quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

CIDÕES – A FESTA DA CABRA E DO CANHOTO (António Pinelo Tiza)



          
António A. Pinelo Tiza
  O Inverno chega a Trás-os-Montes quando o frio bate à porta e entra sem pedir licença. Novembro é o mês, se não for antes, em que o desalmado se faz notar. Chegou, portanto, a estação fria que, para o transmontano, o mesmo é dizer “chegou o Inverno”. Não há que ver: aí estão as geadas, o sincelo, a neve. Das serras de Montesinho e da Sanábria sopra o vento gelado que penetra até aos ossos e a chuva corre em cachoeiras pelos regatos, secos no verão, e ensopa lameiros e nabais. Carvalhos, castanheiros, freixos ganham aquela cor amarela e cada vez mais acastanhada até que, por fim, deixam cair toda a sua folhagem. E ainda faltam dois meses para o dia do solstício estipulado no calendário.
            Anoitece cedo. O povo recolhe então ao aconchego do lar, ao redor da lareira “que já se agradece”. A lenha havia sido já recolhida, é certo, mas é preciso celebrar o início da longa estação, como Deus manda. E aí estão as primeiras festas agrárias de Inverno. Festas centradas na recolha da lenha, em tempo de homenagem aos mortos – os santos e os féis defuntos. Na verdade, todos os entes queridos da família falecidos são santos e daqui que ambas as celebração - a dos santos e a dos defuntos - se confundam e se tornem uma só celebração. Neste espírito de religiosidade funcional, a matéria-prima que é a lenha presta-se à dupla finalidade de homenagear os mortos, em sufrágio colectivo de toda uma comunidade, e de garantir a reserva energética produtora de calor e luz para a travessia de um tempo de frio e escuridão. Há que fazer face a esta realidade bem expressa no simbolismo: o verão configura o dia assim como o inverno representa a noite. Longa noite que, pelas cíclicas celebrações festivas, vai sendo amenizada.
            Será, porventura, por isto, que as festas de inverno se conservam autênticas no Nordeste Transmontano. Autenticidade, neste âmbito, significa uma relação directa com a vida do povo; uma relação, portanto, existencial, porque imprescindível à sua sobrevivência, por intermédio de uma simbologia nele profundamente arraigada: “l’hiver est la saison des fêtes, des danses où les jeunes gens incarnent les esprits, pour acquérir les dons qu’ils dispensent et s’approprier les pouvoirs qu’ils possédent en s’identifiant à eux” (Caillois, 1950: 148). Nesta simbiose do natural e do transcendente, o povo transmontano soube encontrar o justo equilíbrio entre um e o outro e conciliar os rituais sagrados do culto aos mortos com as suas necessidades vitais.
            O Inverno começa, de facto, nos Santos, já o dissemos; logo hão-de acontecer festividades a marcar o início deste ciclo, como outras acontecerão a celebrar o seu fim e o início da Primavera. Claro que não estão em causa as celebrações religiosas do hagiológio, que essas foram instituídas para todo o mundo cristão. Referimo-nos às celebrações mais ou menos festivas de cariz tradicional, com uma forte componente de religiosidade popular e, portanto, impregnadas do devido carácter sagrado no qual se mesclam elementos cristãos e pagãos. São as celebrações da Lenha das Almas ou dos Santos, em vigor em muitas comunidades do Nordeste. A festa aqui cumpre-se de uma forma muito peculiar: com o trabalho da lenha, com o recordar dos mortos e com o sufrágio das almas dos familiares que já passaram ao Eterno. Será, pois, o primeiro ritual festivo e premonitório do tempo hibernal.

