
| António A. Pinelo Tiza |
O Inverno chega a Trás-os-Montes
quando o frio bate à porta e entra sem pedir licença. Novembro é o mês, se não
for antes, em que o desalmado se faz notar. Chegou, portanto, a estação fria
que, para o transmontano, o mesmo é dizer “chegou o Inverno”. Não há que ver:
aí estão as geadas, o sincelo, a neve. Das serras de Montesinho e da Sanábria
sopra o vento gelado que penetra até aos ossos e a chuva corre em cachoeiras
pelos regatos, secos no verão, e ensopa lameiros e nabais. Carvalhos,
castanheiros, freixos ganham aquela cor amarela e cada vez mais acastanhada até
que, por fim, deixam cair toda a sua folhagem. E ainda faltam dois meses para o
dia do solstício estipulado no calendário.
Anoitece cedo. O povo recolhe então
ao aconchego do lar, ao redor da lareira “que já se agradece”. A lenha havia
sido já recolhida, é certo, mas é preciso celebrar o início da longa estação,
como Deus manda. E aí estão as primeiras festas agrárias de Inverno. Festas
centradas na recolha da lenha, em tempo de homenagem aos mortos – os santos e
os féis defuntos. Na verdade, todos os entes queridos da família falecidos são
santos e daqui que ambas as celebração - a dos santos e a dos defuntos - se
confundam e se tornem uma só celebração. Neste espírito de religiosidade
funcional, a matéria-prima que é a lenha presta-se à dupla finalidade de
homenagear os mortos, em sufrágio colectivo de toda uma comunidade, e de
garantir a reserva energética produtora de calor e luz para a travessia de um
tempo de frio e escuridão. Há que fazer face a esta realidade bem expressa no
simbolismo: o verão configura o dia assim como o inverno representa a noite.
Longa noite que, pelas cíclicas celebrações festivas, vai sendo amenizada.
Será, porventura, por isto, que as
festas de inverno se conservam autênticas no Nordeste Transmontano.
Autenticidade, neste âmbito, significa uma relação directa com a vida do povo;
uma relação, portanto, existencial, porque imprescindível à sua sobrevivência,
por intermédio de uma simbologia nele profundamente arraigada: “l’hiver est la
saison des fêtes, des danses où les jeunes gens incarnent les esprits, pour
acquérir les dons qu’ils dispensent et s’approprier les pouvoirs qu’ils
possédent en s’identifiant à eux” (Caillois, 1950: 148). Nesta simbiose do
natural e do transcendente, o povo transmontano soube encontrar o justo
equilíbrio entre um e o outro e conciliar os rituais sagrados do culto aos
mortos com as suas necessidades vitais.
O Inverno começa, de facto, nos
Santos, já o dissemos; logo hão-de acontecer festividades a marcar o início
deste ciclo, como outras acontecerão a celebrar o seu fim e o início da
Primavera. Claro que não estão em causa as celebrações religiosas do
hagiológio, que essas foram instituídas para todo o mundo cristão. Referimo-nos
às celebrações mais ou menos festivas de cariz tradicional, com uma forte
componente de religiosidade popular e, portanto, impregnadas do devido carácter
sagrado no qual se mesclam elementos cristãos e pagãos. São as celebrações da
Lenha das Almas ou dos Santos, em vigor em muitas comunidades do Nordeste. A
festa aqui cumpre-se de uma forma muito peculiar: com o trabalho da lenha, com
o recordar dos mortos e com o sufrágio das almas dos familiares que já passaram
ao Eterno. Será, pois, o primeiro ritual festivo e premonitório do tempo
hibernal.
A
celebração
De todas estas festividades ou, a bem dizer,
simples rituais comunitários, há uma que se destaca pelo seu carácter único em
todo o Nordeste e pela riqueza do simbolismo dos rituais que o constituem, no
contexto que acabámos de descrever – a festa da Cabra e do Canhoto.
Esta peculiar tradição permanece vigente
em Cidões, uma pequena localidade situada a sul do município de Vinhais, numa
íngreme encosta da margem esquerda do rio Tuela.
