias um compromisso jurado ou
escrito num papel acaba por se tornar numa vaga promessa irreconhecível e
amputada. As decisões que se tomam em S. Bento ou na Gomes Teixeira dependem do
dinheiro, da oportunidade, da resistência que provocam e de um apoio ilusório e
pouco previsível. O resto não passa de uma conversa metafísica a benefício da
Assembleia da República ou da televisão, que tende a acreditar no que lhe dizem
e a não perceber as coisas.
Se o dr. Cavaco resolver dar posse a
António Costa não dará posse com certeza a um governo coerente, estável e
duradouro. Dará posse a uma velha igreja que sempre se distinguiu pelas suas
querelas teológicas e que, apesar de caduca, não desistiu do exercício. Os
grupinhos que infestaram a Primavera e o Verão de 2015 não foram engolidos pela
sua triste figura eleitoral. Estão aí por detrás de cada pedra à espera que
Jerónimo, Catarina ou Costa mexam um dedo para os desfazer com aquele ódio
fraternal que distingue a verdadeira esquerda. E hoje com a ajuda das centenas
de “sensibilidades” do PS, que o novo regime deixou de fora e por quem os
jornalistas se pelam para estabelecer a sua trapalhadazita da ordem. O dr.
Cavaco irá dar posse a uma balbúrdia, por definição instável e incoerente, e
ainda por cima bastante mais curta do que ele pensa. No meio desta catástrofe
só me espanta o dr. António Costa: não o achava estúpido, juro que não.

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