            A celebração

 De todas estas festividades ou, a bem dizer, simples rituais comunitários, há uma que se destaca pelo seu carácter único em todo o Nordeste e pela riqueza do simbolismo dos rituais que o constituem, no contexto que acabámos de descrever – a festa da Cabra e do Canhoto.
Esta peculiar tradição permanece vigente em Cidões, uma pequena localidade situada a sul do município de Vinhais, numa íngreme encosta da margem esquerda do rio Tuela.
O dia da celebração é justamente no último do mês de Outubro, entendendo-se pela madrugada do primeiro de Novembro. A data remete-nos, hoje em dia, para o importado e muito em moda Halloween; poderemos vislumbrar relação entre uma e outra, uma afinidade não resultante da recente aculturação americana mas um legado dos Celtas com mais de dois milénios: “Halloween was the date of the Celtic New Year” (Poppi, 2006: 205). A festa da Cabra e do Canhoto celebra-se deste tempos imemoriais e, portanto, desde muito antes da referida aculturação; contudo, se recuarmos no tempo, constataremos uma origem comum e celta entre ambas as celebrações. Tal como a “cristianizada” festa de Todos os Santos, também esta será o resquício da Samaine celta, “o dia da comunicação entre os vivos e os mortos” (Loução, 2002: 269). No âmbito desta festividade, procedia-se à recolha da lenha e, à boa maneira celta, acendiam-se enormes fogueiras. Uma prática vigente em Cidões.
No essencial (basicamente, como soe hoje dizer-se), a festa consiste num convívio comunitário, participado pela população local e pelos forasteiros que são sempre bem acolhidos. Digamos que a participação generalizada e extensiva a todo o povo de Cidões é uma prática recente; é que, até ao tempo da juventude dos homens que hoje rondam a chamada meia-idade, era uma festa exclusiva dos rapazes.
Era então costume comprarem os rapazes da terra uma cabra velha e machorra, que os recursos económicos da época num meio rural eram escassos e não davam para mais que isso. Pão, vinho e castanhas havia em abundância, que era o que a terra produzia e de que hoje é ainda farta.
Para cozer a cabra (podendo ser várias, consoante o número de participantes) os rapazes roubavam a lenha por onde podiam: o canhoto. Juntavam no largo vários troncos e, ao fim do dia, acendiam uma gigantesca fogueira. Ao seu redor colocavam os necessários potes de ferro e aí ficava a cabra a ferver durante três horas ou mais. Na mesma ou noutra fogueira assavam as castanhas.
Desinibidos os rapazes com este convívio bem recheado de comida e, sobretudo, de muito vinho, desenrolavam-se então os rituais festivos, caracterizados pela instauração da desordem, da anomia e da entropia. Rituais esotéricos necessários e adequados ao anúncio da estação que acabava de dar entrada na natureza e, consequentemente, também na comunidade. Rituais estabelecidos por um ancestral rito local e dirigidos pelo Diabo – um personagem mascarado assim designado localmente e a quem se conferem atributos diabólicos.

Os rituais identitários da festa

Hoje em dia, a festa tem vindo a ganhar uma dimensão supra-local. Deixou de ser aquele convívio de rapazes da terra cujos actos consequentes, desenrolados pela noite e madrugada fora, tinham implicações com todos os moradores e seus pertences. O carácter sui generis da festa e a sua valorização cultural por parte das entidades locais e municipais, bem assim como o poder dos meios de comunicação social, provocaram o conhecimento da sua existência no exterior, ao ponto de atrair pessoas de vários pontos do País e mesmo do estrangeiro.
Contudo, os actos essenciais e identitários da festa mantêm-se intactos. Felizmente. São protagonizados pelo grupo social dos rapazes, como sempre foi. O que se constata, como inovação ou evolução espontânea da tradição, é a participação de todo o povo em determinadas tarefas.
Manhã cedo, os rapazes juntam-se e, munidos das adequadas alfaias, dirigem-se para o monte. O trabalho que têm pela frente é o de cortar e transportar a lenha para a grande e solene fogueira – a que preceitualmente marca o início do inverno e que há-se ser ateada na hora estabelecida no rito festivo. Da lenha recolhida reservam os melhores troncos, toros de carvalho, freixo e carrasco, para carregar o carro de bois que há-de ser puxado, por eles mesmos, para a aldeia, à hora que o rito igualmente determina.

