quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

TRANSMONTANISMOS de Telmo Verdelho




Telmo Verdelho


TRANSMONTANISMOS

Nativo de Trás-os-Montes, amante e sempre saudoso da terra, muitas vezes me questiono sobre a razão de ser e de parecer desta condição de origem, arrastada como uma “espécie de sandice”, pelos transmontanos que vagueiam pelo mundo. Toda a gente é “natural” de um lugar. Mas, para além disso, é razoável pensar que todos os humanos são ontologicamente indiferenciados, como a virtualidade do número que nos conta, numa quantidade sempre crescente, de iguais e mais iguais. Na consciência ocidental do fenómeno humano, a notação de origem é uma referência irrelevante para um percurso de plenitude. A afirmação de S. Paulo «Já não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher (…)» (Gálatas3,28, reiterada em Romanos, e Colossenses 3,1-4,6) ilumina o sentido da radical igualdade do humano, haja ou não motivação transcendente. Somos todos iguais. Todavia, do ser não saberei falar. O que eu observo é o modo. Entre as diferenças de modo, gostaria de entender esta singularidade que nos atribuímos, porque julgamos ser únicos, nós os transmontanos. Serve-me, desde logo, a percepção comum do tempo e do espaço como coordenadas que nos identificam e nos distinguem de todos os outros. Toda a gente é “natural” de um lugar, e não pode mais deixar de ter nascido nesse lugar, e por isso, a “naturalidade” é o primeiro grau da memória que nos reconhece. Não sei se alguma província doconhecimento  humano (hoje que se pretende fazer ciência sobre toda a realidade, “res visibilia et invisibilia”) sabe explicar esta condição dos viventes. A memória do lugar, preenchida pelos rostos, pelas coisas, pelos usos e costumes, é como uma confi- guração mental instituidora, uma referência ou “marca” de pertença que se repercute para sempre no horizonte do quotidiano de toda a gente. Entende-se que não se devem valorizar diferenças de condição nesta barca do mundo, pelo risco da dominação injusta. Em todo o caso, não me preocupa aqui a controvérsia. Para mim, os qualificativos de superioridade ou de inferioridade não implicam o domínio das vontades.Todo o homem é meu irmão e não tomo a variedade das gentes comorazão de hierarquias ou excelências, a diferença traz a surpresa do gostode viver e o desterro da monotonia.O nosso lugar-donde é fonte, é matriz, é campo de descoberta eaventura, e tem amplidões, recantos e jardins secretos para acolhertodos os sonhos que pudermos inventar.Temos uma recheada antologia de descrições de Trás-os-Montescom predicados gloriosos e epítetos cintilantes, que exaltam a suabeleza entretecida de contrastes, lendas e mistérios. Descrevem avariação orográfi ca e a soberania das alturas, a aspereza e a harmoniapolicromática dos montes e vales, deixando transparecer um quadro degrandezas e de atrevimento humano no confronto quotidiano, quasesolitário, com a natureza e os seus grandes silêncios. Uma espécie de solidão vivida em grupo conivente e solidário.Não poderemos saber se Trás-os-Montes é realmente um lugar no mundo com objectiva superior belezanatural. Os poetas enganam-nos, por seu natural ofício e, em qualquer caso, quem faz a beleza do mundosão os olhos das mulheres e dos homens. O grau zero da verdade aconselha-nos a pensar que todos oslugares do globo têm uma mensagem criadora e, por isto ou por aquilo, são todos incomensuravelmentebelos. Mas porque este lugar é a terra do meu pai, sufi cientemente por isso mesmo, me fascina e é merecedor dos epítetos e da oratória generosa. Proclamo a beleza suprema do “rio da minha aldeia”.
O nosso “reino maravilhoso” é memória, entre nós cultivada que nos compraz e nos compensa dodesencontro dos tempos e das injúrias dos políticos.Os turistas simpáticos dizem-nos que Trás-os-Montes “tem horizontes cristalinos e paisagensgrandiosas e espectaculares”. Eu acho que eles vêem pouco. Da minha infância transmontana guardo
uma reminiscência jubilosa e digna de todos os louvores do Criador, evocados no salmo 148: O sol, a lua e as estrelas que brilham, a sinfonia do vento e da chuva “et omnes abyssi; ignis et grando,nix et glacies” e os montes e vales esplendorosos, e os animais do campo e as árvores que dão fores e frutos, que oferecem o refrigério da sombra e que ensinam o viver lento e paciente.
