Nativo de Trás-os-Montes, amante e sempre
saudoso da terra, muitas vezes me questiono sobre a razão de ser e de parecer
desta condição de origem, arrastada como uma “espécie de sandice”, pelos
transmontanos que vagueiam pelo mundo. Toda a gente é “natural” de um lugar.
Mas, para além disso, é razoável pensar que todos os humanos são
ontologicamente indiferenciados, como a virtualidade do número que nos conta,
numa quantidade sempre crescente, de iguais e mais iguais. Na consciência ocidental
do fenómeno humano, a notação de origem é uma referência irrelevante para um
percurso de plenitude. A afirmação de S. Paulo «Já não há judeu nem grego, nem escravo
nem livre, nem homem nem mulher (…)» (Gálatas3,28, reiterada em Romanos,
e Colossenses 3,1-4,6) ilumina o sentido da radical igualdade do humano, haja ou não
motivação transcendente. Somos todos iguais. Todavia, do ser não saberei falar.
O que eu observo é o modo. Entre as diferenças de modo, gostaria de entender
esta singularidade que nos atribuímos, porque julgamos ser únicos, nós os
transmontanos. Serve-me, desde logo, a percepção comum do tempo e do espaço
como coordenadas que nos identificam e nos distinguem de todos os outros. Toda
a gente é “natural” de um lugar, e não pode mais deixar de ter nascido nesse
lugar, e por isso, a “naturalidade” é o primeiro grau da memória que nos
reconhece. Não sei se alguma província doconhecimento humano (hoje que se pretende fazer ciência
sobre toda a realidade, “res visibilia et invisibilia”) sabe explicar esta
condição dos viventes. A memória do lugar, preenchida pelos rostos, pelas
coisas, pelos usos e costumes, é como uma confi- guração mental instituidora,
uma referência ou “marca” de pertença que se repercute para sempre no horizonte
do quotidiano de toda a gente. Entende-se que não se devem valorizar diferenças
de condição nesta barca do mundo, pelo risco da dominação injusta. Em todo o
caso, não me preocupa aqui a controvérsia. Para mim, os qualificativos de
superioridade ou de inferioridade não implicam o domínio das vontades.Todo o
homem é meu irmão e não tomo a variedade das gentes comorazão de hierarquias ou
excelências, a diferença traz a surpresa do gostode viver e o desterro da
monotonia.O nosso lugar-donde é fonte, é matriz, é campo de descoberta
eaventura, e tem amplidões, recantos e jardins secretos para acolhertodos os
sonhos que pudermos inventar.Temos uma recheada antologia de descrições de
Trás-os-Montescom predicados gloriosos e epítetos cintilantes, que exaltam a
suabeleza entretecida de contrastes, lendas e mistérios. Descrevem avariação
orográfi ca e a soberania das alturas, a aspereza e a harmoniapolicromática dos
montes e vales, deixando transparecer um quadro degrandezas e de atrevimento
humano no confronto quotidiano, quasesolitário, com a natureza e os seus
grandes silêncios. Uma espécie de solidão vivida em grupo conivente e solidário.Não poderemos saber se
Trás-os-Montes é realmente um lugar no mundo com objectiva superior
belezanatural. Os poetas enganam-nos, por seu natural ofício e, em qualquer
caso, quem faz a beleza do mundosão os olhos das mulheres e dos homens. O grau
zero da verdade aconselha-nos a pensar que todos oslugares do globo têm uma
mensagem criadora e, por isto ou por aquilo, são todos incomensuravelmentebelos.
Mas porque este lugar é a terra do meu pai, sufi cientemente por isso mesmo, me
fascina e é merecedor dos epítetos e da oratória
generosa. Proclamo a beleza suprema do “rio da minha aldeia”.
O nosso “reino maravilhoso” é memória,
entre nós cultivada que nos compraz e nos compensa dodesencontro dos tempos e
das injúrias dos políticos.Os turistas simpáticos dizem-nos que Trás-os-Montes
“tem horizontes cristalinos e paisagensgrandiosas e espectaculares”. Eu acho
que eles vêem pouco. Da minha infância transmontana guardo
uma reminiscência jubilosa e digna de
todos os louvores do Criador, evocados no salmo 148: O sol, a lua e as estrelas que brilham, a
sinfonia do vento e da chuva “et omnes abyssi; ignis et grando,nix et glacies”
e os montes e vales esplendorosos, e os animais do campo e as árvores que dão
fores e frutos, que oferecem o refrigério da sombra e que ensinam o viver lento
e paciente.