O dia da celebração é justamente no
último do mês de Outubro, entendendo-se pela madrugada do primeiro de Novembro.
A data remete-nos, hoje em dia, para o importado e muito em moda Halloween; poderemos vislumbrar relação
entre uma e outra, uma afinidade não resultante da recente aculturação
americana mas um legado dos Celtas com mais de dois milénios: “Halloween was
the date of the Celtic New Year” (Poppi, 2006: 205). A festa da Cabra e do
Canhoto celebra-se deste tempos imemoriais e, portanto, desde muito antes da
referida aculturação; contudo, se recuarmos no tempo, constataremos uma origem
comum e celta entre ambas as celebrações. Tal como a “cristianizada” festa de
Todos os Santos, também esta será o resquício da Samaine celta, “o dia da comunicação entre os vivos e os mortos”
(Loução, 2002: 269). No âmbito desta festividade, procedia-se à recolha da
lenha e, à boa maneira celta, acendiam-se enormes fogueiras. Uma prática
vigente em Cidões.
No essencial (basicamente, como soe hoje
dizer-se), a festa consiste num convívio comunitário, participado pela
população local e pelos forasteiros que são sempre bem acolhidos. Digamos que a
participação generalizada e extensiva a todo o povo de Cidões é uma prática
recente; é que, até ao tempo da juventude dos homens que hoje rondam a chamada
meia-idade, era uma festa exclusiva dos rapazes.
Era então costume comprarem os rapazes
da terra uma cabra velha e machorra, que os recursos económicos da época num
meio rural eram escassos e não davam para mais que isso. Pão, vinho e castanhas
havia em abundância, que era o que a terra produzia e de que hoje é ainda
farta.
Para cozer a cabra (podendo ser várias,
consoante o número de participantes) os rapazes roubavam a lenha por onde
podiam: o canhoto. Juntavam no largo vários troncos e, ao fim do dia, acendiam
uma gigantesca fogueira. Ao seu redor colocavam os necessários potes de ferro e
aí ficava a cabra a ferver durante três horas ou mais. Na mesma ou noutra
fogueira assavam as castanhas.
Desinibidos os rapazes com este convívio
bem recheado de comida e, sobretudo, de muito vinho, desenrolavam-se então os
rituais festivos, caracterizados pela instauração da desordem, da anomia e da
entropia. Rituais esotéricos necessários e adequados ao anúncio da estação que
acabava de dar entrada na natureza e, consequentemente, também na comunidade.
Rituais estabelecidos por um ancestral rito local e dirigidos pelo Diabo – um
personagem mascarado assim designado localmente e a quem se conferem atributos
diabólicos.
Os
rituais identitários da festa
Hoje em dia, a festa tem vindo a ganhar
uma dimensão supra-local. Deixou de ser aquele convívio de rapazes da terra
cujos actos consequentes, desenrolados pela noite e madrugada fora, tinham
implicações com todos os moradores e seus pertences. O carácter sui generis da festa e a sua valorização
cultural por parte das entidades locais e municipais, bem assim como o poder
dos meios de comunicação social, provocaram o conhecimento da sua existência no
exterior, ao ponto de atrair pessoas de vários pontos do País e mesmo do
estrangeiro.
Contudo, os actos essenciais e
identitários da festa mantêm-se intactos. Felizmente. São protagonizados pelo
grupo social dos rapazes, como sempre foi. O que se constata, como inovação ou
evolução espontânea da tradição, é a participação de todo o povo em
determinadas tarefas.
Manhã cedo, os rapazes juntam-se e,
munidos das adequadas alfaias, dirigem-se para o monte. O trabalho que têm pela
frente é o de cortar e transportar a lenha para a grande e solene fogueira – a
que preceitualmente marca o início do inverno e que há-se ser ateada na hora
estabelecida no rito festivo. Da lenha recolhida reservam os melhores troncos,
toros de carvalho, freixo e carrasco, para carregar o carro de bois que há-de
ser puxado, por eles mesmos, para a aldeia, à hora que o rito igualmente
determina.