A nossa terra faz-nos falta para falarmos da felicidade. Lá podemos situar aquela Pasárgada que tem tudo e, para além de tudo, tem ainda os impossíveis sonhos que vão preenchendo a nossa esperança de viver.
Não sei se a realidade etno e geo-política, de que falo, chamada Trás-os-Montes, ainda existe. Pela minha parte, tenho consciência de que falo do passado e de uma região que vai perdendo, se não perdeu já completamente, a consciência da sua regionalidade. Trás-os-Montes é hoje um espaço geográfico apenas diferenciado por ser considerado um “dos mais atrasados da Europa”. Este discurso “sôbolos rios que vão” poderá servir, em todo o caso, para salvar as “lembranças contentes”.
Na literatura portuguesa, as referências a Trás-os-Montes, são geralmente marcadas por uma certa complacência, sobretudo entre os autores nativos. A eles devemos, em grande parte, essa imagem que nos colocava entre as “mais típicas províncias de Portugal” segundo a expressão de Fialho de Almeida (Os Gatos). Tínhamos a protecção da distância que nos redourava de mistério e nos conservava como reino de encantamentos.
Desconsiderada a excepção de Eça de Queirós, citadino e disfémico, que teve a desinspirada ideia de inventar “um estudante de teologia, rude e sebento transmontano” (Os Maias) (perdoamos-lhe a afronta, talvez ditada por alguma circunstância de maus humores contra Camilo, ou pela intenção mais sibilina de evocar criticamente o “transmontanismo” papal — do italiano “tramontanismo”), são gerais, na memória literária, os testemunhos de generosa apreciação. Para além das louvadas belezas naturais e das boas qualidades das gentes, neles vemos repetidos alguns emblemas que nos eram atribuídos e que nos compraziam. Um dos mais comuns exaltava a nossa hospitaleira franqueza. Tomo a citação de Ramalho Ortigão, “escritor viajado” e com lugar canónico na galeria dos observadores críticos da nação: «Quem bate a uma porta no Minho tem a certeza de ouvir, noventa vezes sobre cem, as seguintes perguntas: – Quem está aí?... quem é o senhor?... quem procura?... que lhe quer?... Quem bate a uma porta em Trás-os-Montes tem iguais probabilidades de ouvir uma única resposta. Entre quem é.
O minhoto é humilde, resignado, sofredor; por isso timorato e precavido. O trasmontano é resistente e arrebatado; por isso é aberto e decisivo.» (As Farpas, t.1. p. 23, Lisboa, 1887, transcrição com actualização ortográfica).
Na minha adolescência, sem querer intencionalmente verifi car a persistência deste emblema, juntamente com outros moços estudantes, percorríamos, nas férias da Páscoa e do Natal, as casas da nossa e de outras aldeias, e pudemos confi rmar a asserção, sem uma única quebra.
«– Entre, – Quem é?». E entrávamos, e o encontro era sempre uma festa memorável e inesperada como um céu aberto ou um segredo desvendado.
Não era tanto uma questão de franqueza, era sobretudo uma atitude de solidariedade elementar, pressuposto antiquíssimo de civilização. Quem bate à porta não é ladrão e precisa de entrar, porque fora das casas sempre estará a inclemência do tempo. E depois, «quem mal não usa, mal não cuida e mal não teme».
Um outro ditado emblemático aflorava de modo frequente no nosso discurso colectivo: «Para cá do Marão mandam os que cá estão». Digo “aflorava”, continuo a falar do passado, porque já agora o discurso mudou, e mudaram também as condições das vidas e do relacionamento com os gabinetes do poder.
Já nem os montes nos protegem do esvaziamento da riqueza humana e económica. Estamos à mercê das unhas insolentes e prepotentes do centralismo político. Bem dizem os sábios que todo o poder é egoista e faz as leis em seu favor, muitas vezes em prejuízo da comunidade e sempre com desdém pelos fracos. Lisboa perdeu a consciência de um espaço nacional, não lhe interessam as fronteiras nem as regiões fronteiriças que estão vazias de votos, e não dão acesso às galerias do poleiro nem às gamelas do orçamento. E, pelo pior, o centralismo jacobino coalesce agora com as dependências da globalização. As regiões ditas do interior sofrem dependências, como nunca tinha acontecido, até ao limite da sobrevivência. Que os portugueses vão nascer a Badajoz, tornou-se um facto sem qualquer outro sentido, para além da pura moralidade económica. Para as mentes iluminadas do Terreiro do Paço não é possível encontrar qualquer outra dimensão nos vínculos de corresponsabilidade que relacionam as comunidades humanas. O mais interessante dos nossos ditos emblemáticos é o que afi rma a radical disponibilidade para aceitaro outro e para colaborar no bem comum: «Por bem não há quem!»