A nossa terra faz-nos falta para falarmos
da felicidade. Lá podemos situar aquela Pasárgada que tem tudo e, para além de
tudo, tem ainda os impossíveis sonhos que vão preenchendo a nossa esperança de
viver.
Na literatura portuguesa, as referências a
Trás-os-Montes, são geralmente marcadas por uma certa complacência, sobretudo
entre os autores nativos. A eles devemos, em grande parte, essa imagem que nos
colocava entre as “mais típicas províncias de Portugal” segundo a expressão de
Fialho de Almeida (Os Gatos). Tínhamos a protecção da distância que nos
redourava de mistério e nos conservava como reino de encantamentos.
Desconsiderada a excepção de Eça de
Queirós, citadino e disfémico, que teve a desinspirada ideia de inventar “um
estudante de teologia, rude e sebento transmontano” (Os Maias)
(perdoamos-lhe a afronta, talvez ditada por alguma circunstância de maus
humores contra Camilo, ou pela intenção mais sibilina de evocar criticamente o
“transmontanismo” papal — do italiano “tramontanismo”), são gerais, na memória
literária, os testemunhos de generosa apreciação. Para além das louvadas
belezas naturais e das boas qualidades das gentes, neles vemos repetidos alguns
emblemas que nos eram atribuídos e que nos compraziam. Um dos mais comuns
exaltava a nossa hospitaleira franqueza. Tomo a citação de Ramalho Ortigão,
“escritor viajado” e com lugar canónico na galeria dos observadores críticos da
nação: «Quem bate a uma porta no Minho tem a
certeza de ouvir, noventa vezes sobre cem, as seguintes perguntas: – Quem
está aí?... quem é o senhor?... quem procura?... que lhe quer?... Quem bate
a uma porta em Trás-os-Montes tem iguais probabilidades de ouvir uma única
resposta. Entre quem é.
O minhoto é humilde, resignado, sofredor;
por isso timorato e precavido. O trasmontano é resistente e arrebatado; por
isso é aberto e decisivo.» (As Farpas, t.1. p. 23, Lisboa, 1887,
transcrição com actualização ortográfica).
Na minha adolescência, sem querer
intencionalmente verifi car a persistência deste emblema, juntamente com outros
moços estudantes, percorríamos, nas férias da Páscoa e do Natal, as casas da
nossa e de outras aldeias, e pudemos confi rmar a asserção, sem uma única
quebra.
«– Entre, – Quem é?». E entrávamos, e o
encontro era sempre uma festa memorável e inesperada como um céu aberto ou um
segredo desvendado.
Não era tanto uma questão de franqueza,
era sobretudo uma atitude de solidariedade elementar, pressuposto antiquíssimo
de civilização. Quem bate à porta não é ladrão e precisa de entrar, porque fora
das casas sempre estará a inclemência do tempo. E depois, «quem mal não usa,
mal não cuida e mal não teme».
Um outro ditado emblemático aflorava de
modo frequente no nosso discurso colectivo: «Para cá do Marão mandam os que cá estão». Digo “aflorava”, continuo a falar do
passado, porque já agora o discurso mudou, e mudaram também as condições das
vidas e do relacionamento com os gabinetes do poder.
Já nem os montes nos protegem do
esvaziamento da riqueza humana e económica. Estamos à mercê das unhas
insolentes e prepotentes do centralismo político. Bem dizem os sábios que todo
o poder é egoista e faz as leis em seu favor, muitas vezes em prejuízo da
comunidade e sempre com desdém pelos fracos. Lisboa perdeu a consciência de um
espaço nacional, não lhe interessam as fronteiras nem as regiões fronteiriças
que estão vazias de votos, e não dão acesso às galerias do poleiro nem às
gamelas do orçamento. E, pelo pior, o centralismo jacobino coalesce agora com
as dependências da globalização. As regiões ditas do interior sofrem
dependências, como nunca tinha acontecido, até ao limite da sobrevivência. Que
os portugueses vão nascer a Badajoz, tornou-se um facto sem qualquer outro
sentido, para além da pura moralidade económica. Para as mentes iluminadas do
Terreiro do Paço não é possível encontrar qualquer outra dimensão nos vínculos
de corresponsabilidade que relacionam as comunidades humanas. O mais interessante dos nossos ditos
emblemáticos é o que afi rma a radical disponibilidade para aceitaro outro e
para colaborar no bem comum: «Por bem não há quem!»