Ao fim da tarde, dá-se início à confecção da ceia, à base da carne rija das cabras. Acende-se uma boa fogueira com as dimensões adequadas para este efeito. O cozinheiro é um homem da terra, experimentado nestas lides, que desempenhou ininterruptamente estas funções desde os seus tempos de juventude. Talvez por isso, conhece bem os segredos da confecção do estufado e os temperos que lhe deve aplicar, de maneira a que a carne fique tenra e saborosa. Uma cozedura que pode levar várias horas sobre as brasas.
Ao lado, outra fogueira para assar as castanhas. Outrora, seria um assador caseiro; hoje, dado o elevado número de “festejeiros”, foi construído um outro com as medidas adequadas para satisfazer o apetite de castanhas de várias centenas de pessoas.
Ao lado e à mão de semear, que é como quem diz, de encher o copo, estão os pipos atestados de vinho novo. Cidões é terra de bom vinho, não se situasse ela nas encostas do Tuela.

Enquanto isso, ateia-se a fogueira festiva: gigantesca, impressionante, para aquecer e alumiar a todos; a noite já muito que desceu e o frio aperta a sério. Fazendo jus à tradição celta, quarenta dias após o equinócio do Outono, o início da nova estação é, assim, assinalado com toda a pompa e solenidade: “o culto do fogo tinha um lugar de grande relevo nas festas celtas” (Loução, 2002: 269). Por seu intermédio se propicia à divindade para que o calor e a luz do sol não se extingam durante o longo período de baixas temperaturas e de dias curtos e noites longas. A fogueira permanecerá activa durante toda a noite, como que a iluminar os actos rituais que logo se vão celebrar.
À hora aprazada, abrem-se as hostilidades. Moradores da terra e forasteiros são servidos pelo cozinheiro de cabra estofada e batatas cozidas. Uma delícia em noite fria mas bem aquecida pelo convívio, pela amena cavaqueira, de onde em onde mais animada e, claro, pelo vinho. Animada é também a festa pela música, tradicional como convém, da gaita-de-foles da caixa e do bombo. Os mais entusiastas juntam-se ao grupo dos gaiteiros ou das concertinas (estas também instrumentos tradicionais), cantam as modas populares conhecidas e dançam. Come-se e bebe-se à descrição e assim se cumpre o desígnio do antropólogo: “Il n’y a pas de fête, même triste par définicion, qui ne comporte au moins un début d’excès et de bomdance […] la fête se définit toujours par la danse, le chant, l’ingestion de nourriture, la beuverie” (Caillois, 1950: 130).

E do caos se fez uma nova ordem

À meia-noite, ouve-se o som estridente do carro de bois. Surge da escuridão, vindo do monte. Desce a estrada, travado pela força dos rapazes que, em circunstâncias como esta de descida íngreme, toda ela tem que ser aplicada no controlo da sua marcha. Mais tarde, será no sentido contrário.

Em cima do carro, no alto dos troncos e para espanto dos desprevenidos, vem o personagem enigmático – o Diabo. Veste um fato-macaco pintado com as insígnias da morte. Na cara, uma máscara de uma beleza horrível, com cornos e uma cabeleira negra que pende até ao meio das costas. Do alto da pilha de madeira, apresenta-se à multidão como o chefe das hostes infernais, capaz de as mobilizar para a instauração do caos na comunidade. O mascarado “assume o papel de personagem principal, em torna da qual toda a acção festiva se desenrola; a metamorfose a que submete tem como finalidade torná-lo um ser superior, transcendente, misterioso e profético” (Tiza, 2006: 54). Tal como na Samaine celta, também hoje poderá estabelecer a comunicação entre o homem e a divindade; função que a máscara lhe confere: “One important piece of knowledge that is imparted, however, is the secret of masquerade: the esoteric information that masking is only, in the most basic terms, men transforming themselves into spirits” (Mack, 2006: 18). Um homem transformado, talvez, em titã, capaz de estabelecer a relação com a divindade, de provocar alguma forma de entropia para logo em seguida criar uma nova ordem. “A ideia de renovo, presente nos rituais do Ano Novo, em que se tratava ao mesmo tempo do renovo do tempo e da regeneração do Mundo – reencontra-se nas encenações orgiásticas agrárias” (Eliade, 2002: 156) e materializa-se por acção de um mito: um personagem superior presente na memória colectiva e representado nestas celebrações pelo mascarado.
O carro da lenha, accionado pelos rapazes, cuja energia parece renovar-se a cada passagem pelo largo da celebração, onde vão ficando os “festejeiros” mais arraigados, percorre as estreitas ruas da aldeia. De pé, no alto do madeiro, segue o titã mascarado e diabólico, dando as suas ordens. Há que virar a aldeia de pernas para o ar: então, a rapaziada abre as lojas e os currais para que os animais possam sair, empinam-se carros de bois e voltam-se as carroças de burros, trocam-se os vasos das flores e das plantas de uma casa para a outra ou, simplesmente, se colocam em qualquer lugar da via pública; a gritaria dos rapazes e o chiar do carro fazem-se ouvir por toda a aldeia; digamos que ninguém dorme nessa noite. Segundo manda a tradição e o rito local, o caos foi instalado na comunidade pelo grupo social dos rapazes, sob a direcção do mascarado feito diabo por uma noite de celebração mágica. “Tempo de caos por excelência, em que proliferavam desordens e irreverências, transgressões e transversões, bem como o desencadear de excessos, fossem eles alimentares, lúdicos ou orgiásticos” (Lopes, 2000: 39). O caos representa o Inverno, por uma noite que se deseja passageira, como a ordem simboliza o Verão que há-de chegar. Por isso se introduz o caos por uma noite, se comete toda a sorte de excessos e se cumprem os rituais.