O enunciado, pelo seu aticismo e pelo peso dos anos, pode parecer um pouco enigmático para os portugueses de hoje, mais habituados ao discurso televisivo do que ao texto escrito. São densos e abertos os sentidos que contém e que sugere. Antes de mais nada, a recusa da parcialidade e da discriminação, e depois a generosidade fraternal para o acolhimento e para a relação com os outros.
Integra-se neste lema um quadro da relação social que se verificava na vida quotidiana, e sobretudo nos momentos de encontro de populações de diferentes terras, em actos festivos e nas feiras periódicas. As festas e as feiras da minha infância e adolescência estão abundantemente preenchidas por rituais de encontro, celebrados como anagnórises de redenção. O reconhecimento do outro é uma oportunidade de superação dos nossos limites, alarga a esperança da vida e aproxima da felicidade. Surpreendentes, exóticos, sempre acolhedores e verdadeiramente recreativos eram os homens e as mulheres de outras terras. Traziam muitas novidades e a certeza de que o mundo também podia ser interessante para além da nossa aldeia.
A nossa sociabilidade era feita pelo gosto de reconhecer o outro, de o nomear e de o referenciar com aquela afeição crítica que sabe dar sabor à diferença de cada um.
Os habitantes de todas as povoações, grandes e pequenas, tinham um epíteto ou apodo ou “nomeada” que os singularizava. É certo que também os de Lisboa são “alfacinhas” e os do Porto são “tripeiros” e, por outro lado, no adagiário português há vários enunciados proverbiais caracterizadores do imaginário simbólico, que distingue alguns povos e terras. como por exemplo: «Arrenego do mouro e do judeu e do homem de Viseu e do braguês que é pior que todos os três; mas lá vem o do Porto, com seu contrato, é pior que todos os quatro, e o de Santarém que não fi ca a dever nada a ninguém, e o de Beja que a nenhum deles tem inveja, mas o ilhéu é de se lhe tirar o chapéu, e pior é o de Lisboa que de todos se abotoa.»
Mas não são coisas comparáveis, nem pelo vulto urbano, nem pelo espaço discursivo, raro e obliterado. As nossas cognominações entretecem a relação, são como uma carta de reconhecimento que nomeia e identifica. São um elaborado hipertexto que faz parte da tradição oral transmitida como um exercício da cultura que institui e dimensiona uma comunidade.
O Abade de Baçal (Francisco Manuel Alves – 1865-1947), nas suas épicas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, recolhe esses epítetos etnonomásticos, às centenas, porque os há para todas as terras e com muitas variantes. E o bom do Abade ainda deixou passar intencionalmente alguns chamadoiros «de carácter cornígero, coprológico e mundaneiro, por serem demasiado livres e principalmente porque são filhos da maledicência e não têm curso geral popular» (Bragança, 2000, t. IX, p.260).
Não sei de outras províncias que assim tenham cultivado o reconhecimento colectivo e pormenorizado dos lugares e das gentes. Muitos desses apodos formam sequências versifi cadas e são verdadeiros hinos, com recorte literário, de homenagem à capacidade de convívio espirituoso e fraternal de toda a região.