O enunciado, pelo seu aticismo e pelo peso
dos anos, pode parecer um pouco enigmático para os portugueses de hoje, mais habituados
ao discurso televisivo do que ao texto escrito. São densos e abertos os
sentidos que contém e que sugere. Antes de mais nada, a recusa da parcialidade
e da discriminação, e depois a generosidade fraternal para o acolhimento e para
a relação com os outros.
Integra-se neste lema um quadro da relação
social que se verificava na vida quotidiana, e sobretudo nos momentos de
encontro de populações de diferentes terras, em actos festivos e nas feiras
periódicas. As festas e as feiras da minha infância e adolescência estão
abundantemente preenchidas por rituais de encontro, celebrados como anagnórises
de redenção. O reconhecimento do outro é uma oportunidade de superação dos
nossos limites, alarga a esperança da vida e aproxima da felicidade.
Surpreendentes, exóticos, sempre acolhedores e verdadeiramente recreativos eram
os homens e as mulheres de outras terras. Traziam muitas novidades e a certeza
de que o mundo também podia ser interessante para além da nossa aldeia.
A nossa sociabilidade era feita pelo gosto
de reconhecer o outro, de o nomear e de o referenciar com aquela afeição
crítica que sabe dar sabor à diferença de cada um.
Os habitantes de todas as povoações,
grandes e pequenas, tinham um epíteto ou apodo ou “nomeada” que os
singularizava. É certo que também os de Lisboa são “alfacinhas” e os do Porto
são “tripeiros” e, por outro lado, no adagiário português há vários enunciados
proverbiais caracterizadores do imaginário simbólico, que distingue alguns
povos e terras. como por exemplo: «Arrenego do mouro e do judeu e do homem de
Viseu e do braguês que é pior que todos os três; mas lá vem o do Porto, com seu
contrato, é pior que todos os quatro, e o de Santarém que não fi ca a dever
nada a ninguém, e o de Beja que a nenhum deles tem inveja, mas o ilhéu é de se
lhe tirar o chapéu, e pior é o de Lisboa que de todos se abotoa.»
Mas não são coisas comparáveis, nem pelo
vulto urbano, nem pelo espaço discursivo, raro e obliterado. As nossas cognominações entretecem a
relação, são como uma carta de reconhecimento que nomeia e identifica. São um
elaborado hipertexto que faz parte da tradição oral transmitida como um
exercício da cultura que institui e dimensiona uma comunidade.
O Abade de Baçal (Francisco Manuel Alves –
1865-1947), nas suas épicas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de
Bragança, recolhe esses epítetos etnonomásticos, às centenas, porque os há
para todas as terras e com muitas variantes. E o bom do Abade ainda deixou
passar intencionalmente alguns chamadoiros «de carácter cornígero, coprológico
e mundaneiro, por serem demasiado livres e principalmente porque são filhos da
maledicência e não têm curso geral popular» (Bragança, 2000, t. IX, p.260).
Não sei de outras províncias que assim
tenham cultivado o reconhecimento colectivo e pormenorizado dos lugares e das
gentes. Muitos desses apodos formam sequências versifi cadas e são verdadeiros
hinos, com recorte literário, de homenagem à capacidade de convívio espirituoso
e fraternal de toda a região.
Os de Vale de Gouvinhas eram “cataventos”,
os da Bouça “paniegos” ou “talouqueiros”, os de Vale das Fontes “torgueiros”,
“engomadinhos” os de Miradezes, os da Fradizela “fouceiros”, “lavradores” os
das Aguieiras, os de Carvalhais “pucareiros”, nos Avantos são “aranhões”,
“barbas” em Chelas, “cucos” nas Pousadas e “escaravelhos” em Paradela, os de
Frechas são “peixeiros”, no Navalho “pelados”, e “beldroegas” em Vale de
Prados, “malucos” em São Salvador, em Vale de Juncal “doutores”, “borrachos” em
Contins, e na Longra “matadores”, etc…
Percorrendo as várias centenas de epítetos
encontramos um universo semântico muito informativo sobre a região e as suas
características geográfi cas, económicas e humanas. Muitos deles são formados
com o sufixo - eiro: aguazileiros, albardeiros, arranheiros,
azeiteiros, balfurinheiros, batateiros, batoteiros, besteiros, bicheiros,
bioqueiros, bodegueiros, bolhaqueiros, burriqueiros, caceteiros, caixeiros,
caloteiros, caneleiros, cantareiros, carneireiros, carneiros, carrasqueiros,
carreteiros, carunheiros, carvoeiros, casqueiros, cavouqueiros, ceboleiros,
cerejeiros, chaleiros, chicheiros, chocalheiros, cinteiros, coelheiros,
coimeiros, costaneiros, costiceiros, escudeiros, espingardeiros, ferreiros, fi
gacheiros,
foiceiros, fouceiros, fraguiceiros,
furagateiros, gaiteiros, gougueiros, granjeiros, justiceiros, latoeiros,
madronheiros, malapeiros, mamoteiros, medeiros, meleiros, merendeiros,
moleiros, nabinheiros, oleiros, onzeneiros, padeiros, pateiros, peixeiros,
peliqueiros, peneireiros, pepineiros, pereiros, periqueiros, piconheiros,
pisoeiros, piteiros, pucareiros, queijeiros, rabequeiros, ranzeiros, salseiros,
sardinheiros, sobreiros, sopeiros, soqueiros, soreiros, sumagreiros,
taberneiros, taligueiros, talouqueiros, tamborileiros, tamborileiros,
telheiros, tendeiros, torgueiros, torgueiros, vassoureiros, zaragateiros.