Ao fim da tarde, dá-se início à
confecção da ceia, à base da carne rija das cabras. Acende-se uma boa fogueira
com as dimensões adequadas para este efeito. O cozinheiro é um homem da terra,
experimentado nestas lides, que desempenhou ininterruptamente estas funções
desde os seus tempos de juventude. Talvez por isso, conhece bem os segredos da
confecção do estufado e os temperos que lhe deve aplicar, de maneira a que a
carne fique tenra e saborosa. Uma cozedura que pode levar várias horas sobre as
brasas.
Ao lado, outra fogueira para assar as
castanhas. Outrora, seria um assador caseiro; hoje, dado o elevado número de
“festejeiros”, foi construído um outro com as medidas adequadas para satisfazer
o apetite de castanhas de várias centenas de pessoas.
Ao lado e à mão de semear, que é como
quem diz, de encher o copo, estão os pipos atestados de vinho novo. Cidões é
terra de bom vinho, não se situasse ela nas encostas do Tuela.
Enquanto isso, ateia-se a fogueira
festiva: gigantesca, impressionante, para aquecer e alumiar a todos; a noite já
muito que desceu e o frio aperta a sério. Fazendo jus à tradição celta,
quarenta dias após o equinócio do Outono, o início da nova estação é, assim,
assinalado com toda a pompa e solenidade: “o culto do fogo tinha um lugar de
grande relevo nas festas celtas” (Loução, 2002: 269). Por seu intermédio se
propicia à divindade para que o calor e a luz do sol não se extingam durante o
longo período de baixas temperaturas e de dias curtos e noites longas. A fogueira
permanecerá activa durante toda a noite, como que a iluminar os actos rituais
que logo se vão celebrar.
À hora aprazada, abrem-se as
hostilidades. Moradores da terra e forasteiros são servidos pelo cozinheiro de
cabra estofada e batatas cozidas. Uma delícia em noite fria mas bem aquecida
pelo convívio, pela amena cavaqueira, de onde em onde mais animada e, claro,
pelo vinho. Animada é também a festa pela música, tradicional como convém, da
gaita-de-foles da caixa e do bombo. Os mais entusiastas juntam-se ao grupo dos
gaiteiros ou das concertinas (estas também instrumentos tradicionais), cantam
as modas populares conhecidas e dançam. Come-se e bebe-se à descrição e assim
se cumpre o desígnio do antropólogo: “Il n’y a pas de fête, même triste par
définicion, qui ne comporte au moins un début d’excès et de bomdance […] la
fête se définit toujours par la danse, le chant, l’ingestion de nourriture, la
beuverie” (Caillois, 1950: 130).
E
do caos se fez uma nova ordem
À meia-noite, ouve-se o som estridente
do carro de bois. Surge da escuridão, vindo do monte. Desce a estrada, travado
pela força dos rapazes que, em circunstâncias como esta de descida íngreme,
toda ela tem que ser aplicada no controlo da sua marcha. Mais tarde, será no
sentido contrário.
Em cima do carro, no alto dos troncos e
para espanto dos desprevenidos, vem o personagem enigmático – o Diabo. Veste um
fato-macaco pintado com as insígnias da morte. Na cara, uma máscara de uma
beleza horrível, com cornos e uma cabeleira negra que pende até ao meio das
costas. Do alto da pilha de madeira, apresenta-se à multidão como o chefe das
hostes infernais, capaz de as mobilizar para a instauração do caos na
comunidade. O mascarado “assume o papel de personagem principal, em torna da
qual toda a acção festiva se desenrola; a metamorfose a que submete tem como
finalidade torná-lo um ser superior, transcendente, misterioso e profético”
(Tiza, 2006: 54). Tal como na Samaine celta, também hoje poderá
estabelecer a comunicação entre o homem e a divindade; função que a máscara lhe
confere: “One important piece of knowledge that is imparted, however, is the
secret of masquerade: the esoteric information that masking is only, in the
most basic terms, men transforming themselves into spirits” (Mack, 2006: 18). Um homem
transformado, talvez, em titã, capaz de estabelecer a relação com a divindade,
de provocar alguma forma de entropia para logo em seguida criar uma nova ordem.