                neto.exoterra@sapo.pt
Tudo volta ao normal no dia de Todos os Santos. Um novo ano celta nasceu, uma nova estação, entre o equinócio e o solstício, uma nova ordem se impôs, aquela que renasceu do caos. Necessário se tornou o sacrifício da cabra e a sua consumição em liturgia comunitária, por todo o povo, para que a divindade fosse aplacada e se desse início a um novo ciclo. Cumpridos que foram os rituais profanos de hoje, sagrados de outrora, fica agora o mesmo povo preparado para a longa travessia do tempo invernal.

(In: Trás-os-Montes e Alto Douro, Mosaico de Ciência e Cultura, Exoterra, 2011).


Bibliografia
CAILLOIS, Roger (1950), L’Homme et le Sacré, Ed. Gallimard, Paris.
ELIADE, Mircea (2002), O Sagrado e o Profano – A Essência das Religiões, Ed. Livros do Brasil, Lisboa.
LOPES, Aurélio (2000), A Face do Caos – Ritos de Subversão na Tradição Portuguesa, Garrido Editores, Alpiarça.
LOUÇÃO, Paulo (2002), A Alma Secreta de Portugal, Ésquilo Edições e Multimédia, Lda., Lisboa.
MACK, John (2006), Introduction: About Face, em Masks – The Art of Expression, The British Museum Press, London.
POPPI, Cesare (2006), The Other Within: Masks and Masquerades in Europe, em Masks – The Art of Expression, The British Museum Press, London.
TIZA, António A. Pinelo (2006), O Mascarado – Ritos do Inverno Transmontano, em Máscara Ibérica, Edições Caixotim, Porto.


Curriculum Vitae
            António André Pinelo Tiza - Licenciado em Filosofia pela Universidade do Porto. Doutorado em Didáctica das Ciências Sociais pela Universidade de Valladolid. Professor do Ensino Básico, Secundário e Superior. Autor: Inverno Mágico – Ritos e Mistérios Transmontanos, Ed. Ésquilo, Lisboa. Máscara Ibérica (coord.), Edições Caixotim, Porto. Estudo Antropológico das Mascaradas de Zamora, Bragança e Douro, Ed. da Diputación Provincial de Zamora e da Câmara Municipal de Bragança. Co-autor: Portugal y España – Vidas Paralelas, com Isidoro González Gallego. Cancioneiro do Parque Natural do Alvão. Colaborador, com artigos sobre Etnografia e Educação, nas revistas: Brigantia, de Bragança; Tellus, de Vila Real; Jornal de Letras, de Lisboa; Stvdia Zamorensia, de Zamora, e outras.
Ex-Presidente da Região de Turismo do Nordeste Transmontano. Presidente da Direcção da Academia Ibérica da Máscara.
         

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