Além da pesrpectiva semântica, nota-se a
inventiva linguística no recurso a formações disfémicas e muito expressivas
como os diminutivos e aumentativos, atribuídos aos “fregueses” de vários
lugares: coitadinhos, descansadinhos, engomadinhos, estorninhos, grilinhos,
leiteirinhos, meirinhos, mimosinhos, mochinhos, peixeirinhos, pucarinhos,
valentinhos, Vermelhinhos, aldrabões, aranhões, atavãos, atavões, borrachões,
ladrões, leirões, melões, ortigões, pelões, picões, pimentões, pimpões,
resmungões, ricalhões, tecelões, valentões.
Esta longa lista não se pode ler e
interpretar como uma espécie de alcunhas colectivas, é um cultivado instrumento
da relação comunitária, e oferece informação preciosa sobre a terra e os
humanos que a povoam. Evoca os trabalhos do campo e as asperezas da geografi a;
dá indicações sobre as actividades económicas; assinala profi ssões e, entre
outros aspectos, compõe toda uma história da região em que se conjugam a
caricatura e o bom espírito.
As “nomeadas” das terras correspondem
certamente a um espaço de palavra que caracteriza e dimensiona toda a região.
Uma espécie de grande contexto comunicacional, memória e tradição colectiva, em
que se encontram também os saberes, as normas e os enunciados instituidores,
que orientam os trabalhos e os dias, e regulam os rituais da vida, as
celebrações festivas e lutuosas. A dimensão lúdica e estética, sobretudo
literária e musical, é uma parte preponderante, neste hipertexto enciclopédico
que interliga e identifica a comunidade.
Houve em Trás-os-Montes uma literatura
oral excepcionalmente rica (avaliando pelo espólio, certamente parcial, que tem
conseguido salvar-se), apreciada e louvada por todos os romanceiristas desde
Almeida Garrett. Além das recolhas mais geralmente conhecidas, relembro os dois
volumes do P. Firmino Martins (1890-1965), Folklore do Concelho de Vinhais (1928
e 1939, com reed. em 1987 e 1997) e, de mais recente publicação, os volumes do Romanceiro
editados por Manuel da Costa Fontes (Coimbra, 1987), e as Orações de
Ligares, recolhidas por Guerra Junqueiro e editadas por Aliete Galhoz
(Porto, 2001). São narrativas e textos líricos de origem culta, muitos deles
bem conhecidos e estudados pelos pesquisadores da literatura tradicional. O que
me parece mais notável, é a sua disseminação numa província com escassíssima
interacção escolar e tão remota em relação aos núcleos de produção cultural, e
sobretudo a sua impregnação no convívio conversacional e no imaginário popular.
Miguel Torga considerava que a melhor
caracterização dos trasmontanos era o sentido da unversalidade, a possibilidade
de ver e correr o mundo e fazer história, sem se submeter aos limites da sua
condição nativa. «Afi rmei um dia em letra redonda que o universal é o local
sem paredes. E é, de facto. Ninguém aqui, alfabeto ou analfabeto, se confi na à
exiguidade do seu agro. Todos se desmedem no carácter e na acção. Os que fi
cam, os que emigram e os que sonham emigrar são marcos geodésicos humanos que
sinalizam o berço e ao mesmo tempo acenam a quantos outros, ao longe, se situam
também na crosta terrestre e lhe triangulam as dimensões e alargam a
perspectiva.» (Diário, 27/6/91).