Os de Vale de Gouvinhas eram “cataventos”, os da Bouça “paniegos” ou “talouqueiros”, os de Vale das Fontes “torgueiros”, “engomadinhos” os de Miradezes, os da Fradizela “fouceiros”, “lavradores” os das Aguieiras, os de Carvalhais “pucareiros”, nos Avantos são “aranhões”, “barbas” em Chelas, “cucos” nas Pousadas e “escaravelhos” em Paradela, os de Frechas são “peixeiros”, no Navalho “pelados”, e “beldroegas” em Vale de Prados, “malucos” em São Salvador, em Vale de Juncal “doutores”, “borrachos” em Contins, e na Longra “matadores”, etc…
Percorrendo as várias centenas de epítetos encontramos um universo semântico muito informativo sobre a região e as suas características geográfi cas, económicas e humanas. Muitos deles são formados com o sufixo - eiro: aguazileiros, albardeiros, arranheiros, azeiteiros, balfurinheiros, batateiros, batoteiros, besteiros, bicheiros, bioqueiros, bodegueiros, bolhaqueiros, burriqueiros, caceteiros, caixeiros, caloteiros, caneleiros, cantareiros, carneireiros, carneiros, carrasqueiros, carreteiros, carunheiros, carvoeiros, casqueiros, cavouqueiros, ceboleiros, cerejeiros, chaleiros, chicheiros, chocalheiros, cinteiros, coelheiros, coimeiros, costaneiros, costiceiros, escudeiros, espingardeiros, ferreiros, fi gacheiros,
foiceiros, fouceiros, fraguiceiros, furagateiros, gaiteiros, gougueiros, granjeiros, justiceiros, latoeiros, madronheiros, malapeiros, mamoteiros, medeiros, meleiros, merendeiros, moleiros, nabinheiros, oleiros, onzeneiros, padeiros, pateiros, peixeiros, peliqueiros, peneireiros, pepineiros, pereiros, periqueiros, piconheiros, pisoeiros, piteiros, pucareiros, queijeiros, rabequeiros, ranzeiros, salseiros, sardinheiros, sobreiros, sopeiros, soqueiros, soreiros, sumagreiros, taberneiros, taligueiros, talouqueiros, tamborileiros, tamborileiros, telheiros, tendeiros, torgueiros, torgueiros, vassoureiros, zaragateiros.
Além da pesrpectiva semântica, nota-se a inventiva linguística no recurso a formações disfémicas e muito expressivas como os diminutivos e aumentativos, atribuídos aos “fregueses” de vários lugares: coitadinhos, descansadinhos, engomadinhos, estorninhos, grilinhos, leiteirinhos, meirinhos, mimosinhos, mochinhos, peixeirinhos, pucarinhos, valentinhos, Vermelhinhos, aldrabões, aranhões, atavãos, atavões, borrachões, ladrões, leirões, melões, ortigões, pelões, picões, pimentões, pimpões, resmungões, ricalhões, tecelões, valentões.
Esta longa lista não se pode ler e interpretar como uma espécie de alcunhas colectivas, é um cultivado instrumento da relação comunitária, e oferece informação preciosa sobre a terra e os humanos que a povoam. Evoca os trabalhos do campo e as asperezas da geografi a; dá indicações sobre as actividades económicas; assinala profi ssões e, entre outros aspectos, compõe toda uma história da região em que se conjugam a caricatura e o bom espírito.
As “nomeadas” das terras correspondem certamente a um espaço de palavra que caracteriza e dimensiona toda a região. Uma espécie de grande contexto comunicacional, memória e tradição colectiva, em que se encontram também os saberes, as normas e os enunciados instituidores, que orientam os trabalhos e os dias, e regulam os rituais da vida, as celebrações festivas e lutuosas. A dimensão lúdica e estética, sobretudo literária e musical, é uma parte preponderante, neste hipertexto enciclopédico que interliga e identifica a comunidade.
Houve em Trás-os-Montes uma literatura oral excepcionalmente rica (avaliando pelo espólio, certamente parcial, que tem conseguido salvar-se), apreciada e louvada por todos os romanceiristas desde Almeida Garrett. Além das recolhas mais geralmente conhecidas, relembro os dois volumes do P. Firmino Martins (1890-1965), Folklore do Concelho de Vinhais (1928 e 1939, com reed. em 1987 e 1997) e, de mais recente publicação, os volumes do Romanceiro editados por Manuel da Costa Fontes (Coimbra, 1987), e as Orações de Ligares, recolhidas por Guerra Junqueiro e editadas por Aliete Galhoz (Porto, 2001). São narrativas e textos líricos de origem culta, muitos deles bem conhecidos e estudados pelos pesquisadores da literatura tradicional. O que me parece mais notável, é a sua disseminação numa província com escassíssima interacção escolar e tão remota em relação aos núcleos de produção cultural, e sobretudo a sua impregnação no convívio conversacional e no imaginário popular.
Miguel Torga considerava que a melhor caracterização dos trasmontanos era o sentido da unversalidade, a possibilidade de ver e correr o mundo e fazer história, sem se submeter aos limites da sua condição nativa. «Afi rmei um dia em letra redonda que o universal é o local sem paredes. E é, de facto. Ninguém aqui, alfabeto ou analfabeto, se confi na à exiguidade do seu agro. Todos se desmedem no carácter e na acção. Os que fi cam, os que emigram e os que sonham emigrar são marcos geodésicos humanos que sinalizam o berço e ao mesmo tempo acenam a quantos outros, ao longe, se situam também na crosta terrestre e lhe triangulam as dimensões e alargam a perspectiva.» (Diário, 27/6/91).