“A ideia de renovo, presente nos rituais do Ano Novo, em que se tratava ao
mesmo tempo do renovo do tempo e da regeneração do Mundo – reencontra-se nas
encenações orgiásticas agrárias” (Eliade, 2002: 156) e materializa-se por acção
de um mito: um personagem superior presente na memória colectiva e representado
nestas celebrações pelo mascarado.
O carro da lenha, accionado pelos
rapazes, cuja energia parece renovar-se a cada passagem pelo largo da celebração,
onde vão ficando os “festejeiros” mais arraigados, percorre as estreitas ruas
da aldeia. De pé, no alto do madeiro, segue o titã mascarado e diabólico, dando
as suas ordens. Há que virar a aldeia de pernas para o ar: então, a rapaziada
abre as lojas e os currais para que os animais possam sair, empinam-se carros
de bois e voltam-se as carroças de burros, trocam-se os vasos das flores e das
plantas de uma casa para a outra ou, simplesmente, se colocam em qualquer lugar
da via pública; a gritaria dos rapazes e o chiar do carro fazem-se ouvir por
toda a aldeia; digamos que ninguém dorme nessa noite. Segundo manda a tradição
e o rito local, o caos foi instalado na comunidade pelo grupo social dos
rapazes, sob a direcção do mascarado feito diabo por uma noite de celebração
mágica. “Tempo de caos por excelência, em que proliferavam desordens e
irreverências, transgressões e transversões, bem como o desencadear de
excessos, fossem eles alimentares, lúdicos ou orgiásticos” (Lopes, 2000: 39). O
caos representa o Inverno, por uma noite que se deseja passageira, como a ordem
simboliza o Verão que há-de chegar. Por isso se introduz o caos por uma noite,
se comete toda a sorte de excessos e se cumprem os rituais.
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(In: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura, Exoterra, 2011).
Bibliografia
CAILLOIS,
Roger (1950), L’Homme et le Sacré, Ed.
Gallimard, Paris.
ELIADE,
Mircea (2002), O Sagrado e o Profano – A
Essência das Religiões, Ed. Livros do Brasil, Lisboa.
LOPES,
Aurélio (2000), A Face do Caos – Ritos de
Subversão na Tradição Portuguesa, Garrido Editores, Alpiarça.
LOUÇÃO, Paulo (2002), A Alma
Secreta de Portugal, Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa.
MACK, John (2006), Introduction: About Face, em Masks – The Art of Expression, The
British Museum Press, London.
POPPI, Cesare (2006), The Other Within: Masks and Masquerades in
Europe, em Masks – The Art of
Expression, The British Museum Press, London.
TIZA,
António A. Pinelo (2006), O Mascarado –
Ritos do Inverno Transmontano, em Máscara
Ibérica, Edições Caixotim, Porto.
António
André Pinelo Tiza - Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto. Doutorado em Didáctica das Ciências
Sociais pela Universidade de Valladolid.
Professor do Ensino Básico, Secundário e Superior. Autor: Inverno Mágico –
Ritos e Mistérios Transmontanos, Ed. Ésquilo, Lisboa. Máscara Ibérica
(coord.), Edições Caixotim, Porto. Estudo Antropológico das Mascaradas de
Zamora, Bragança e Douro, Ed. da Diputación Provincial de Zamora e da
Câmara Municipal de Bragança. Co-autor: Portugal y España – Vidas Paralelas, com Isidoro
González Gallego. Cancioneiro do Parque Natural do
Alvão. Colaborador, com artigos sobre
Etnografia e Educação, nas revistas: Brigantia, de Bragança; Tellus, de Vila Real; Jornal de Letras, de Lisboa; Stvdia Zamorensia, de Zamora, e outras.
Ex-Presidente
da Região de Turismo do Nordeste Transmontano. Presidente da Direcção da Academia Ibérica da Máscara.

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