«O universal é o local sem paredes» –
metáfora comum, para quem está habituado a subir ao cimo dos montes e tem o
privilégio de alargar a linha do horizonte para além dos limites emparedados.
Todavia, pode não ser esse o aspecto mais interessante numa “teoria da
trasmontaneidade”.
Como quem deixa correr o pensamento
ocioso, o que me toca, quando me lembro trasmontano é, antes de mais nada, o
amor da liberdade que se articula com a modéstia dos recursos da terra. Depois,
a solidariedade de quem foi aprendendo a gerir a pobreza e a aspereza do meio.
Finalmente, uma certa presunção de herói que está presente na consciência de
todos os resistentes que sobrevivem e que mantêm o privilégio de viver livres e
de verem o mundo de longe.
A presunção de herói, parece estranha, num
recanto geográfi co que não tem praticamente referência na história nacional.
Os manuais da história portuguesa não sabem nada de importante que tenha
acontecido em Trás-os-Montes, para além de dois ou três episódios menores,
acidentais, perdidos em nota de rodapé. O próprio título do Ducado que designou
a Casa Real, nos últimos 250 anos da
Monarquia, não é uma referência nativa e,
sob o ponto de vista territorial, é totalmente imotivado, visto que em Bragança
nunca viveu nenhum Duque, nem nenhum dos seus descendentes reais, nem a região
recebeu qualquer especial benesse pelo título.
O gosto da heroicidade vem-nos com certeza
da experimentação da extrema humildade, do confronto com a aspereza do meio
ambiente, da afi rmação da vontade contra a imponência austera dos montes que
nos rodeiam e nos apoucam, da consciência da solidão e do isolamento em relação
ao corpo nacional.
Em todo o caso, a nossa presunção de
heróis é discreta, afi rma-se sobretudo fora da terra, e é compatível com as
virtudes da modéstia e da simplicidade.
Na escola primária da minha infância,
justamente a meio do século passado, dizia-nos um professor austero, amante da
disciplina até à crueldade: «Nas campanhas militares da África e da
Europa os ofi ciais portugueses preferiam sempre os soldados trasmontanos».
Ingénua ilusão da vanglória, ou dolosa
exploração da inocência… Fica-nos o logro e o pouco proveito, e uma lembrança
de nostalgia renovadamente infantil.
Trás-os-Montes sempre foi um espaço pouco
favorecido quanto aos recursos naturais de aproveitamento económico e quanto às
condições de enriquecimento. Por estas ou por outras razões, nunca se
verificaram ali grandes concentrações de riqueza, nem de domínio fundiário.
Também não há grandes espaços urbanos de enriquecimento burguês. Nas mais de
500 povoações do distrito de Bragança, não há nenhuma em que alguém seja dono
exclusivo de toda a terra. É possível que tenha havido uma sistemática
insubmissão contra os senhores e proprietários ausentes. Trás-os-Montes fi cava
longe de Lisboa, inacessível, e deveria ser muito difícil obrigar os povos ao
pagamento de foros e de rendas.
Temos alguns ecos de rebeliões e de
silenciamentos forçados de meirinhos, capatazes e mesmo de fidalgos arrogantes.
A generalizada distribuição da propriedade, vem de tempos remotos (está bem
documentada, pelo menos a partir do século XVIII), e constitui um importante
factor de liberdade individual. Dou o exemplo de Vale de Gouvinhas, onde nasci.
Em 1758, segundo o testemunho das Memórias Paroquiais, contava 86
vizinhos, dos quais 12 viviam sobre si e tinham condições para comprar
trabalho. Quer dizer, não havia ninguém que pudesse monopolizar o trabalho de
ninguém. Quem não quisesse trabalhar para um “senhor”, tinha mais uma dezena de
alternativas para poder trabalhar para outros. Isto signifi ca que as pessoas
tinham no seu horizonte de realização, uma expectativa de liberdade relativa,
ninguém os podia condenar à fome ou à morte. Este sentido da liberdade acho que
é importante no estereótipo do trasmontano. A relativa pobreza é também
condição de liberdade, como muito bem se exprime no apanágio que tantas vezes
ouvi repetir: «lobo magro, mas sem coleira».
Telmo Verdelho
Publicado em: Latitudes — Cahiers
Lusophones (Paris), nº. 29, avril 2007, p.33-36. (ISSN: 1285— 07569 e em Trás-os-Montes
e Alto Douro – Mosaico de Ciência e Cultura, Exoterra, 2011



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