«O universal é o local sem paredes» – metáfora comum, para quem está habituado a subir ao cimo dos montes e tem o privilégio de alargar a linha do horizonte para além dos limites emparedados. Todavia, pode não ser esse o aspecto mais interessante numa “teoria da trasmontaneidade”.
Como quem deixa correr o pensamento ocioso, o que me toca, quando me lembro trasmontano é, antes de mais nada, o amor da liberdade que se articula com a modéstia dos recursos da terra. Depois, a solidariedade de quem foi aprendendo a gerir a pobreza e a aspereza do meio. Finalmente, uma certa presunção de herói que está presente na consciência de todos os resistentes que sobrevivem e que mantêm o privilégio de viver livres e de verem o mundo de longe.
A presunção de herói, parece estranha, num recanto geográfi co que não tem praticamente referência na história nacional. Os manuais da história portuguesa não sabem nada de importante que tenha acontecido em Trás-os-Montes, para além de dois ou três episódios menores, acidentais, perdidos em nota de rodapé. O próprio título do Ducado que designou a Casa Real, nos últimos 250 anos da
Monarquia, não é uma referência nativa e, sob o ponto de vista territorial, é totalmente imotivado, visto que em Bragança nunca viveu nenhum Duque, nem nenhum dos seus descendentes reais, nem a região recebeu qualquer especial benesse pelo título.
O gosto da heroicidade vem-nos com certeza da experimentação da extrema humildade, do confronto com a aspereza do meio ambiente, da afi rmação da vontade contra a imponência austera dos montes que nos rodeiam e nos apoucam, da consciência da solidão e do isolamento em relação ao corpo nacional.
Em todo o caso, a nossa presunção de heróis é discreta, afi rma-se sobretudo fora da terra, e é compatível com as virtudes da modéstia e da simplicidade.
Na escola primária da minha infância, justamente a meio do século passado, dizia-nos um professor austero, amante da disciplina até à crueldade: «Nas campanhas militares da África e da Europa os ofi ciais portugueses preferiam sempre os soldados trasmontanos».
Ingénua ilusão da vanglória, ou dolosa exploração da inocência… Fica-nos o logro e o pouco proveito, e uma lembrança de nostalgia renovadamente infantil.
Trás-os-Montes sempre foi um espaço pouco favorecido quanto aos recursos naturais de aproveitamento económico e quanto às condições de enriquecimento. Por estas ou por outras razões, nunca se verificaram ali grandes concentrações de riqueza, nem de domínio fundiário. Também não há grandes espaços urbanos de enriquecimento burguês. Nas mais de 500 povoações do distrito de Bragança, não há nenhuma em que alguém seja dono exclusivo de toda a terra. É possível que tenha havido uma sistemática insubmissão contra os senhores e proprietários ausentes. Trás-os-Montes fi cava longe de Lisboa, inacessível, e deveria ser muito difícil obrigar os povos ao pagamento de foros e de rendas.
Temos alguns ecos de rebeliões e de silenciamentos forçados de meirinhos, capatazes e mesmo de fidalgos arrogantes. A generalizada distribuição da propriedade, vem de tempos remotos (está bem documentada, pelo menos a partir do século XVIII), e constitui um importante factor de liberdade individual. Dou o exemplo de Vale de Gouvinhas, onde nasci. Em 1758, segundo o testemunho das Memórias Paroquiais, contava 86 vizinhos, dos quais 12 viviam sobre si e tinham condições para comprar trabalho. Quer dizer, não havia ninguém que pudesse monopolizar o trabalho de ninguém. Quem não quisesse trabalhar para um “senhor”, tinha mais uma dezena de alternativas para poder trabalhar para outros. Isto signifi ca que as pessoas tinham no seu horizonte de realização, uma expectativa de liberdade relativa, ninguém os podia condenar à fome ou à morte. Este sentido da liberdade acho que é importante no estereótipo do trasmontano. A relativa pobreza é também condição de liberdade, como muito bem se exprime no apanágio que tantas vezes ouvi repetir: «lobo magro, mas sem coleira».
                neto.exoterra@sapo.pt

Telmo Verdelho


Publicado em: Latitudes Cahiers Lusophones (Paris), nº. 29, avril 2007, p.33-36. (ISSN: 1285— 07569 e em Trás-os-Montes e Alto Douro – Mosaico de Ciência e Cultura, Exoterra, 2011

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