segunda-feira, 29 de junho de 2015

O referendo de Varoufákis apela à liberdade


Os comentários sobre a Grécia atingem o limiar da cretinice. Os que nada sabem chegam a alvitrar que os Gregos são uns malfeitores. Não são. Os governos recentes cometeram erros ao não executar reformas, mas os erros corrigem-se. Ninguém, por errar, pode ser considerado um malfeitor.
A Grécia moderna viveu séculos sobre o domínio Otomano, um sistema despótico e corrupto. Quando no século XIX se tornou independente (com a ajuda da Europa, mais concretamente da Inglaterra, a grande potencia à época) não se livrou do sistema corrupto. Formou um Estado que não era Estado, mas sim a coutada de alguns. Para piorar a situação, ao não formar um Estado moderno com instituições credíveis, permitiu, nestes últimos 50 anos, que os corruptos mandassem no país como numa quinta sua. E quando entraram para a Comunidade Europeia, as instituições europeias permitiram que o regabofe continuasse, com os escândalos políticos do PASOK instalado no poder. Poderiam ter travado a tragédia, mas não o fizeram. E ao não o fazerem contribuíram para toda esta miséria.
Poderemos enganar-nos, mas é a primeira vez que estamos com o Doutor Varoufákis. Não com as ideias do seu partido, mas com o sentido político do referendo. Apresentou três razões credíveis para não assinar o acordo, sendo a primeira a que mais ressalta aos espíritos humanistas: As medidas que o governo grego tinha de implementar imediatamente eram recessivas e afectavam os gregos com menores rendimentos.
E a Europa devia ter a vergonha que não tem. Não apenas em relação aos Gregos, mas a todos os povos obrigados aos programas de profunda austeridade. Uma coisa é pagar-se o que se pode, outra é ser obrigado a pagar o que se não tem. Sobretudo porque o sistema legal criado pelos países europeus (como Portugal), na última década, é manifestamente defeituoso (em certos casos corrupto). Não serve o bem comum, mas apenas alguns. Os exemplos são conhecidos de todos. Banqueiros que arruinaram economias de nações, e andam por aí; administradores que arruinaram empresas públicas e ainda receberam indeminizações de milhões; crápulas que prestam um serviço público de favoritismo, usando as estruturas públicas de forma autoritária, promovendo a corrupção, prejudicando profissionais de mérito e, portanto, o próprio Estado; as multinacionais fogem aos impostos impunemente, ao criar empresas-fantoche em paraísos fiscais, deixando a carga fiscal a cargo dos cidadãos dos países onde foram buscar os seus lucros. O mesmo acontece com os muito ricos.
O Governo grego ao propor ao povo que o elegeu um referendo, sobre o acordo, merece o nosso respeito. Como há 2500 anos, os Gregos manifestam a sua originalidade. À política o que é da política, à economia o que é da economia (ao dinheiro o que é do dinheiro). Demócrito (456-370? a. C.), dizia com propriedade: “Ganhar dinheiro não é coisa inútil, mas se se alcança com injustiça é o pior dos males”. E a Tales de Mileto (640-548 a. C.), atribui-se o seguinte aforismo: “Evita enriquecer por vias desonestas”. Ora esta Segunda-feira à custa da miséria grega fizeram-se fortunas colossais.
Não sabemos no que vai dar o referendo grego. Poderão escolher assinar o acordo (que é o desejável se reformulado e como as recentes sondagens indicam), mas poderão optar pelo contrário. Se optarem pelo contrário sairão da Comunidade. Ficarão isolados? Talvez não. Mas tornam-se livres para reger o seu destino e quiçá os promotores de uma nova ordem mundial económica. Fizeram-no no Verão do ano de 480 a.C., nas Termópilas, perante o poderoso exército persa de Xerxes.
É que esta economia global que tem sido vendida ao comum dos mortais, parece ter os dias contados na visão de muitos especialistas na matéria. Todos os grandes motores da economia mundial estão com problemas: a China, Angola, Brasil …
Dir-nos-ão alguns que estamos contra corrente. Bem o sabemos. Sabemos do exemplo da Argentina, que não é exemplo nenhum. Hoje sabe-se, ou julga saber-se da origem das grandes fortunas argentinas, incluindo a da sua presidente. E os grandes acontecimentos que formaram o Mundo foram todos contra corrente porque tinham como objectivo a liberdade. Pelo contrário, é facilmente verificável que aqueles que se deslocam a favor da corrente, em determinadas ocasiões, navegam em águas pantanosas e lúgubres.
Armando Palavras


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